Crítica | 7 Prisioneiros

A liberdade do homem preso

Segundo longa-metragem de Alexandre Moratto, depois de sua ótima estreia com “Sócrates” em 2018. Agora com “7 Prisioneiros”, ele volta a abordar questões sociais em filme reflexivo e com poder de continuar em nós, mesmo depois de acabar. Uma produção simples e que, apesar de não trazer uma trama tão original em uma narrativa já discutida em outras obras recentes, choca ao trazer como cenário o nosso país, em uma realidade assustadoramente possível.

O que você é capaz de fazer para ter uma vida melhor? Esse é o primeiro questionamento que o filme nos traz ao revelar a trajetória de Mateus (Christian Malheiros) e mais três jovens que saem da roça para uma grande oportunidade de trabalho em um ferro velho de São Paulo. Sob o comando de Luca (Rodrigo Santoro), um chefe rigoroso e controlador, eles logo percebem que foram vítimas de uma rede de trabalho escravo, suando para pagar dívidas infinitas e sem chance de escapatória. Entendendo a situação, Mateus passa a ser o braço direito de seu captor para salvar a pele de seus aliados. No entanto, esta arriscada escolha o faz deparar com um grande conflito moral.

“Se você quer subir, tem lugar pra tu”. A obra faz uma interessante análise sobre o que o homem é capaz de fazer para escalar ao topo e até que ponto ele carrega consigo seus valores. Mateus queria a liberdade, mas o preço é sempre alto demais. Fascinante esse dilema do protagonista que, ao mesmo tempo em que nos causa ódio, também compreendemos suas duras escolhas. Há algo cíclico nesse sistema corruptível que o filme narra e quanto mais o roteiro mergulha nessa situação, mais conseguimos enxergar Mateus em Luca, e esse homem que é apenas uma peça de um jogo sujo mas que um dia foi o menino que só queria lutar por algo melhor, e Luca em Mateus, e essa pessoa que precisou abrir mão de seus ideais pela mísera possibilidade de vencer. Os dois são prisioneiros de um sistema que não oferece saída. E os dois cederam a vida para construir um país que ninguém vê.

Quando a câmera passeia pelos fios elétricos de São Paulo, um peso bate no peito. É o trabalho de gente sem preço que está ali, de gente sem nome, sem rosto. É o fio que dá vida à cidade e ninguém percebe. O filme fala de sete prisioneiros do trabalho escravo, mas ficamos reflexivos sobre quantos mais deles são. É tão possível a realidade que mostra, que nos choca e traz angústia. A obra não tem um fim, ela continua em nós e sabemos que ela continua pelas ruas silenciosas da cidade também.

Alexandre Moratto é um ótimo diretor e apesar da simplicidade da produção, entrega mais um trabalho notável. Rodrigo Santoro é o grande destaque aqui, revelando um personagem repleto de camadas. Confesso que ainda tenho ressalvas quanto a atuação de Malheiros, que tem potencial, mas ainda falta. A produção de Ramin Bahrani traz um peso também. Tem muito do cinema social que ele investe e dos temas que ele já debateu outras vezes em sua excelente filmografia.

“7 Prisioneiros” revela esse Brasil que evitamos ver e surpreende pela forma como conclui. É uma visão pessimista, mas absurdamente real e humana. Termino dizendo o quão bom é ver a Netflix apostando nesse cinema nacional de qualidade. Uma porta necessária que se abre e espero que venham outros no mesmo nível.

NOTA: 8

País de origem: Brasil
Ano: 2021
Duração: 93 minutos

Disponível: Netflix
Diretor: Alexandre Moratto
Roteiro: Alexandre Moratto, Thayná Mantesso

Elenco: Christian Malheiros, Rodrigo Santoro