A fórmula do mistério

Depois do elogiado e premiado “Nada de Novo no Front”, o diretor suíço Edward Berger retorna para retratar uma outra guerra. Uma batalha silenciosa que ocorre dentro dos muros do Vaticano, entre os poderosos cardeais que buscam a vaga para ser o novo papa. Uma obra elegante, que fascina ao investigar este mundo secreto através de um suspense empolgante e muito bem conduzido. No entanto, acaba tropeçando ao criar algumas armadilhas para si mesmo. 

“Isto é uma guerra e você precisa escolher o seu lado”. O protagonista Lawrence, interpretado por Ralph Fiennes, é encarregado de liderar a votação que decidirá o futuro da igreja católica. É um personagem intrigante, muito bem defendido pelo ator, que se encontra em um momento decisivo para o mundo mas também de muitas reflexões internas, logo que passa a questionar sobre o que acredita ou não dentro de sua religião. Neste ponto, “Conclave” traz argumentos interessantes – longe do didatismo e da fácil exposição – sobre como a fé vem sempre acompanhada de dúvida. Porque a dúvida, diferente da certeza, exige crença. Exige esperança. 

Adaptação do livro de Robert Harris, o filme vai construindo um jogo de interesses, onde os religiosos passam a articular para ascenderem ao poder. No meio disso, há muitas revelações e picuinhas entre esses cardeais. Eles estão reclusos, distante de tudo o que ocorre no mundo lá fora. E existem mistérios a serem desvendados ali. É neste ponto que o longa ganha nossa atenção, mas é também o ponto em que ele acaba escorregando. Quando nós, como público, não fazemos parte dessas investigações, o suspense perde. Dentro na trama, existe o personagem do “mensageiro”, aquele que constantemente traz os segredos já revelados ao protagonista. Não há procura, não há descoberta. Há apenas a revelação. E elas não são tão bombásticas quanto o próprio filme acredita. 

“Conclave” constrói uma armadilha para si quando cria uma fórmula. O roteiro perde quando desenha sua trama de maneira episódica, pautada na repetição. Existe a suspeita. O problema chega ao protagonista. Ele revela a todos. E seguimos para o próximo e para o próximo, até a revelação final. Isso torna suas passagens não exatamente previsíveis, mas muito ordenadas e cíclicas. 

Apesar de gostar da trilha sonora assinada por Hauschka, acredito que ela trapaceia um pouco. Ela acaba por engrandecer de forma épica acontecimentos muitos simples no filme. Por vezes, a música estrondosa entra em cena apenas para mostrar freiras andando e nada de importante realmente acontecendo. Me soa como uma farsa. Uma tentativa de elevar aquilo que, na tela, não cresceu de fato. E isto acaba criando-se uma alta expectativa sobre sua trama que nunca se alcança. É como se ele gritasse que algo grandioso está para acontecer. Mas nunca tem. 

“Conclave” tem suas falhas, mas a sessão ainda é muito válida. É um filme correto, no geral. Não imagino ele sendo discutido daqui muitos anos, mas também não ofende ninguém. Um trabalho bem conduzido por Edward Berger e que não faz feio entre os indicados ao Oscar. Um bom entretenimento, nada muito além disso.

NOTA: 7,5

País de origem: EUA, Reino Unido, Irlanda do Norte
Ano: 2024
Duração: 120 minutos
Diretor: Edward Berger
Roteiro: Peter Straughan
Elenco: Ralph Fiennes, Stanley Tucci, John Lithgow, Carlos Diehz, Sergio Castellitto, Isabella Rossellini

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