Rumo ao topo

O grande vencedor do Oscar, “Anora” é caótico e empolgante. Embora minha expectativa para o novo filme de Sean Baker fosse alta, nada poderia me preparar para os absurdos e surpresas que ele nos entrega aqui. A protagonista, interpretada com coragem e intensidade pela jovem Mikey Madison, é sublime e nos conduz, com maestria, em sua jornada de sonhos, destruições e, claro, muitos prazeres.

Sean Baker segue com seu fascínio pelos marginalizados da sociedade. Aqui, ele coloca no centro da trama a jovem Anora (Madison), ou Ani, como prefere ser chamada. Uma prostituta que acredita ter tirado a sorte grande ao conhecer Ivan (Mark Eydelshteyn, excepcional), o filho de um magnata russo, herdeiro de um império. Ela se entrega à sua própria história de Cinderela, permitindo-se viver um romance inesperado. No entanto, quando a notícia do casamento chega à poderosa família do noivo, seu grande sonho começa a ruir.

No universo de “Anora”, todos buscam dominar o mundo, mas nem todos possuem esse poder. O filme constrói um jogo entre os que têm o dinheiro e os que estão abaixo, cumprindo suas devidas funções. E o prazer é a moeda de troca de nossa protagonista. Ela é como um furacão imbatível, possuindo a atitude e a coragem para cobrar tudo o que julga pertencê-la. Embora o filme se desperte como uma eloquente aventura rumo ao topo, a melancolia desta jornada se revela na farsa que se desdobra e no golpe duro que é voltar para a realidade. Nesta corrida rumo ao fracasso. Porque, no final, aqueles que estão na base do sistema nunca vão parar de lutar, mas jamais alcançarão a verdadeira ascensão.

O roteiro é marcado por dois atos distintos. O primeiro é a fantasia – a visão de Anora vivendo seu conto de fadas à la Uma Linda Mulher. O segundo é a queda. O sonho desmoronando. A protagonista se vê reunindo forças para permanecer no alto e evitar retornar ao ponto de partida. É também a busca, ainda que frágil, por afeto. É nesse momento que Igor (Yura Borisov) entra em cena, e o filme começa a ser narrado através dos seus olhos, mudando a perspectiva para como ele enxerga Anora. Esta quebra para a terceira pessoa é como se, pela primeira vez, ela estivesse realmente sendo vista por alguém.  

A beleza da obra reside nessa conexão entre os dois personagens. Em um mundo de senhores e subordinados, de moeda e poder, finalmente nasce algo real. Uma troca pura e sincera entre duas almas que se identificam e se encontram naquele caos.

“Anora” é uma experiência intensa, vibrante e, surpreendentemente, muito divertida. O filme dialoga de forma perfeita com as obras anteriores de Sean Baker, mas sinto que este é o seu ponto mais alto. Sua grande obra. Fui completamente absorvido pelos personagens e pelos desdobramentos absurdos da trama. E não posso deixar de ressaltar a performance de Mikey Madison. Ela entrega uma atuação excepcional, e nos mantém hipnotizados com sua presença poderosa e cativante.

NOTA: 9,0

País de origem: EUA
Ano: 2024
Duração: 139 minutos
Diretor: Sean Baker
Roteiro: Sean Baker
Elenco: Mikey Madison, Mark Eydelshteyn, Yura Borisov

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