amiga das circunstâncias
Greice é “amiga das circunstâncias, torna tudo o que é mentira em verdade, escreve de trás para frente”. É com essa descrição que somos apresentados a nossa intrigante protagonista, que estuda em Lisboa e, depois de ser acusada de cometer um misterioso acidente, se vê obrigada a retornar para Fortaleza. Uma jovem dividida entre dois lugares, construindo a própria história, em busca de sua identidade. Escrita e dirigida pelo cearense Leonardo Mouramateus, a obra encanta pelo bom humor e pelo roteiro bem amarrado, original e inesperadamente poético.
Aquele tipo de filme que melhora se você for sem muita noção do que se trata (e por isso vou evitar falar muito sobre a história por aqui). Isso porque a protagonista é uma grande trambiqueira e não tem vergonha alguma de mentir para fazer seus loucos planos darem certo. Tudo começa com um caça ao tesouro sendo montado. O final dessa busca só é revelada ao final e isso, não só fecha a obra em um ciclo poderoso e muito esperto, como também diz muito sobre a experiência que o diretor nos propõe. Somos convidados a participar desse jogo, onde as respostas vão sendo entregues aos poucos e onde o caminho já tem um destino final escrito, mas o percurso é o grande mistério.

O texto não romantiza as ações de Greice, que parece nunca se importar com as consequências, mas também não ignora seu lado mais frágil. Ela não aceita apenas o que vem e luta para que seus propósitos se tornem reais. Amandyra traz muito carisma em cena e nos faz abraçar as loucuras de sua personagem. O grande charme da produção são esses encontros que ela provoca, de tudo o que é inesperado e vai cruzando seu caminho. O texto é belo e traz poesia nos pequenos detalhes.
Há muito da comédia screwball aqui, ao trazer esse humor rápido vindo de situações improváveis. Uma grande costura de eventos, unidas pela grande habilidade da protagonista em fazer do absurdo uma estranha verdade. Confesso que é muito difícil me fazer rir, mas foi quase impossível conter o riso aqui. As situações até causam uma estranheza de início, não nego, mas aos poucos vamos adentrando ao universo e vamos enxergando a graça. Me encontrei ao ponto de não mais conseguir esconder meu sorriso. Um pouco pela comicidade, mas também pelo encanto que me despertou em tantos momentos.

Existem duas sequências específicas aqui que me chamaram a atenção. A que Greice retorna para a casa e se esconde da mãe, revelando sua relação com a família de maneira muito singela e o plano-sequência na swingueira, que nos mostra um monólogo potente realizado pelo cantor Dipas (muito a vontade em cena). São instantes que ilustram essas tantas facetas do filme e como ele mergulha por tantas possibilidades sem medo. Transita entre o artístico e popular, entre a comédia, o musical e o drama. É uma obra que se arrisca e diverte por toda sua imprevisibilidade.
A condução de Leonardo Mouramateus é potente e, logo de cara, me fez ter a certeza de que não estava diante de um produto qualquer do nosso cinema. É daqueles que batem orgulho e que saem do lugar comum. Causa um fascínio também pelos espaços que percorre, seja pelos cenários de Lisboa, seja pela beleza natural de Fortaleza. A produção, também, acerta no trabalho de som, na montagem e, principalmente, na escalação do elenco. Rostos não conhecidos e que funcionam incrivelmente bem. É muito gostoso assistir um filme como “Greice” e sinto que era algo que eu sentia falta na produção nacional. É dinâmico, jovem, descompromissado e muito sagaz.
NOTA: 9

País de origem: Brasil
Ano: 2024
Duração: 110 minutos
Diretor: Leonardo Mouramateus
Roteiro: Leonardo Mouramateus
Elenco: Amandyra, Dipas, Mauro Soares, Lucas Galvino, Isabél Zuaa
