as lacunas que não são preenchidas
O cinema nordestino continua a nos proporcionar algumas pérolas e “A Filha do Palhaço” é uma delas. Escrito e dirigido por Pedro Diógenes, ele entrega uma bela homenagem aos comediantes cearenses e aos artistas locais que trabalham com humor e lutam por sobreviver neste meio. É um retrato cru e sem glamour, mas cheio de muito afeto. Isso porque ele narra a história de um pai que se transforma a noite no palco e precisa encarar uma paternidade tardia.
O filme é dedicado ao ator Paulo Diógenes, primo do diretor, que faleceu no começo deste ano. Com roupas volumosas e muita maquiagem, ele dava vida a personagem Raimundinha. É inspirado nela, que vemos em cena Renato, que ganha a vida se transformando em Silvanelly e fazendo show de humor nos bares de Fortaleza. Sua rotina toma outro rumo com a chegada de Joana, a filha que abandonou anos atrás e que retorna para passar uma semana ao seu lado. São dias de muitas mágoas, ressentimentos e uma abertura para uma segunda chance.

Ainda que exista ali instantes de grande comoção entre os dois e desse laço que eles tentam reconstruir, a obra acerta ao não transformar Renato em um heroi repentino. No homem que decide ser pai de última hora. Ao mesmo tempo, temos uma certa compaixão por ele, por sua trajetória de dor. Gosto dessa inversão que o longa propõe, sobre como pais são humanos falhos e também não são como gostaríamos que fossem. Há também uma subversão sobre essa ideia da figura paterna como referencial masculino. No fim, o amor que Joana busca preencher em nada tem a ver com esses padrões impostos. Família e proteção independem dessas regras. É assim, também, que surge um texto muito atual e singelo sobre paternidade queer.
Pedro Diógenes vem para romper certos estereótipos do nordeste que vemos com tanta exaustão na TV. A vida noturna, os bares, as festas. A arte que ilumina a cidade. Os personagens estão sempre interagindo e se movimentando nesses espaços e revelando uma identidade plural pouco explorada. Existe bastante uso de cenas externas, mas que são prejudicadas pelo trabalho de som, infelizmente muito comum no cinema nacional. É um som que não consegue capturar essa vida que existe além dos personagens. Por outro lado, existe um cuidado notável com a trilha musical – surpreendentemente com canções originais – e que são muito bem inseridas.

O diretor registra tudo em um tom extremamente realista, sendo perceptível essa busca pelo documental, por tudo aquilo que é cru, pouco editado. Entendo a intenção, mas isso acaba por enfraquecer alguns momentos chaves da trama, como quando Joana resolve criar um embate com o pai, onde o diretor opta por um plano-sequência-fixo. A câmera fica ali parada enquanto vemos os personagens dialogando intensamente. Isso empobrece esses instantes, dando uma impressão de amadorismo. Não existe material para a edição salvar essas cenas no corte, que poderiam, inclusive, enaltecer as boas atuações. E isso se torna ainda prejudicial quando o texto, principalmente nesses pontos altos, é muito bruto, pouco sutil.
Apesar dessas falhas, “A Filha do Palhaço” me tocou bastante. É nítido o tanto de carinho que existe no roteiro e na construção de toda essa jornada. Emociona ao falar sobre família, solidão e abandono. “Hoje eu sinto raiva, mas espero sentir só a falta”. Talvez o que mais tenha me pegado no filme foi a reflexão sobre os buracos que os nossos próprios pais podem nos deixar e essas relações que nunca existiram. Muitas vezes crescemos e nos adaptamos a uma lacuna que jamais será preenchida. Nos adaptamos a esta ausência. Um filme simples, imensamente tocante e singelo.
NOTA: 8,5

País de origem: Brasil
Ano: 2022
Duração: 104 minutos
Diretor: Pedro Diógenes
Roteiro: Pedro Diógenes
Elenco: Demick Lopes, Lis Sutter, Jesuíta Barbosa, Ana Luiza Rios
