Crítica: Pieces of a Woman

O pedaço que falta

Em 1940 aconteceu um caso um tanto quanto incomum na pequena cidade de Tacoma. Poucos meses depois de uma aguardada ponte ganhar vida, ela cai após uma forte ventania. Até hoje, estudiosos tentam elaborar teorias sobre o que poderia ter acontecido, encontrando explicações tanto no histórico do local como na física. Nos tempos atuais, temos aqui, como cenário, uma cidade com uma outra grande ponte em construção e a avistamos ali distante, em evolução, mas sempre com um buraco faltando, sempre incompleta. Aquele pedaço importante que impede os outros de chegarem no lado oposto

É com essa analogia que o diretor húngaro Kornél Mundruczó cria “Pieces of a Woman”, seu primeiro longa falado em inglês. Ele narra a dolorosa jornada de Martha, uma mulher que perde o filho logo após o parto. Os primeiros 30 minutos que ele nos entrega são dilacerantes. A cena do parto é forte, real e a opção de registrar este instante em um plano sequência foi certeira. Ainda que entregue o ápice do filme no começo, não vejo como algo negativo, faz sentido dentro da narrativa, logo que o que vem depois é apenas o silêncio, o vazio que nasce na vida daquela mulher despedaçada, vivendo no abismo que nasce entre ela e as pessoas que estão ao seu redor, que não possuem a sensibilidade de entender o que ela enfrenta. Martha é aquela estrutura que precisa ser forte, continuar em pé, mesmo quando falta algo que a completa.

É brutal toda sua batalha interna na qual a personagem enfrenta, essa luta silenciosa de seguir com tamanha dor e ainda precisando lidar com pessoas diminuindo seus sentimentos ou lhe dizendo como se sentir. Vanessa Kirby é potente e transmite com precisão esse momento tão delicado. A atriz se entrega ao papel e é lindo presenciar esta sua evolução. O elenco todo é fantástico, revelando bons momentos de Shia LaBeouf, Sarah Snook e a veterana Ellen Burstyn que finalmente ganha um papel a sua altura. Fazia tempo que o cinema devia isso a ela e é brilhante o que ela faz em cena.

Kornél é um dos grandes diretores que temos em atividade no cinema e sempre me choca a perfeição com que ele finaliza suas obras. São produções desafiadoras, que causam impacto e fico feliz em ver este reconhecimento. É um cara que vai longe. “Pieces of a Woman” é o filme que mais gostei dele e é ótimo também ver algo assim chegando na Netflix. O único detalhe que me incomoda um pouco é sua trilha sonora. Tive a sensação de que ela entra em alguns momentos indevidos, crescendo em cena quando o silêncio seria mais efetivo. No mais, um baita filme, bem escrito, dirigido e incrivelmente atuado.

NOTA: 9,0

  • País de origem: EUA
    Ano: 2021
    Disponível: Netflix
    Duração: 128 minutos
    Diretor: Kornél Mundruczó
    Roteiro: Kata Wéber
    Elenco: Vanessa Kirby, Shia LaBeouf, Ellen Burstyn, Sarah Snook, Bennie Safdie, Molly Parker

Crítica: O Preço do Talento

A lembrança mais valiosa é a dor

Shia LaBeouf sempre foi conhecido por sua vida de excessos e histórias polêmicas que, aos poucos, foram destruindo sua carreira como ator. Problemas com bebidas, violência e uma trajetória que o levaram para uma clínica de reabilitação, tornando este projeto possível. “Honey Boy” é a sessão de terapia pública do astro, que expõe, de forma bastante corajosa, a conturbada relação que teve com seu pai alcoólatra e abusivo. O filme é como um relato de memórias, aberta para expulsar seus tantos traumas e aceitar a dor que sente dentro de si.

Otis (Noah Jupe) é seu alter ego. Um garoto que entra para o mundo do cinema ainda criança e precisa lidar com a pressão que sente por estar construindo uma carreira tão cedo e ter seus pais dependentes de suas conquistas. Anos mais tarde, já adulto (Lucas Hedges), após sofrer um acidente por estar embriagado, ele se vê obrigado a entrar em uma clínica de reabilitação, lugar que o faz visitar as lembranças que teve ao lado de seu pai na infância. Investigando tudo aquilo que ele tentou bloquear durante sua vida. Toda a angústia, todo o rancor. Tudo aquilo que o fez ser, como ele mesmo se denomina, um profissional esquizofrênico, um egomaníaco com complexo de inferioridade.

Alma Rar’el, conhecida por dirigir videoclipes de bandas como Beirut e Sigor Ros (Fjögur píanó, que também conta com a participação de Shia), navega por essas lembranças do ator como se mergulhasse em um sonho insano. É esta experiência que nos oferece, de entrar na mente de alguém, conhecer os recortes dolorosos, sem meio e fim, costurados no meio do caos. Parte da memória de alguém que não lembra os atos com clareza, mas sente com a mesma intensidade como se ainda estivesse lá. Visualmente poderoso, várias cenas nos causam fortes sensações. No entanto, é no relato de seu protagonista que está seu verdadeiro impacto.

“Uma semente se destrói completamente para se tornar
uma flor. Isso é um ato de violência.”

Um dos exercicios pedidos na reabilitação de Otis era que ele fosse no meio de uma região afastada e gritasse. “Honey Boy” é inteiramente esse exercício, de Shia LaBeouf usando de sua arte para expulsar tudo aquilo que o aprisiona. Neste mesmo instante, quando Otis retorna e diz o que está sentindo de forma irônica, ele é confrontado por seu instrutor que o indaga: “Você está brincando comigo ou está sendo sincero?”. Está aí uma leitura interessante do que Shia nos propõe aqui. Seria tudo isso uma zoação com nossa cara, com a mídia que tanto o diminuiu? Porque toda a situação é bizarra. Dele contando a própria história e interpretando o próprio pai, que por sinal, é um palhaço e surge na tela com uma caracterização forçada e aparentemente mal confeccionada, com barriga falsa. Ainda que tudo seja uma piada, há muita honestidade também. Existe uma linha tênue aqui entre o sarcasmo e o sentimentalismo. Seja qual for a intenção dele, existe nobreza em muitos de seus atos e comove pela jornada de Otis. Pela jornada de Shia. Verdadeiramente, Shia LaBeouf. Ele se despe, se confronta e nos confronta com seus traumas.

É muito forte esta relação entre o protagonista e seu pai. Neste embate, neste exercício de entender o passado e seguir em frente. Tentar esquecer talvez pudesse ser a saída que muitos procurariam. Otis – ou Shia – não queria esquecer porque sabia que tudo o que ele se transformou devia àquele homem. O bem mais valioso que seu pai o deixou foi a dor e a arte dele jamais existiria sem essa parte.

NOTA: 8

  • País de origem: EUA
    Título original: Honey Boy
    Ano: 2019
    Duração: 93 minutos
    Distribuidor: –
    Diretor: Alma Har’el
    Roteiro: Shia LaBeouf
    Elenco: Noah Jupe, Shia LaBeouf, Lucas Hedges, FKA Twigs