O inferno de Gaspar Noé

O diretor francês Gaspar Noé (Irreversível, Love 3D) continua sendo um dos grandes provocadores do cinema. E que bom que ele existe porque não há ninguém que faça algo parecido com o que ele faz, não com a mesma coragem e ousadia. Não com a mesma intensidade. “Climax” é uma obra muito coerente com toda sua filmografia, trazendo muitos elementos que já esperamos dele como a violência, o excesso, o sexo e a psicodelia. Diante de cores fortes e movimentos expressivos de sua câmera e seu elenco, somos levados para o inferno em um filme sensorial e insanamente imersivo.

Com um roteiro de apenas cinco páginas e filmado em quinze dias, “Climax” é um espetáculo improvisado. Seu único momento coreografado é a sequência de dança inicial e se trata de um momento marcante ali. Não só nos deixa hipnotizados pela beleza do plano sequência e pela qualidade dos movimentos dos atores, como também nos convida a adentrar em seu universo único que está prestes a começar (e que até então, não fazíamos ideia para onde o diretor nos levaria). Quase como um ode a bad trip, a partir dali, Noé nos leva a uma viagem sem volta a um interminável pesadelo, perturbador, claustrofóbico e histérico. Tudo isso porque um grupo de dançarinos se reúne em um prédio aparentemente seguro, logo que o lado de fora congelado pela neve parece um lugar inabitável, e em um evento de confraternização, alguém coloca algo na sangria que bebem e todos acabam embarcando em uma grande viagem repleta de alucinação e paranoia.

É bastante incômoda essa experiência que o filme propõe. Filmado em um único espaço, é desesperador acompanhar seus personagens, que completamente entregues ao que ingeriram, perdem a noção do que é real. Aos poucos aquilo vai perdendo sua cor, os diálogos se tornam ruídos, a humanidade se desfaz e todos se tornam selvagens. Os humanos se tornam macacos no fim e esta auto destruição é aterrorizante. Segundo Noé, viver é uma impossibilidade coletiva e morrer parece a saída mais segura. É muito interessante como isso vai se desenvolvendo na trama e como o filme que começa como um musical energético se transforma em um circo pavoroso. A iluminação, os cortes e a maneira como o diretor usa de suas referências, que vai de “Suspiria” (1977) até “Possession”(1981), mostram um domínio surpreendente do diretor por trás das câmeras, que constrói aqui sua obra menos expositiva, mas ainda assim visceral e impactante.

Claro que como todo projeto experimental, “Clímax” não deixa de ter suas falhas. O despreparo dos atores por vezes enfraquecem o produto como um todo e tornam algumas situações muito difíceis de acreditar, como quando (do nada) todos decidem encontrar um culpado por tudo aquilo. Há uma solução abrupta e sem sentido algum. Todos são ótimos improvisando na dança, mas só. Como consequência disso, os melhores momentos do filme são os musicais. É nos movimentos que eles melhor se expressam. No entanto, confesso, me admira ver Sofia Boutella ali. Saída de alguns blockbusters norte-americanos, ela se entrega com força a sua personagem e domina aquele espaço. É admirável como ela se transforma de um trabalho para o outro. A trilha musical é fraca, também. Fez falta terem explorado melhor as músicas, era um cenário que permitia e pedia por isso. Em alguns instantes cruciais, era optado por um eletrônico genérico no fundo, quando uma canção melhor inserida tornaria seus eventos ainda mais interessantes.

“Climax” é agressivo. É alvoroço. É expressão. Uma experiência insana, sádica, propositalmente desagradável, de difícil digestão. Nada pode nos preparar para o que o filme nos revela. No entanto, penso que a necessidade de chocar é maior do que o preparo que Gaspar Noé teve com seu filme. Falta cuidado, falta desenvolver melhor suas ideias. É um produto original, instigante mas arriscado demais para não ser melhor elaborado.

NOTA: 7,5

  • País de origem: França
    Ano: 2018
    Duração: 95 minutos
    Título original: Climax
    Distribuidor: Imovision
    Diretor: Gaspar Noé
    Roteiro: Garspar Noé
    Elenco: Sofia Boutella

2 comentários em “Crítica: Climax

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