Crítica | Pleasure

Lucro e prazer

Enquanto assistia a “Pleasure”, me vi pensando em como é raro o cinema trazer como tema a indústria pornográfica de forma tão realista e sem ser alvo de julgamento ou piada. Inspirado no curta-metragem de mesmo nome da cineasta Ninja Thyberg, ela volta a explorar os bastidores, do qual pesquisou por anos, para construir sua trama. Confesso que a produção me surpreendeu bastante, não só pela ousadia das cenas, mas por seu roteiro que flui tão bem durante seus minutos. Me encontrei imerso em seu universo e na honestidade crua com que tudo é revelado.

A jovem Bella Cherry (Sofia Kappel) sai da Suécia e aterrissa em Los Angeles, onde pretende se tornar a maior estrela da indústria pornô. Em “Pleasure”, vamos acompanhando os passos que ela precisa enfrentar para se tornar alguém nesse meio competitivo. Durante toda a sua trajetória, eu sentia algo como “isso realmente deve acontecer desse jeito”. O filme não romantiza suas ambições e nem julga suas atitudes questionáveis. O que a motiva a estar ali, inclusive, nunca é desvendado. E sinto que isso a deixa ainda mais crível, porque não acho que exista uma justificativa, de fato. Dinheiro e fama definitivamente estão em jogo, mas acima disso, é ela sendo livre para fazer suas próprias escolhas.

Ainda assim, a obra não esconde o grande fato de que a personagem é vítima de uma indústria dominada por homens, que naturaliza a submissão e a violência contra a mulher. Que lucra enquanto confunde assédio com prazer. Por muitas vezes, Bella é bem recebida pelos profissionais, o que torna tudo ainda mais assustador. Porque ela se sente em casa justamente onde é diminuída, onde é silenciada. Nesse sentido, o longa vai seguindo por um viés próximo de um terror, porque a vemos sendo devorada nos locais que sugerem proteção. Em uma das cenas mais poderosas e angustiantes do filme, a jovem se manifesta ao entender o quão vulnerável é estar nesse ambiente, mas logo é forçada a entender que é simplesmente assim como as coisas funcionam. Que para ficar, precisa aceitar.

“Pleasure” é uma obra bastante controversa e pode chocar grande parte do público. Há muita coragem nesta exposição que faz e muito cuidado também. A atriz sueca Sofia Kappel está ótima no papel e torna a experiência ainda mais interessante. É muito sensível e doce os respiros que a trama encontra para revelar as relações pessoais de Línnea, o nome verdadeiro da personagem. É gostoso ver aquelas conversas corriqueiras com suas novas amigas, ao mesmo tempo em que entendemos que se tratam de duas pessoas completamente diferentes que habitam aquele corpo. Para se manter no estrelato, porém, Bella precisa reinar acima de Línnea. E quanto mais ela ganha fama e respeito na indústria – o que ela tanto almeja – mais ela precisa perder de si mesma.

NOTA: 8,5

País de origem: França, Holanda, Suécia
Ano: 2021
Titulo original: The Unbearable Weight of Massive Talent
Duração: 109 minutos
Disponível: Mubi
Diretor: Ninja Thyberg
Roteiro: Ninja Thyberg, Peter Modestij
Elenco: Sofia Kappel, Revika Anne Reustle