Os 9 melhores filmes originais da Netflix em 2020

No meio de muita produção duvidosa, a Netflix conseguiu entregar alguns filmes realmente bons em 2020. Em um período em que quase não tivemos lançamentos na tela grande, a gigante do streaming nos permitiu ter acesso a novidades e manter acesa aquelas boas discussões sobre cinema.

“Mank”, “Os 7 de Chicago”, “A Voz Suprema do Blues” tem suas qualidades, mas vou deixar os Oscar Baits de fora aqui. Espero que gostem dos selecionados e deixo aqui como dicas para assistir, caso não tenham visto algum.

Menções honrosas: Tempo de Caça, A Caminho da Lua, Ninguém Sabe Que Estou Aqui, Ya No Estoy Aquí, Seu Nome Gravado em Mim.

9. A Trincheira Infinita
de Jon Garaño, Aitor Arregi, José M. Goenaga | Espanha

Quando uma Guerra Civil explode na Espanha, um homem, por medo de represálias das autoridades, decide viver escondido dentro da própria casa. É um relato forte, emocionante e um registro assustador de uma época, de muitas histórias. A produção é incrível e nos faz mergulhar nos sentimentos dos protagonistas ao longo de vários anos, vivendo pelo medo e pela dor de existir e não poder ver o lado de fora.

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8. Tigertail
de Alan Yang | EUA

A singela história de uma vida. “Tigertail” mergulha nas lembranças de um imigrante taiwanês que, para ter uma vida melhor, abandonou seu grande amor e sua família para viver em Nova York. O longa revela essa experiência bastante íntima de um imigrante, cheia de perdas e danos, com muita sensibilidade. Emociona nesse relato da busca por um sonho que nunca se alcança.

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7. Happy Old Year
de Nawapol Thamrongrattanarit | Tailândia

O filme acompanha a história de uma mulher que se depara com inúmeras lembranças de sua vida ao decidir descartar inúmeros objetos de sua casa. E nesta atividade de reviver o passado para seguir em frente, ela decide ir atrás do ex-namorado com quem nunca teve um fim digno. Simples, original e bastante delicado.

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6. Você Nem Imagina
de Alice Wu | EUA

As comédias românticas teen da Netflix parecem seguir uma fórmula. Justamente por isso foi tão bom encontrar “Você Nem Imagina”, que tem como base uma série de clichês do gênero mas inova na condução, entregando um texto maduro e bastante sensível.

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5. O Que Ficou Para Trás
de Remi Weekes | Reino Unido, Irlanda do Norte

Uma outra grande surpresa que surgiu no catálogo em 2020 foi “O Que Ficou Para Trás”, terror psicológico britânico que foge das fórmulas ao narrar a jornada de um casal de imigrantes recomeçando a vida na Inglaterra. Sem distinguir o que é pesado e realidade, eles são confrontados pelos fantasmas do passado. É instigante, inteligente e muito bem realizado.

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4. O Diabo de Cada Dia
de Antonio Campos | EUA

Com um elenco fantástico, o filme narra inúmeras histórias e personagens que vão se cruzando ao longo do tempo e tem como base o rancor, o medo e a obsessão religiosa. O roteiro é brilhante e caminha respeitando cada trama e seus belos desdobramentos.

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3. A Sun
de Mong-Hong Chung | Taiwan

Drama taiwanês bastante emocionante. O filme revela a dor de uma família depois de dois eventos trágicos e como eles tiveram que sobreviver. Apesar da longa duração, o longa tem bom ritmo e encanta pela delicadeza ao falar sobre redenção, perdão e recomeços.

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2. The 40-Year-Old Version
de Radha Blank | EUA

Primeiro filme escrito e dirigido por Radha Blank, “The Forty-Year-Old Version” é uma bela surpresa. Como mulher preta, ela entrega aqui seu grande manifesto e sua insatisfação de envelhecer no meio artístico e os tantos percalços que precisa enfrentar. É um discurso bastante íntimo e revelador, bastante necessário.

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1. Joias Brutas
de Josh Safdie, Ben Safdie | EUA

Foi lá no começo do ano quando a Netflix lançou essa preciosidade. Dificilmente ela lançaria algo a altura ou melhor que “Joias Brutas”. Dirigido pelos irmãos Safdies (Bom Comportamento), o longa coloca Adam Sandler ao avesso e revela a mais potente atuação de sua carreira. É um filme revigorante, inquietante, que nos faz rir de nervoso e nos faz vibrar pela insana trajetória de seu brilhante protagonista.

Crítica: O Diabo de Cada Dia

Delírios da fé 

Grande acerto da Netflix, “O Diabo de Cada Dia” é uma adaptação do livro de Donald Ray Pollock que reúne um elenco de atores promissores. A obra narra uma série de histórias e personagens que são conectadas pela violência em uma região esquecida dos Estados Unidos. São indivíduos atormentados por um período entre Guerras, que encontram na fé uma passagem para a salvação. É bem interessante como o roteiro vai costurando essas tantas tramas, que atravessam anos e são cruzadas por pura coincidência ou vontade divina, como o próprio narrador nos alerta. Essa voz onisciente e onipresente é o que nos guia. É ela quem nos permite adentrar na mente conturbada de cada um e na melancolia existente nessas ligações. 

O diretor e roteirista Antonio Campos surpreende ao comandar essa jornada. Ele, que veio de obras menores como “Christine”, volta a investigar os efeitos de se viver em uma sociedade que normalizou a violência e crueldade. Campos acerta na construção da atmosfera, nos fazendo viajar ao tempo e a acreditar naquelas histórias e sentimentos. Há algo de amedrontador que permeia por todas as narrativas. A desumanidade ganha força nos lugares comuns, justamente onde parecia habitar bondade. O longa rapidamente nos faz traçar esse paralelo com a realidade e como a religião e a fé acabam sendo usadas como desculpa para tanta atrocidade. Esse fanatismo religioso é aterrorizante porque ele vem como escudo e porque ele defende o mal como um simples ato de delírio. 

Neste sentido, é interessante a história de vingança de Arvin Russell (Tom Holland) porque ele não combate uma pessoa específica e sim o peso que carrega do passado e sua relação com esse Deus impiedoso. Essa santidade que corroeu sua família e tudo aquilo que ele amava. Essa adoração que nunca trouxe respostas ou que tenha justificado tantos sacrifícios. Trouxe apenas o vazio, a dor, a solidão de ter que viver com tanta perda. Arvin é o que conecta essas tantas histórias. Desde seu pai, um soldado perturbado pela Guerra (Bill Skarsgård) até os inúmeros personagens que vão cruzando seu caminho por puro acaso (ou porque Deus quis assim). A arma, uma Luger alemã, que dizem ter estourado os miolos de Hitler, é outro item que transita por esses tantos ciclos e o objeto amaldiçoado que carrega essas tantas memórias. Ainda que o roteiro acerte na composição de todo este extenso universo, sinto uma leve fragilidade na jornada do xerife, interpretado por Sebastian Stan. Ele era um item importante na história mas jamais fica claro sua real relevância. Sinto que não foi bem explorado essa forte conexão que havia entre ele e Arvin e como ambos eram essas linhas soltas que dariam o último nó ao fim. Como todo filme que se utiliza de narração em off, este infelizmente nem sempre escapa da armadilha de narrar o que, às vezes, é explícito na imagem. Mas no geral funciona e não chega a estragar a experiência. 

Trata-se de um roteiro poderoso, brilhantemente bem escrito. Flui bem por todas as histórias sem perder a unidade, sem oscilar, apesar da longa duração. Mais do que ter em mãos grandes personagens, a obra acerta na escalação e condução dos atores. Independente do tempo de cena de cada um, todos estão bem. Holland nos faz esquecer seu Homem-Aranha e isso é ótimo, visto que nos últimos anos ignoramos a criança promissora que ele era. Jason Clarke e Sebastian Stan são tão bons que criamos um asco enorme por vê-los na tela. O mesmo sentimos por Robert Pattinson que, no entanto, ainda que seja esforçado, não consegue fugir da caricatura. As atrizes Eliza Scanlen, Mia Wasikowska, Riley Keough e Haley Bennett estão ótimas também, mesmo que menores na trama. Destaco Harry Melling pela força e garra ao qual entrega à seu personagem. 

Algumas pessoas nascem apenas para serem enterradas é uma verdade dolorosa. “O Diabo de Cada Dia” traz uma visão pessimista sobre como a nossa jornada e a maldade coexistem. Nosso destino pode alcançá-la a qualquer instante, quando menos esperamos, apenas porque tem que ser assim. A obra, no meio de suas tantas tragédias, faz um relato obscuro sobre a base de nossa atual sociedade e os reflexos que temos na política. Pessoas ordinárias e lunáticas que não tem noção do peso de suas ações e seus crimes bárbaros hoje estão no poder e estão validando o que é certo.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Duração: 138 minutos
    Título original: The Devil All The Time
    Distribuidor: Netflix
    Diretor: Antonio Campos
    Roteiro: Antonio Campos, Paulo Campos
    Elenco: Tom Holland, Robert Pattinson, Sebastian Stan, Bill Skarsgård, Riley Keough, Jason Clarke, Harry Melling, Eliza Scanlen, Haley Bennett, Mia Wasikowska