Crítica: I May Destroy You

O grito silencioso

Difícil falar sobre essa minissérie. A produção me levou a sentir e a refletir sobre tanta coisa ao mesmo tempo, tornando a digestão quase impossível. Escrita, produzida e protagonizada pela talentosíssima Michaela Coel, “I May Destroy You” vai te destruir. Para cada pessoa, claro, de uma forma diferente. Para uma mulher preta terá, com certeza, um impacto ainda maior do que eu tive e será uma experiência diferente da que eu tive. E ainda que eu tenha apreciado muito, não posso negar que, ao fim, senti uma leve ponta de decepção também.

Durante 12 episódios, a minissérie nos faz mergulhar no trauma da protagonista. Arabella (Coel) é uma escritora promissora, rodeada de bons amigos e dos bons rolês londrinos. Depois de sofrer um lapso de memória pelo alto nível de álcool, tenta buscar em suas falhas lembranças os eventos da noite anterior. Vem com muito humor essa descoberta, mas é uma comédia que provoca, que não faz rir. O brilhante texto nos leva a desvendar o que aconteceu ao seu lado, a revirar os detalhes e a sentir sua dor diante do ocorrido. Assim como Arabella, não queremos ter que ver. É então que “I May Destroy You” vem em tom confessional e bastante íntimo de Michaela Coel ao falar sobre estupro e diversos tipos de abuso sexual que encontramos em nossa sociedade e nem mesmo nos damos conta. É um relato poderoso, chocante e assombroso.

“O meu grito pode ajudar o grito silencioso delas”. O show é o grito de uma artista que se viu acuada diante de uma situação tão delicada e precisava exteriorizar isso. Ao revelar sua dor, ela revela a de muitas pessoas. É fácil criar essa identificação com os personagens, não necessariamente pelo o que eles viveram, mas porque eles são escritos com uma naturalidade absurda. Porque eles são tão falhos como todos nós, sempre aptos a fazerem as escolhas mais equivocadas. É, ainda, interessante em como a narrativa se expande para os amigos da protagonista, onde vivenciam algo que lhes causam dúvida. E essas dúvidas passam a ser as nossas também. Para nenhum personagem essa certeza existe, estão todos com esta indagação do que ocorreu no passado. O trauma nunca é claro. Ele vem em lapsos, em revisitar o momento com outros olhos. “I May Destroy You” nos provoca ao fazer perguntas difíceis ao invés de nos dar respostas suaves.

O que me frustra, porém, é que ao decorrer dos episódios, o roteiro dá vários saltos temporais. Ainda que isso agilize a trama e a evolução dos personagens, é um pouco incômodo essa escolha por omitir do público alguns instantes cruciais da história, como o fato de nunca ouvirmos as confissões e os relatos de seus traumas um para o outro. Simplesmente pula para um tempo em que os conflitos dessas relações já foram superados. Avança na história, mas perde na dramaticidade e na profundidade desses indivíduos. Não que eu ache que tudo precisa ser revelado, mas infelizmente em “I May Destroy You” o que alcança a superfície nem sempre é mais interessante daquilo que não é falado.

A minissérie terminou e me deixou um sentimento misto, confesso. O incômodo é proposital, aceito. Mas além desse desconforto, vem a frustração porque a trama parece não alcançar seu altíssimo potencial. O final entrega uma saída interessante e muito dialoga com seu ousado texto metalinguístico. “Ego Death” vem com um conceito lindo, mas pouco acrescenta para a narrativa. Disse tanto ao longo dos episódios para, ao fim, preferir se esquivar.

A produção, por sua vez, é fantástica, bela de se ver e impressiona por esse roteiro em que faz tanta coisa caber em apenas trinta minutos. Além de Coel, que está incrível, vale prestar atenção em Weruche Opia, impecável como Terry, a melhor amiga. O texto é ótimo e apesar de perder o fôlego nos últimos e gastar tempo com subtramas nem sempre interessantes, vale muito dar uma chance. Não são temas fáceis e a minissérie vem com uma abordagem completamente nova e necessária. Michaela Coel levanta debates urgentes e, por vezes, com a agressividade que precisávamos.

NOTA: 8,0

País de origem: EUA
Ano: 2020
Disponível: HBO Max
Duração: 360 minutos / 12 episódios
Diretor: Sam Miller, Michaela Coel
Roteiro: Michaela Coel
Elenco: Michaela Coel, Weruche Opia, Paapa Essiedu

Crítica: We Are Who We Are

Tempo de transições

A vida pacata de um grupo de adolescentes vivendo em uma base militar norte-americana na Itália. A premissa é simples, mas na mão do cineasta Luca Guadagnino, a minissérie da HBO chega a um resultado grandioso.

Adentramos a este lugar tão incomum pelos olhos de Fraser (Jack Dylan Grazer), jovem que precisa se adaptar à nova realidade, pois sua mãe será a nova comandante na base. Durante os belíssimos 8 episódios, acampamos esse processo dele tentando se encaixar e sua relação com Caitlin (Jordan Kristine Seamon), sua vizinha. Os dois enfrentam um momento de grande transição e se unem nesta imediata identificação.

A trama faz um paralelo dessa adolescência em mutação com os Estados Unidos em período eleitoral e nessas incertezas assustadoras que nasceram na sociedade pós-Trump. Mas eles estão distantes do país, vivendo em um lugar quase inexistente e que possui sua própria lógica. É justamente essa ambientação que torna a série tão fascinante. Há um trabalho muito rico de detalhes que nos faz adentrar a esse universo tão único. A rotina incomum, as paisagens, cenários e locações. O show nos permite passear e contemplar cada pedaço, apreciando sua fluída passagem de tempo. Luca Guadagnino é um grande diretor e torna o ato de assisti-la em uma gloriosa experiência.

Somos acostumados, enquanto público, a definir os personagens, a colocá-los em certas caixas. “We Are Who We Are” é um convite a não decifrar esses personagens que, em uma época de transição e amadurecimento, tão pouco conhecem a si mesmos. É um convite a abraçamos a pluralidade de cada um deles e aceitar que eles podem ser qualquer coisa. A série é, também, uma história de amizade. De dois jovens que se encontram neste pedaço de mundo que parece ter uma rotação diferente do resto do universo. É sobre essa conexão entre os dois, tão diferentes, mas tão solitários em suas realidades. Essa troca entre eles é bela de se acompanhar. Apesar do protagonista ser um tanto quanto irritante, consigo ver nele muito dos adolescentes por aí. Caitlin, por sua vez, tem uma trajetória incrível e me encanta sua presença.

“We Are Who We Are” perde, porém, com alguns de seus coadjuvantes que, ao não ter suas tramas aprofundadas em nenhum momento, se tornam meros adereços de cena, como o plot das mães lésbicas, das traições e do irmão muçulmano. Soa como se eles estivessem ali para tapar um buraco, apenas.

Termino de ver a série com um sorriso largo no rosto e um sentimento forte dentro de mim. Sinto que presenciei algo. “We Are Who We Are” pode não entrar para a história da televisão, mas com certeza estará ali, em um algum canto especial na memória.

Melhores episódios: “Right Here Right Now IV” e a hipnotizante despedida de um soldado dentro de uma casa invadida. E o último, “Right Here Right Now VIII and Last”, a belíssima despedida dos protagonistas.

NOTA: 9

País de origem: EUA, Itália
Ano: 2020
Disponível: HBO GO, Net Now
Duração: 8 episódios
Diretor: Luca Guadagnino
Roteiro: Luca Guadagnino, Francesca Manieri, Paolo Giordano
Elenco: Jack Dylan Glazer, Jordan Kristine, Chloe Sevigny, Tom Mercier, Alice Braga