Crítica: Amor e Monstros

A assustadora decisão de crescer

Me sinto bem tiozão falando frases como “não fazem mais filmes como antigamente”, mas quando se trata de boas aventuras é justamente isso que penso. Por isso é tão prazeroso encontrar “Amor e Monstros” em pleno 2021. Sua pureza chega a ser nostálgica, estampando um sorriso tonto em meu rosto durante seus minutos. Roteiro esperto, personagens carismáticos, belas mensagens e efeitos especiais incríveis que, diferentemente do que tem sido comum do cinema blockbuster, é usado de forma equilibrada, entregando um visual limpo e bastante inventivo.

Brian Duffield tem se especializado nessas histórias incomuns – e com um toque literalmente explosivo – sobre amadurecimento. Depois dos ótimos “A Babá” e “Espontânea”, ele escreve este belo roteiro sobre Joel (Dylan O’Brien, ótimo) que vive agora em um mundo pós-apocalíptico dominado por monstros e que decide traçar uma perigosa jornada para encontrar sua namorada que não vê há sete anos. Nesse caminho imprevisível, ele é obrigado a lutar pela sobrevivência mesmo não tendo habilidade alguma para isso. O texto é bem inteligente, divertido e ganha vida pela ótima direção de Michael Matthews, que acerta a mão ao entregar a tensão necessária para um filme violento de monstros e a sensibilidade de construir uma doce e madura comédia romântica. São duas linhas completamente opostas mas que funcionam perfeitamente aqui.

“Amor e Monstros” é uma espécie de coming of age da fase adulta. Essa jornada de auto descobertas geralmente é a base para ilustrar o amadurecimento de um adolescente. Aqui, nosso protagonista tem vinte e quatro anos e ele precisa enfrentar a vida de gente grande que ele tanto evita. Confesso que me identifiquei mais do que queria com essa sua aventura. De travar completamente diante de um desafio, de temer os tantos monstros que existem do lado de fora. Esse momento de acabar os estudos e ser cobrado por um bom plano de vida é assustador. Ter que decidir qual caminho seguir mesmo quando não fazemos ideia do que queremos para o futuro. Este lugar tão obscuro e incerto. A obra traz uma mensagem otimista sobre tudo isso, sobre encontrarmos coragem de enfrentar nós mesmos, a confiar em nossos próprios instintos e nos permitir errar para aprender a sobreviver. De arriscar ir para o lado de fora e procurar, enfim, nosso espaço.

(Spoiler) “Não aceite pouco, nem mesmo no fim do mundo”. É muito fácil se identificar, também, com essa história de amor narrada no filme. Apesar da fantasia, ela parece ilustrar muito bem o que muitos de nós enfrentamos em um relacionamento. Não apenas por falar sobre esse amor de migalhas que aceitamos pelo medo da solidão, mas por revelar essa distância que muitas vezes estamos da pessoa que amamos, onde acreditamos que estamos no mesmo passo, que a outra pessoa faria por nós o que faríamos por ela. Joel e Aimee se amam, mas isso não é suficiente, nem mesmo no fim dos tempos. E ninguém está errado nesse jogo, é apenas uma questão de que ambos tiveram experiências e vivências diferentes, logo, passaram a ter sentimentos e expectativas diferentes. Joel esperava de Aimee algo que ela não estava pronta para ceder. E tudo bem.

“Amor e Monstros” é uma bela aventura à moda antiga e muito maior do que parece ser. A saga do herói aqui é incrivelmente bem construída e conduzida. É um filme que respeita seu valente protagonista, a boa ação, os respiros que tão bem acrescentam à trama – não tenho nem palavras para a sequência de Mav1s – e principalmente, que respeita seu público. Um produto raro, nostálgico e um tanto quanto especial.

NOTA: 9

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Título original: Love and Monsters
    Disponível: Netflix
    Duração: 109 minutos
    Diretor: Michael Matthews
    Roteiro: Brian Duffield
    Elenco: Dylan O’Brien, Jessica Henwick, Michael Rooker, Ariana Gleenblatt