Crítica: The White Lotus

Os comedores de lótus

Quando uma produção é lançada sem alarde e, aos poucos, ganha sucesso pelo o boca a boca, algo de muito incrível tem ali. Às vezes é puro hype, outras, é o nascimento de algo original, digno da atenção da recebe. “The White Lotus” é, de fato, uma das séries mais brilhantes do ano. É uma sátira sagaz ao privilégio branco e há genialidade em cada pequeno detalhe que nos entrega.

Toda a ação acontece em um paradisíaco resort hotel no Havaí. A trama se concentra nas relações de um grupo de visitantes ao local e nos percalços que esses ricos surtados enfrentam por ali. A escolha do elenco é certeira e facilmente nos envolvemos com esses excêntricos personagens. A grande verdade é que todos ali estão em sintonia e todos revelam uma faceta que desconhecíamos. Seja dos jovens que passamos a ver com mais respeito como Sydney Sweeney, Alexandra Daddario e Fred Hechinger, como os mais experientes que renascem em cena. Murray Bartlett, Steve Zahn, Jennifer Coolidge e Connie Britton estão impecáveis. É muito bom ver um show onde nenhuma dessas peças estão fora do lugar e todos embarcam na bizarrice das situações apresentadas.

“The White Lotus” firma Mike White com um roteirista a se prestar mais atenção. Seu texto é fascinante, guiando o show com ritmo e uma originalidade que encanta. Tudo nos causa um desconforto, um riso nervoso, mas ao mesmo tempo nos deixa imensamente hipnotizados por seu sedutor universo. A trilha sonora composta por Cristobal Tapia de Veer, com seus sons tribais, invade nossa mente e nos faz sentir tão surtados quanto seus personagens. A trama caminha como se algo fosse explodir a qualquer instante, nos deixando vidrados por seus imprevisíveis desdobramentos.

Insanamente divertido, o roteiro provoca nessa sátira pungente ao privilégio branco e aos homens héteros castrados pela cultura do cancelamento. Os diálogos são geniais e nos deixam constrangidos ao dar voz à esta elite que hoje se sente tão excluída e por tudo o de mais bizarro que sai de suas mentes. São indivíduos que se sentem injustiçados pelos erros históricos dos brancos, incomodados por essa nova recentralização. “The White Lotus” faz rir na mesma medida que incomoda, assusta porque é desconfortavelmente atual.

Esses hóspedes afortunados são os lotófogos, os comedores de lótus. Na mitologia grega, ao digerirem a flor se colocam em estado alterado, distantes dos problemas reais do mundo. Mas esses lótus não são deles, eles se apropriaram. E não é roubo se você sente que já é seu. Se toda sua vida lhe ensinaram que é seu. Todas as portas estiveram abertas, nada lhe foi negado. Por mais distintos que sejam ali na tela, todos fazem parte de uma mesma tribo. Confortáveis demais em suas posições privilegiadas e fragilizados por essa nova hierarquia que emerge.

Existe inteligência nas entrelinhas de “The White Lotus” é reflexões que ficam muito tempo depois que a minissérie termina. É um espetáculo de ver e eu, com toda a certeza, teria mais fôlego para devorar muito mais do que só 6 episódios.

NOTA: 9,5

País de origem: EUA
Ano: 2021

Disponível: HBO Max
Duração: 358 minutos / 6 episódios
Diretor: Mike White
Roteiro: Mike White
Elenco: Murray Bartlett, Alexandra Daddario, Jake Lacy, Jennifer Coolidge, Steve Zhan, Connie Britton, Sydney Sweeney, Fred Hechinger, Molly Shannon

Crítica: A Mulher na Janela

Colcha de retalhos

Difícil analisar “A Mulher na Janela” porque, claramente, é uma colcha de retalhos, porcamente costurada. Problemas na produção, roteiro reescrito, cenas regravadas. Tudo isso acaba se refletindo no resultado final e o que vemos, infelizmente, é um experimento mal sucedido e que já indicava dar errado lá no início. Não venho crucificar o trabalho do cineasta Joe Wright (Orgulho e Preconceito), porque é nítido o quão competente ele é e não sei o quanto dele realmente existe dentro desse filme. Se houve alguma intenção por parte do autor, que soa como o estudo da psique da protagonista que precisa investigar seus próprios traumas para entender um crime, tudo isso se desfaz e se transforma em um exagerado clímax de terror, com sangue, tensão e tudo o que a obra, até então, se negava a ser.

Baseado no best seller de A. J. Finn e com claras referências ao cinema de Hitchcock, “A Mulher na Janela” desenha um suspense clássico, onde a perspectiva da protagonista não é das mais confiáveis. Ana (Amy Adams) é uma psicóloga infantil que sofre de agorafobia, o que a impede de sair para fora de casa. Ela enfrentou grande perda no passado e se vê estagnada nesta tentativa de se reerguer. A grande virada é quando ela acredita ter presenciado um assassinato no outro lado da rua, precisando provar sua sanidade e sua palavra contra todos aqueles que negam suas acusações.

A obra pouco explora esse voyeurismo da personagem, que sabe exatamente quando apontar sua câmera para o vizinho e avistar algo duvidoso. E assim, tudo nos é revelado às presas e pouco conseguimos desfrutar dos mistérios ou desta paranoia. O roteiro tem pouco apego sobre o suspense e revela seus bons segredos com desdém, com pouca importância. Diminui o máximo que pode a complexidade da trama e desses personagens, que pouco nos causam interesse. O grande problema do texto, ao fim, é nunca conseguir estabelecer essa relação que existe entre todos eles, enfraquecendo toda a trama e suas viradas, que jamais causam algum impacto.

A cor rosa, muito presente nas cenas, representa a inocência, a fantasia. Como se o que Ana vivesse fosse um sonho, uma ilusão. Apegada aos filmes que assiste, assim como sua negação a tudo o que é real, ao lado de fora. A boa intenção de “A Mulher na Janela”, além de concentrar toda sua trama em um único ambiente, basicamente, é nos fazer questionar essa ilusão, se o que acontece além daquelas janelas é realmente como a protagonista diz. Apesar das boas ideias, a obra conta com um roteiro preguiçoso e tudo é resolvido de maneira insossa, como a solução que encontra para o transtorno da protagonista ao fim.

O grande momento do filme é quando entra em cena Julianne Moore. Em poucos minutos, a atriz entrega todo o sentimento e honestidade que falta ao resto. O jovem Fred Hechinger também se destaca mesmo com o pobre roteiro, entregando algo notável. “A Mulher na Janela”, apesar de contar com um bom ritmo, é uma bagunça desgovernada que não se decide o que quer ser. Na ausência de um único diretor, se perde no próprio conceito, na própria linguagem. Ter altas ambições não adianta se não existe um objetivo a seguir. Um grande equívoco.

NOTA: 6

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: The Woman in The Window
Disponível: Netflix
Duração: 101 minutos
Diretor: Joe Wright
Roteiro: Tracy Letts
Elenco: Amy Adams, Fred Hechinger, Gary Oldman, Wyatt Russell, Julianne Moore, Anthony Mackie, Tracy Letts