Crítica: Judas e o Messias Negro

Os bastidores da revolução

É um momento relevante que nasce “Judas e o Messias Negro”. O longa, que marca a ótima estreia do diretor Shaka King, vem para reforçar tantos discursos em pautas atuais, como os do movimento Black Lives Matter. Mesmo em uma trama que se inicia lá no final da década de 60, traz grandes reflexões sobre desigualdade social, racismo e sobre a corajosa luta dos negros ao longo dos anos.

O filme traz uma estrutura já comum no cinema, a do infiltrado que se fascina por seu alvo. Ainda assim, o roteiro empolga e costura um suspense hipnotizante, principalmente pelas ótimas atuações do elenco e pela complexidade de sentimentos entregues ali. Logo ao início somos apresentados ao Messias Negro, Fred Hampton (Daniel Kaluuya), o ativista e líder do Partido dos Panteras Negras. Grande orador, seus discursos poderosos recrutam e inspiram jovens negros, que se unem dedicados a libertação de pessoas oprimidas. Esse idealismo chama a atenção do FBI, que o encara como um grande inimigo da Segurança Nacional, o que faz com que um agente (Jesse Plemons), use William O’Neal (Lakeith Stanfield), um ladrão de carros, como informante dentro dessa organização. A partir desse momento, acompanhamos a ascensão de Hampton na política e esta relação que nasce entre ele e o novo membro infiltrado.

“Eu sou um revolucionário”. A sequência que revela o poderoso discurso de Hampton é o grande momento do filme, que sintetiza bem esse poder que alcança. Não apenas revela a força das atuações de Daniel Kaluuya e Lakeith Steinfeld, como indica um ponto importante e de ruptura ali. É o momento em que O’Neal revela traços mais complexos, revelando-se um indivíduo bastante intrigante, que passa a confrontar sua necessidade de sobreviver com suas crenças. Ainda que Lakeith seja brilhante, o palco acaba ficando com Kaluuya, que se entrega em cena, transitando com perfeição entre a força e a fragilidade, entre a coragem e a introspecção. É seu grande momento. Curiosamente, ambos foram indicados como coadjuvantes no Oscar. Merecido, mas isso também aponta algo que senti falta na obra: o personagem central, que fosse nosso olhar dentro das situações. Esse elemento diminui um pouco o filme, logo que tudo nos é revelado com certa distância, como se assistíssimos de longe, sem se aprofundar no íntimo de nenhuma dessas figuras tão emblemáticas. Vale destacar, também, a atriz Dominique Fishback que está incrível e sua personagem traz ainda mais profundidade à trama e essa reflexão sobre quais são os motivos de Fred tem para sobreviver, qual o legado que sua luta deixará.

A condução de Shaka King é bastante segura e mantém o bom nível. A ótima trilha, os figurinos e toda esta belíssima ambientação nos levam de volta aos anos 60. A produção conversa bastante com o recente “Infiltrado na Klan” de Spike Lee, mas confesso que gosto bem mais desse. Encerro dizendo, que os letreiros finais vem como um grande soco no estômago. Apesar de trazer uma narrativa que já conhecemos, a realidade ao fim vem como choque. É uma história triste, revoltante e que causa um grande impacto em nós.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2021
    Título original: Judas and The Black Messiah
    Duração: 126 minutos
    Diretor: Shaka King
    Roteiro: Shaka King, Will Berson
    Elenco: Daniel Kaluuya, Lakeith Stanfield, Jesse Plemons, Dominique Fishback, Algee Smith

Crítica: Queen & Slim

Quem será o seu legado?

Poderíamos estar diante de uma bem-vinda releitura de Bonnie e Clyde. Aquela velha história do casal que foge após cometer um crime. No entanto, felizmente, “Queen & Slim” é muito mais do que isso. Sim, a premissa da obra é a que já conhecemos, mas há, nas suas entrelinhas, um debate poderoso e que dá o tom da obra. No começo, somos apresentados ao casal Slim (Daniel Kaluuya) e Queen (Jodie Turner-Smith), que estão se conhecendo em um jantar. No retorno para a casa, porém, são parados por um policial e quando, em um ato de desespero e defesa, Slim o mata, o casal se vê obrigado a fugir. Os dois traçam uma rota pelos Estados Unidos enquanto, do outro lado, se tornam símbolo de rebeldia e justiça para a comunidade negra.

Dirigido por Melina Matsoukas, conhecida no meio do entretenimento por dirigir clipes de cantoras como Beyoncé, Jennifer Lopez e Katy Perry, ela traz para a tela toda a beleza de um vídeo musical. Seus cortes, enquadramentos e a belíssima fotografia dão sinais de uma profissional muito consciente sobre como rege esses elementos dentro de sua obra e que ilustram, com perfeição, suas tantas intenções. Mulher. Preta. Ela está em seu lugar de fala e retira, de uma premissa simples, um discurso poderoso sobre racismo e aproveita, através de seu total domínio estético, para fazer um tributo à cultura negra em geral. Pelas ruas de Ohio, Nova Orleans. Pelos bares de jazz. Seja na dança, nas roupas, seja na postura de seus protagonistas. Há elementos clássicos de um road movie, mas sua beleza está nesses detalhes. Detalhes que constroem sua identidade. Identidade que da voz ao seu manifesto.

“Se eu tivesse a chance, eu teria beijado todas as suas cicatrizes.”

“Queen & Slim” diz muito sobre essa luta conjunta entre os negros. Desse suporte e da cultura que ilustra esses discursos. É interessante quando um ato, criminoso até, é visto como um ato de coragem, de libertação por aqueles que os entendem. Que vivem na mesma pele. Que vivem a mesma luta. Sem precisar defender tal atitude, o roteiro entende a força que esses eventos causam na sociedade e que há beleza nessa identificação. Emociona ao ver que na fuga também existe a proteção por todos aqueles da mesma comunidade. É até mesmo nos belos diálogos entre o casal, existe uma cumplicidade, solidariedade, uma conexão que vai muito além de um romance. É uma questão histórica. O filme diz muito sobre esse racismo enraizado na cultura e como ele define a história de alguém, costura seu rumo, constrói seus medos. Sobre como essa estrutura racista, ainda que velada, transforma as interações humanas.

A obra, ainda que muito bem dirigida, tem suas quebras. Talvez por a todo momento os personagens estarem em um canto diferente, mesmo que isso traga uma agilidade e dinamismo na trama, também traz oscilação, entregando alguns instantes sem a mesma potência que outros. Há, também, alguns bons respiros, como quando eles param para ver um cavalo ou sentir a brisa pelo carro. Pode parecer aleatório, mas acredito que esses minutos fortaleçam o laço entre o casal, além de serem visualmente lindas de se verem. Aliás, ambos estão incríveis em cena. Jodie Turner-Smith é uma boa revelação e Daniel Kaluuya comprova, mais uma vez, sua força como ator.

Queen e Slim, a todo momento, questionam o legado que deixarão no mundo. Nessa viagem incerta, sem destino, a maior preocupação deles é serem esquecidos, é que toda a luta seja em vão. Neste sentido, então, o final vem como um soco doloroso na alma. É bonito pela mensagem que deixa, mas impacta porque há um tom de veracidade em sua tragédia.

NOTA: 9,0

  • País de origem: EUA
    Ano: 2019
    Duração: 132 minutos
    Distribuidor: Universal Pictures
    Diretor: Melina Matsoukas
    Roteiro: Lena Waithe, James Frey
    Elenco: Daniel Kaluuya, Jodie Turner-Smith