Crítica | Zola

Quando a tela do twitter ganha vida

Sucesso no último Independent Spirit Award, “Zola” tem como base uma thread de Twitter. Sim, isso mesmo. A história nada mais é que um relato de um rolê muito errado e que em 2015 foi minuciosamente narrado em cerca de 150 tuítes pelo perfil de @_Zolarmoon. A cineasta Janicza Bravo, que também assina o roteiro, entrega uma encenação inventiva sobre o caso, que envolve perseguições, muito sexo e pessoas estranhas.

O texto é bastante original ao colocar suas protagonistas narrando a história dentro da própria cena. Mais do que uma ousada quebra da quarta parede, essa saída rapidamente nos remete a uma pessoa interrompendo sua realidade para postar sobre. É, de fato, como se o Twitter ganhasse vida ali. Genial, então, quando tudo parece tão fake e exagerado, ganhando, ainda, distintas versões de seus locutores, onde cada um narra da forma que melhor lhe convém. Janicza acerta nesse visual pop, granulado, cheio de cores e filtros. Desenha uma atmosfera muito nova e que dialoga muito bem com suas intenções. Até mesmo os divertidos efeitos sonoros agregam na experiência.

A loucura inicia-se quando Zola (Taylour Paige) conhece Stefani (Riley Keough) em um restaurante onde trabalha como garçonete. Uma rápida amizade nasce entre as duas e logo Zola é convidada para ir até a Flórida ganhar dinheiro fácil dançando em uma boate de strip. O problema é que no caminho ela se vê presa em uma armação que envolve prostituição e um cafetão ganancioso. Apesar da trama causar bastante curiosidade, o filme termina com a sensação de que deve ter sido muito insano viver aqueles momentos, mas o público acaba não tendo acesso a esses sentimentos. É tudo muito bizarro e alucinante, mas acontece sem nos colocar para dentro.

“Zola” é exatamente como a timeline de rede social. Diverte assistir de fora, mas acompanhamos com distância, sem nunca fazer parte. Falta aquela condução que nos coloque para dentro da ação. Também sinto que pouco se aprofunda nas personagens, onde Zola e Stefani, ao fim, não passam de duas incógnitas. Ao menos, Taylour Paige e Riley Keough estão fantásticas em cena e enchem a tela de carisma. Uma obra provocativa, insana e muito fora do comum.

NOTA: 7,0

País de origem: EUA
Ano: 2020
Duração: 90 minutos
Disponível: HBO Max
Diretor: Janicza Bravo
Roteiro: Jeremy O. Harris, Janicza Bravo
Elenco: Taylour Paige, Riley Keough, Nicholas Braun, Colman Domingo

Crítica | A Lenda de Candyman

Histórias de dor sobrevivem

Apesar de ser uma continuação direta do filme de 1992, “Candyman” também pode funcionar para quem desconhecia a história. Os eventos já ocorridos são relatados aqui como lendas e muito bem situam um novo público. Agora com direção de Nia DaCosta, é interessante como eles amplificam esse universo, trazendo questões raciais ainda mais escancaradas e situações mais pavorosas.

Criada pelo escritor britânico Clive Barker, o mesmo de Hellraiser, a lenda urbana de Candyman teve sua primeira aparição em 1984 no conto “The Forbidden”. Tem como base uma ação clássica de nossa infância: dizer o nome dele cinco vezes no espelho e ele aparecerá para te matar. Assim como no primeiro filme, aqui o roteiro também usa dessa premissa simples para discutir racismo estrutural e gentrificação. Mas também se atualiza e deixa suas intenções ainda mais claras e poderosas. Candyman era um homem negro que foi brutalmente assassinado no passado. Reviver sua lenda é não deixar essa dor da violência ser esquecida. Ela precisa sobreviver porque é um sinal de luta, de resistência.

O novo protagonista é Anthony, artista plástico vivido por Yahya Abdul-Mateen II, que vive com sua namorada em um condomínio de luxo. Para um novo projeto de pintura, ele passa a se inspirar nos eventos macabros ocorridos em Cabrini-Green. No entanto, sua arte acaba por despertar novamente a ira de Candyman, trazendo consigo novas vítimas. A trama traz algumas semelhanças com o primeiro filme, mas existe brilhantismo na forma como faz esse resgate, seja pelas pesquisas do passado feitas por Anthony, seja por sua nova obsessão pelo caso. O roteiro, que também é assinado por Jordan Peele, traz algumas sacadas brilhantes e muita reflexão. A produção vem requintada e a direção de Nia da Costa eleva o nível, encontrando saídas visuais que causam fascínio. As cenas são belas, existindo sempre esse equilíbrio desconfortavelmente simétrico, espelhado assim como esse plano em que Candyman ressurge.

Apesar de acentuar suas provocações, é um filme em que suas intenções são maiores que ele mesmo. Ainda que seja um resgate necessário e bastante atual, como saldo final, não fica muito à frente de seu antecessor, que já possuía suas falhas. O texto, infelizmente, conduz muito mal essa jornada do protagonista, do qual nunca estamos conectados. Suas transformações nunca são convincentes, assim como a dos personagens que o cercam. O ato final é de uma confusão absurda, não deixando claro como a história chegou naquele ponto. É corrido e decepciona, não estando a altura do que prometia lá no começo.

NOTA: 6,5

País de origem: EUA, Canadá
Ano: 2021

Título original: Candyman
Duração: 91 minutos
Diretor: Nia DaCosta
Roteiro: Nia DaCosta, Jordan Peele, Win Rosenfeld

Elenco:Yahya Abdul-Mateen II, Teyonah Parris, Colman Domingo, Vanessa Williams