ensaios da liberdade

À margem do rio Hudson, distante da civilização, está situada a penitenciária de Sing Sing. Dentro de suas muralhas, existe um grupo de teatro, parte de um programa de reabilitação para os detentos. O filme é sobre esses homens que buscam na arte o escape necessário para suportar o isolamento. Que buscam na encenação o que eles terão de mais próximo de liberdade. 

A obra navega com inteligência entre a ficção e o documentário. Muitos dos rostos que vemos na tela pertencem a ex-detentos, agora em liberdade, mas que fizeram parte do programa enquanto estavam encarcerados. A escolha de trazer as vozes de quem vivenciou essa experiência traz ao filme uma naturalidade e espontaneidade absurda. É um trunfo do diretor Greg Kwedar, que extrai do elenco uma honestidade que transborda nas cenas.

Colman Domingo interpreta Divine G, que encontra no teatro seu maior propósito ali dentro. Sua rotina é desestabilizada com a chegada de um novo membro ao grupo, Divine D, que estremece suas decisões criativas. Ao decorrer da obra, acompanhamos a montagem de uma peça e, nesse processo, o texto aproveita para revelar as conexões que ali são estabelecidas. O foco nunca está no resultado, mas no caminho percorrido até ele. Essa trajetória me comove bastante, especialmente ao observar essa relação entre os personagens e como um vai apoiando o outro. De vê-los encontrando na farsa o que há de mais verdadeiro e profundo dentro de si mesmos. 

A direção de Kwedar tem um tom quase documental, com planos estáticos que capturam os rostos de perto, transmitindo uma sensação de proximidade e imersão. “Sing Sing” é um filme de relatos, de acompanharmos o que cada indivíduo ali tem a dizer. E todos eles tem muito o que compartilhar e ouvimos com muita atenção e empatia. A obra encontra humanidade em um ambiente onde, normalmente, se espera apenas violência. O texto quebra qualquer estereótipo que o cinema tenha nos apresentado sobre o sistema prisional, nunca se concentrando nas paredes que separam aqueles homens do mundo, mas sempre no poder da arte que os aproxima do resto. 

“Sing Sing” é milagroso e transformador. É daqueles filmes que inspiram e transcendem. Saí da sessão renovado e encantado por diversas falas que ficaram ecoando em mim. A presença de Colman Domingo é simplesmente imensa. Este é, sem dúvida, o grande momento dele no cinema. Vejo uma verdade palpável em cada cena que ele ocupa, tirando algo profundo de si e preenchendo o filme com isso. A obra emociona de forma intensa e nos lembra do poder da arte e como ela nos liberta. Uma pena ter sido tão esnobada no Oscar. Definitivamente, melhor que muitos dos indicados e vencedores desta última edição.

NOTA: 9,5

País de origem: EUA
Ano: 2025

Título Original: Sing Sing
Duração: 107 minutos
Diretor: Greg Kwedar
Roteiro: Greg Kwedar, Clint Bentley
Elenco: Colman Domingo, Clarence Maclin, Paul Raci, Sean San Jose

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