muita vida correndo nas veias
Robbie Williams teve uma relação complexa com a fama e em cima do palco ele se via como um macaco. É a partir desta inusitada perspectiva que nasce “Better Man”, sobre os altos e baixos da trajetória do popstar britânico através de um primata feito por computação gráfica. Trata-se de um filme bastante pessoal, apesar de extravagante, que humaniza o astro ao apresentá-lo justamente como ele se vê e não como ele será lembrado.
Ter um protagonista macaco vivendo como humano pode parecer estranho. Na verdade, é estranho. Mas é esse elemento insólito que o diferencia da obviedade das tantas cinebiografias que inundaram o cinema nos últimos tempos. É um texto que está muito mais preocupado em traduzir a verdade emocional do protagonista e no turbilhão de sentimentos que o cerca do que seguir uma narrativa lógica.

“Como você não sabe quem é, quando o mundo inteiro grita o seu nome?”. Através de Robert – o macaco – conhecemos Robbie Williams. Diferente de outras produções que tentam endeusar e romantizar uma trajetória de sucesso, “Better Man” ousa mergulhar nos vícios, tombos e frustrações. Embora o foco na ausência paterna seja bastante comum em cinebiografias, o longa consegue extrair disso camadas mais profundas. A criança abandonada cresce despedaçada, carente de aprovação. Segue fascinada pela fama e pelo legado frágil que herdou do pai, buscando nos holofotes preencher seu imenso vazio existencial.
A escolha de representar o astro como um animal faz com que a obra abrace o surrealismo, revelando uma vida de excessos como um sonho eletrizante. Apostar na linguagem musical, recurso que funcionou muito bem em “Rocketman”, também se mostra acertado aqui. As sequências musicais são vibrantes, com coreografias marcantes que remetem aos melhores momentos de “O Rei do Show”, obra anterior do diretor Michael Gracey. Em alguns casos, a música é usada para sintetizar arcos dramáticos inteiros, como quando resume anos de relacionamento amoroso em uma única cena de dança.
“Better Man” tropeça ao adotar um visual excessivamente artificial, típico do “cinemão” contemporâneo. O abuso de efeitos visuais, cenários digitais e luzes exageradas dificultam a apreciação dos detalhes e comprometem o encantamento. Tudo parece ter sido feito em fundo verde, o que dilui parte da força sensorial que o filme poderia ter.
Robbie, para o Robert, era um personagem. Estar no palco era um disfarce. O que torna a escolha de nunca mostrar o rosto real do artista uma decisão fascinante e um tanto irônica vinda de alguém tão associado ao exibicionismo. Mas aqui, o desejo é outro: ser verdadeiramente visto. Ele se joga no mundo à procura de pertencimento, tentando odiar um pouco menos a si mesmo. Apesar de, em sua essência, não escapar totalmente dos clichês do gênero, “Better Man” emociona e impressiona com sua excentricidade. É uma cinebiografia diferente, que prefere mergulhar na alma do artista a apenas contar sua história.
NOTA: 8,5

País de origem: EUA, Reino Unido
Ano: 2025
Título Original: Better Man
Duração: 135 minutos
Diretor: Michael Gracey
Roteiro: Simon Gleeson, Oliver Cole, Michael Gracey
Elenco: Jonno Davies, Raechelle Banno, Steve Pemberton, Kate Mulvany, Damon Herriman
