a solidão dos que ficaram

Sempre refrescante ver o cinema nacional sendo bem sucedido em diferentes gêneros. “Oeste Outra Vez” é um excelente faroeste contemporâneo que, a partir de seu vasto e árido cenário, investiga a frágil e atual realidade masculina.

Em uma terra sem muitas leis, homens criam rivalidades e buscam resolver suas pendências à base de violência. São indivíduos solitários, que foram abandonados por suas mulheres e encontram na bebida e na brutalidade a razão para continuar seguindo. Motivado por uma profunda angústia e amargura, Totó (Ângelo Antônio) trava uma batalha contra Durval (Babu Santana), o atual parceiro de sua ex-esposa. Quando seu plano de eliminar o inimigo dá errado, o jogo se inverte: Totó se torna a caça e não mais o caçador. 

“Oeste Outra Vez” é um grande exemplar do slow cinema. É vagaroso, pausado e cheio de muito silêncio. Mas há muita substância nesse universo e nesse estudo do diretor Érico Rassi. A montagem, aliada à elegância das composições visuais, faz desta produção digna de nota. Acompanhamos com fascínio os passos dos personagens, cujos diálogos oscilam entre um humor inesperado e uma melancolia palpável. O elenco também é ótimo, com destaque para Rodger Rogério, premiado como Melhor Ator Coadjuvante em Gramado. Cada cena dele é uma nova pérola. 

Existe um novo olhar sobre o faroeste e o filme quebra, de maneira bastante inteligente e atual, esse arquétipo do ideal masculino que guiavam essas histórias. “Homens devem ser fortes, justos e corajosos e não devem recuar quando surge uma briga”, já dizia John Wayne. Aqui, essa brutalidade que sempre foi glorificada, surge como uma farsa. Seus personagens estão quebrados, mas não podem jamais revelar essa vulnerabilidade. Todos perderam alguém que amavam. Estão sozinhos e vagam neste mundo que já não oferece um lugar seguro para eles. 

Estamos vivendo um ótimo momento no cinema nacional e “Oeste Outra Vez” é uma grande prova disso. Nada em cena é óbvio, nem mesmo um simples jogo de sinuca. Erico Rassi desenha uma obra singular, potente e que me fez sair da sessão maravilhado por tudo o que tinha acabado de ver. Um estudo fascinante sobre solidão e abandono e desse ciclo de violência criado pelos homens que, enquanto não racha, apenas deixa os rastros de ódio (e de muitas vítimas).

NOTA: 9,0

País de origem: Brasil
Ano: 2024
Duração: 97 minutos
Diretor: Erico Rassi
Roteiro: Erico Rassi
Elenco: Ângelo Antônio, Rodger Rogério, Daniel Porpino, Adanilo, Babu Santana, Antonio Pitanga

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