Um retorno aguardado, porém frustrante
Curioso o alvoroço causado por “Mad Max: Estrada da Fúria” em 2015. Não era uma franquia com um apelo muito comercial na época e quase ninguém aguardava por aquele reboot. O filme cresceu pelo boca a boca, devido a imensa qualidade, tornando-se um marco na década passada. Infelizmente, nove anos depois, apesar da longa espera, não há muito pelo o que vibrar com “Furiosa”. George Miller retorna ao universo que criou para contar a origem desta personagem icônica, mas pouca coisa funciona. Vem apenas para provar que ter mais diálogos não necessariamente torna um roteiro mais completo e interessante.
Vejo uma certa coragem neste prelúdio, preciso dizer. George Miller poderia simplesmente resgatar todas as inúmeras qualidades de Fury Road e forçar sua protagonista a se adaptar nelas. Ele evita cair na armadilha de se aproximar de um remake e constroi, de fato, um filme novo. Aqui, o texto dá mais atenção para a construção da história e de sua protagonista, desacelerando suas sequências de ação e toda a adrenalina excessiva presente no filme anterior. Uma decisão arriscada que poderia servir a seu favor, no entanto, no lugar das máquinas ferozes precisamos encarar uma trama de vingança insossa e que nunca engata. É um texto sem dinamismo, sem vida e com personagens pouco empáticos.

Não há um bom equilíbrio entre a contextualização do cenário com a história de origem de “Furiosa”, comprometendo demais os primeiros capítulos. A primeira meia hora – importante para estabelecer seu cenário – é bastante equivocada, caótica e com ritmo fraco. A protagonista, que é uma jovem com sede de vingar a morte da mãe, parece sempre ofuscada e nunca ganha a devida importância ou um momento que nos faça realmente vibrar por sua jornada e conquistas.
Anya Taylor-Joy se esforça, mas dificilmente será lembrada por esse papel. Assim como Chris Hemsworth, que é sim muito competente, mas é aquele tipo de atuação que se esconde em uma dentadura e maquiagem, virando ainda refém de um roteiro incapaz de criar um vilão que ofereça algum tipo de perigo ou tensão. Por outro lado, é o único que entrega algum tipo de carisma ali.
A ação continua bem coreografada, mas sem a potência de antes. Sem a força e energia que explodia na tela. É então que entendo que o fator que mais distancia “Furiosa” de “Fury Road”, além das decisões de narrativa, foi o excesso do uso de efeitos digitais. É desta forma que ele se aproxima muito mais do cinemão genérico de Hollywood do que daquelas fascinantes movimentações feitas com efeitos práticos. E, infelizmente, muitas cenas soam extremamente falsas, perdendo qualquer chance de impacto. Falta ainda uma trilha eletrizante para compor tudo isso. A assinatura continua por conta de Junkie XL, mas é outro elemento que chega sem inspiração alguma.
Em suma, tudo pareceu feito às pressas e sem o cuidado de antes. Confesso que não consegui me conectar em nenhum momento com o que estava sendo oferecido. George Miller retorna com o filme mais longo de sua franquia, com a intenção de desenvolver melhor a história e expandir seu universo. É incrível, porém, que mesmo com mais diálogos em cena, a obra consegue ser extremamente infértil. Absolutamente nada é bem desenvolvido aqui. Pouco entendemos a evolução das relações entre os personagens e pouco nos afeiçoamos ou torcemos por eles. Não há imersão em “Furiosa” e nem razão para lembrarmos da obra posteriormente.
NOTA: 6,5

País de origem: Austrália
Título original: Furiosa: A Mad Max Saga
Ano: 2024
Duração: 149 minutos
Diretor: George Miller
Roteiro: Nico Lathouris, George Miller
Elenco: Anya Taylor-Joy, Chris Hemsworth, Tom Burke, Lachy Hulme
