Crítica: À Espreita do Mal

Tem sido interessante acompanhar esse movimento da Netflix de lançar filmes recentes e que não tiveram o devido reconhecimento na época pela pouca (ou nula) distribuição. Aconteceu recentemente com “Upgrade”, “País da Violência” e agora com “À Espreita do Mal”. É uma produção que pode até ter suas falhas, mas facilmente se destaca no catálogo. Apesar de ter lido algumas duras críticas, confesso que super funcionou comigo. 

A obra já nos instiga em seus primeiros minutos. Seja pelos ruídos da trilha sonora ou pela boa atmosfera de tensão que se constrói, somos fisgados pela curiosidade de compreender essa inquietação que nos causa. É interessante como o filme, no início, traz indícios de um mistério sobrenatural, apostando naquele velho conceito de acontecimentos estranhos dentro de uma casa, ambientada por uma família nitidamente fragilizada. Ganha quando não usa o mistério como muleta para sua revelação final, indicando uma reviravolta intrigante que prefiro não comentar por aqui. Causa desconforto e soa como uma saída ainda melhor do que aquela que prevíamos no início. 

Acredito que o pecado de “À Espreita do Mal” é se justificar demais. Mesmo com uma boa ideia em mãos, o roteiro falha ao querer deixar tudo muito bem explicado ao público, chegando ao ponto de revelar a mesma narrativa por pontos de vistas diferentes, quando na sugestão sua trama era mais interessante. 

Ainda que não alcance por completo o potencial que tinha, é uma obra que vai se tornando cada vez mais intrigante, oferecendo um ótimo final. Subverte o terror e surpreende com os bons caminhos que segue. Funciona, principalmente, porque todos seus personagens escondem algo, uma peça crucial que, até o ato final, não sabemos dizer quais deles são os vilões e os heróis da história.

NOTA: 8

  • País de origem: EUA
    Ano: 2019
    Título original: I See You
    Disponível: Netflix
    Duração: 96 minutos
    Diretor: Adam Randall
    Roteiro: Devon Graye
    Elenco: Jon Tenney, Owen Teague, Helen Hunt, Judah Lewis

Crítica: O Chalé

A pressão do parafuso

“The Lodge” é um filme de terror que tem ganhado fama, aos poucos, aqui no Brasil. É o mesmo caminho que a dupla de diretores e roteiristas, Veronika Franz e Severin Fiala, enfrentou em 2014 quando lançaram “Boa Noite, Mamãe”, que surgiu tímido mas não demorou até ganhar reconhecimento. O trabalho anterior deles foi definitivo para o que hoje é realizado dentro do gênero e este retorno vem para reafirmar a grande habilidade deles em construir obras perturbadoras e de forte impacto. Alguns elementos voltam como o fato da trama se concentrar na relação conturbada entre duas crianças e uma enigmática figura materna. Além, é claro, a interessante construção do roteiro, que tem a capacidade de nos confundir e de driblar nosso olhar para a verdade.

O começo do filme é lento mas é crucial para revelar sua potente intenção. A protagonista Grace (Riley Keough) demora a se revelar, propositadamente. Ela é capturada de costas ou através de vidros esfumaçados. Essa escolha é interessante porque nos guia a criar uma imagem dela pelo olhar e impressão de outras pessoas. A julgamos previamente, não apenas por seu passado mas por ela ser a representação daquilo que, teoricamente, destruiu uma família. Grace está noiva de Richard, cujo os dois filhos pequenos, Aidan e Mia acabaram de perder a mãe que se suicidou. Ainda abalados pela perda, os dois são obrigados a se aproximar da nova madrasta no feriado de Natal, dentro de um chalé em uma região remota e afastada. O filme, então, nos leva a enfrentar esta desconfortável relação entre os três. A tensão piora quando estranhos eventos passam a acontecer ali, levando à protagonista a questionar sua fé e reviver as escolhas de seu passado.

Veronika Franz e Severin Fiala entregam sequências visualmente bem interessantes, capturando seus ambientes por planos bem abertos e até mesmo vertiginosos, construindo uma atmosfera de tensão e constante desconforto. É ainda curioso o uso da casa de bonecas, que recria com perfeição o chalé e nos leva a este sentido dúbio sobre o que é invenção, manipulação ou reconstrução da realidade. Quando o roteiro entrega sua primeira reviravolta, ele bifurca suas interpretações e passamos a questionar o que, de fato, está acontecendo ali. Até que ponto aquilo é real ou alucinação. Os roteiristas apostam em nossas lembranças, até mesmo de outros filmes, para criar um jogo audacioso e um tanto quanto divertido. Eles nos enganam porque sabem onde já fomos enganados outras vezes. Com fortes referências à obra clássica de Henry James, “A Volta do Parafuso” – que serviu de base à muito do que conhecemos no terror dentro do cinema – somos manipulados a enxergar algo através desses símbolos que eles usam, inclusive o próprio nome da protagonista, Grace, logo nos remete à personagem de Nicole Kidman em “Os Outros”, talvez a mais memorável adaptação do conto e que muito se assemelha aos acontecimentos daqui. O grande brilhantismo vem quando ele quebra essa nossa previsão e entrega algo mais palpável, surpreendente e ainda assim, assustador.

A expressão “a volta do parafuso” diz muito sobre o filme também. Ainda que em português não faça muito sentido, o termo é uma metáfora para aquilo que está ruim e pressionamos para ficar pior. As crianças aqui usam da fraqueza de Grace para construir um jogo perverso, a levando a enfrentar seus próprios fantasmas, se afundando dentro de si. O terror psicológico vem justamente dessa mente desestabilizada dela e desta relação que tem com a fé, deste pavor que sente diante dos símbolos religiosos que repreendem seus pecados. Esta perigosa oscilação da personagem é muito bem representada pela atriz Riley Keough, que entrega um de seus melhores momentos no cinema até agora. O filme, no entanto, perde um pouco pela pressa de se revelar, não nos permitindo aproveitar dessa tensão que se constrói e de suas próprias reviravoltas. O final, aliás, é bastante caótico e não explora todo o potencial que tinha, entregando suas revelações de forma fria, longe do climax que poderia alcançar. Sinto falta de conhecer um pouco mais sobre as crianças e entender melhor as motivações delas também. O longa carece ainda de originalidade, desde sua trilha sonora com ruídos à condução dos diretores, tudo nos remete à um cinema ainda muito recente como “Hereditário”, “O Sacrifício do Cervo Sagrado” e outras obras mais potentes do terror moderno.

Apesar das falhas, “The Lodge” funciona e nos deixa bastante atordoados ao fim, tentando digerir tudo o que nos foi mostrado. Pode não ter o mesmo impacto que outros filmes do gênero, mas merece ser descoberto.

NOTA: 7,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2019
    Duração: 100 minutos
    Título original: The Lodge
    Distribuidor: –
    Diretor: Severin Fiala, Veronika Franz
    Roteiro: Severin Fiala, Veronika Franz
    Elenco: Riley Keough, Jaeden Martell, Lia McHugh, Richard Armitage, Alicia Silverstone