Crítica: A Casa Sombria

A força que nos leva para baixo

O terror psicológico, quando bem conduzido, nos permite ter diversas leituras. “A Casa Sombria” desenha dois caminhos interessantes e, quase como uma via bifurcada, nos permite escolher qual rumo vamos seguir. Traz, em cena, elementos de uma trama sobrenatural enquanto discute, com sensibilidade, sobre luto e depressão.

Rebecca Hall é uma atriz potente e graças a sua bela performance nos envolvemos em sua dolorosa jornada. Ela interpreta Beth, uma mulher que tenta se manter firme depois da morte do marido. Vivendo em uma casa à beira de um lago que ele mesmo construiu, ela se vê cercada de lembranças e alucinações que a fazem ficar obcecada pelos segredos guardados pelo falecido.

Confesso que me vi tocado por diversas vezes, mesmo se tratando de um filme de terror, por essa força que Beth tenta buscar, mas é sempre dominada pelo medo, pela dor, por esse sentimento que a afunda, a torna distante da realidade. É curioso como ela fica fascinada pela possibilidade de sentir a presença de um fantasma. A protagonista nunca está fugindo, pelo contrário, ela encara, ela o abraça, mesmo quando se mostra tão cética. Isso dá um tom perturbador à obra, que sempre caminha longe da obviedade. A direção de David Bruckner é essencial também, nunca se prendendo a sustos fáceis e se concentrando mais em construir uma atmosfera. Um belo trabalho, que nos faz querer ficar de olho em seus próximos projetos.

O que enfraquece “A Casa Sombria”, infelizmente, é por se contentar em revelar seu complexo e inteligente universo em uma simples revelação ao final, quando poderia ter explorado suas ótimas ideias de forma mais aprofundada. Ainda que, como possível leitura, tudo não passe de uma metáfora para a depressão enfrentada pela protagonista e esse mundo sombrio que ela cria para si, também deixa uma sensação de frustração por não desenvolver esse outro caminho que abre, o do sobrenatural, que é tão amplo e que nos fascina pela originalidade.

A obra termina e nos deixa com dúvidas inquietantes e por isso, faz a sessão valer a pena. Fiquei por um tempo ainda tentando juntar as peças e seus possíveis significados. É poderoso porque é aquele tipo de filme que continua em nossa mente, sendo reformulado e refletido. E quanto mais eu penso nele, mais eu gosto.

NOTA: 7,5

País de origem: Reino Unido, Irlanda do Norte
Ano: 2021

Título original: The Night House
Duração: 108 minutos
Diretor: David Bruckner
Roteiro: Ben Collins, Luke Piotrowski
Elenco: Rebecca Hall, Sarah Goldberg, Stacy Martin, Evan Jonigkeit

Crítica: Maligno

Entre o bizarro e o sofisticado

Um dos nomes mais fortes do terror atual certamente é James Wan. Depois de “Jogos Mortais”, “Sobrenatural” e “Invocação do Mal”, ele retorna com mais um produto digno de atenção. “Maligno” resgata um cinema não mais usual e vai na completa contramão do que tem sido produzido atualmente no gênero. Apesar de ter visto elogios de muitos colegas cinéfilos, confesso que não terminei de vê-lo tão empolgado como a maioria. É uma produção interessantíssima, mas a bagunça é tanta que me afastou um pouco da brincadeira que propõe.

O que é mais assustador: estar na pele da vítima ou daquele mata? É com essa mudança curiosa de perspectiva que “Maligno” fisga nossa atenção. A protagonista Madison (Annabelle Wallis) passa a ter visões de assassinatos, enquanto os assiste imóvel. Logo, ela busca entender, ao lado da irmã, como isso tem sido possível, enquanto, para uma dupla de detetives, passa a ser a principal suspeita dos crimes. O filme guarda muito bem seus mistérios, nos deixando boquiabertos quando revela suas verdadeiras intenções.

Fazia tempo que o cinema não me impactava nessa medida. É bizarro, chocante e imensamente brilhante o que James Wan nos entrega aqui. Tentei prever, mas não pude imaginar uma reviravolta tão incrível como a que ele dá. É uma pena, porém, que a produção abrace o filme B de horror corporal tão tardiamente, quando já havia gastado tempo demais tentando sofisticar o terror ou tudo aquilo que ele não era. Existe um conflito muito grande entre ser bizarro ou requintado e o diretor nunca decide o que quer ser, entregando um produto osciloso, irregular. A verdade é que eu gosto muito dessa produção que nasce ao final, mas quando olho para o todo, decepciona.

“Maligno” é uma bagunça lindamente produzida, mas sem as amarras de um bom roteiro. Há um belo trabalho de iluminação e sequências incrivelmente bem dirigidas por Wan, mas ainda assim falta um bom texto para sustentar suas boas intenções. Tanto a construção dos personagens como os diálogos são simplórios, onde às vezes até divertem pela breguice, mas também afastam pelo desleixo. Até mesmo para um filme que pretende fazer piada de si mesmo, é preciso ter um bom roteiro para a brincadeira funcionar. A gente se diverte sim, mas nem sempre pelas razões certas.

Não acho que filme de terror precisa necessariamente dar medo e também não acho que filmes precisam se encaixar em um gênero definido. É ótimo, inclusive, quando uma obra sabe dosar essa pluralidade. James Wan joga de tudo ali no meio, do terror giallo ao slasher, do thriller psicológico às tramas policiais. É uma loucura que prende a atenção, mas o cinema não sobrevive somente de referência e ousadia. Infelizmente, o longa ainda não sabe se desvincular dos tantos clichês, encerrando-se com um discurso enfadonho e sem o brilho que merecia.

Apesar dos defeitos, “Maligno” é um filme que sai da caixa e merece reconhecimento sim, e não apenas pela belíssima reviravolta que dá. Penso que é uma obra que vale uma revisita e que pode ter um novo impacto nos anos que virão. É absurdo e propõe uma nova forma de encararmos o terror.

NOTA: 7,0

País de origem: EUA
Ano: 2021

Título original: Malignant
Duração: 111 minutos

Disponível: HBO Max
Diretor: James Wan
Roteiro: James Wan, Akela Cooper, Ingrid Bisu
Elenco: Annabelle Wallis, Mckenna Grace

Crítica: À Espreita do Mal

Tem sido interessante acompanhar esse movimento da Netflix de lançar filmes recentes e que não tiveram o devido reconhecimento na época pela pouca (ou nula) distribuição. Aconteceu recentemente com “Upgrade”, “País da Violência” e agora com “À Espreita do Mal”. É uma produção que pode até ter suas falhas, mas facilmente se destaca no catálogo. Apesar de ter lido algumas duras críticas, confesso que super funcionou comigo. 

A obra já nos instiga em seus primeiros minutos. Seja pelos ruídos da trilha sonora ou pela boa atmosfera de tensão que se constrói, somos fisgados pela curiosidade de compreender essa inquietação que nos causa. É interessante como o filme, no início, traz indícios de um mistério sobrenatural, apostando naquele velho conceito de acontecimentos estranhos dentro de uma casa, ambientada por uma família nitidamente fragilizada. Ganha quando não usa o mistério como muleta para sua revelação final, indicando uma reviravolta intrigante que prefiro não comentar por aqui. Causa desconforto e soa como uma saída ainda melhor do que aquela que prevíamos no início. 

Acredito que o pecado de “À Espreita do Mal” é se justificar demais. Mesmo com uma boa ideia em mãos, o roteiro falha ao querer deixar tudo muito bem explicado ao público, chegando ao ponto de revelar a mesma narrativa por pontos de vistas diferentes, quando na sugestão sua trama era mais interessante. 

Ainda que não alcance por completo o potencial que tinha, é uma obra que vai se tornando cada vez mais intrigante, oferecendo um ótimo final. Subverte o terror e surpreende com os bons caminhos que segue. Funciona, principalmente, porque todos seus personagens escondem algo, uma peça crucial que, até o ato final, não sabemos dizer quais deles são os vilões e os heróis da história.

NOTA: 8

  • País de origem: EUA
    Ano: 2019
    Título original: I See You
    Disponível: Netflix
    Duração: 96 minutos
    Diretor: Adam Randall
    Roteiro: Devon Graye
    Elenco: Jon Tenney, Owen Teague, Helen Hunt, Judah Lewis

Crítica: O Chalé

A pressão do parafuso

“The Lodge” é um filme de terror que tem ganhado fama, aos poucos, aqui no Brasil. É o mesmo caminho que a dupla de diretores e roteiristas, Veronika Franz e Severin Fiala, enfrentou em 2014 quando lançaram “Boa Noite, Mamãe”, que surgiu tímido mas não demorou até ganhar reconhecimento. O trabalho anterior deles foi definitivo para o que hoje é realizado dentro do gênero e este retorno vem para reafirmar a grande habilidade deles em construir obras perturbadoras e de forte impacto. Alguns elementos voltam como o fato da trama se concentrar na relação conturbada entre duas crianças e uma enigmática figura materna. Além, é claro, a interessante construção do roteiro, que tem a capacidade de nos confundir e de driblar nosso olhar para a verdade.

O começo do filme é lento mas é crucial para revelar sua potente intenção. A protagonista Grace (Riley Keough) demora a se revelar, propositadamente. Ela é capturada de costas ou através de vidros esfumaçados. Essa escolha é interessante porque nos guia a criar uma imagem dela pelo olhar e impressão de outras pessoas. A julgamos previamente, não apenas por seu passado mas por ela ser a representação daquilo que, teoricamente, destruiu uma família. Grace está noiva de Richard, cujo os dois filhos pequenos, Aidan e Mia acabaram de perder a mãe que se suicidou. Ainda abalados pela perda, os dois são obrigados a se aproximar da nova madrasta no feriado de Natal, dentro de um chalé em uma região remota e afastada. O filme, então, nos leva a enfrentar esta desconfortável relação entre os três. A tensão piora quando estranhos eventos passam a acontecer ali, levando à protagonista a questionar sua fé e reviver as escolhas de seu passado.

Veronika Franz e Severin Fiala entregam sequências visualmente bem interessantes, capturando seus ambientes por planos bem abertos e até mesmo vertiginosos, construindo uma atmosfera de tensão e constante desconforto. É ainda curioso o uso da casa de bonecas, que recria com perfeição o chalé e nos leva a este sentido dúbio sobre o que é invenção, manipulação ou reconstrução da realidade. Quando o roteiro entrega sua primeira reviravolta, ele bifurca suas interpretações e passamos a questionar o que, de fato, está acontecendo ali. Até que ponto aquilo é real ou alucinação. Os roteiristas apostam em nossas lembranças, até mesmo de outros filmes, para criar um jogo audacioso e um tanto quanto divertido. Eles nos enganam porque sabem onde já fomos enganados outras vezes. Com fortes referências à obra clássica de Henry James, “A Volta do Parafuso” – que serviu de base à muito do que conhecemos no terror dentro do cinema – somos manipulados a enxergar algo através desses símbolos que eles usam, inclusive o próprio nome da protagonista, Grace, logo nos remete à personagem de Nicole Kidman em “Os Outros”, talvez a mais memorável adaptação do conto e que muito se assemelha aos acontecimentos daqui. O grande brilhantismo vem quando ele quebra essa nossa previsão e entrega algo mais palpável, surpreendente e ainda assim, assustador.

A expressão “a volta do parafuso” diz muito sobre o filme também. Ainda que em português não faça muito sentido, o termo é uma metáfora para aquilo que está ruim e pressionamos para ficar pior. As crianças aqui usam da fraqueza de Grace para construir um jogo perverso, a levando a enfrentar seus próprios fantasmas, se afundando dentro de si. O terror psicológico vem justamente dessa mente desestabilizada dela e desta relação que tem com a fé, deste pavor que sente diante dos símbolos religiosos que repreendem seus pecados. Esta perigosa oscilação da personagem é muito bem representada pela atriz Riley Keough, que entrega um de seus melhores momentos no cinema até agora. O filme, no entanto, perde um pouco pela pressa de se revelar, não nos permitindo aproveitar dessa tensão que se constrói e de suas próprias reviravoltas. O final, aliás, é bastante caótico e não explora todo o potencial que tinha, entregando suas revelações de forma fria, longe do climax que poderia alcançar. Sinto falta de conhecer um pouco mais sobre as crianças e entender melhor as motivações delas também. O longa carece ainda de originalidade, desde sua trilha sonora com ruídos à condução dos diretores, tudo nos remete à um cinema ainda muito recente como “Hereditário”, “O Sacrifício do Cervo Sagrado” e outras obras mais potentes do terror moderno.

Apesar das falhas, “The Lodge” funciona e nos deixa bastante atordoados ao fim, tentando digerir tudo o que nos foi mostrado. Pode não ter o mesmo impacto que outros filmes do gênero, mas merece ser descoberto.

NOTA: 7,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2019
    Duração: 100 minutos
    Título original: The Lodge
    Distribuidor: –
    Diretor: Severin Fiala, Veronika Franz
    Roteiro: Severin Fiala, Veronika Franz
    Elenco: Riley Keough, Jaeden Martell, Lia McHugh, Richard Armitage, Alicia Silverstone