Um filme de contrastes

Apesar da curiosidade que eu estava por ver o retorno da diretora Rose Glass, depois de seu belo debute em “Saint Maud” (2019), eu posso afirmar que este seu novo trabalho supera qualquer expectativa. E nada poderia me preparar para a insanidade que é este filme. Com uma ambientação fascinante dos anos 80, “Love Lies Bleeding” é um thriller incomum. Traz uma história queer que envolve paixão, crime e vingança. É também uma obra visceral, que afronta e escapa de qualquer obviedade.

Kristen Stewart interpreta Lou, uma gerente de academia de uma pequena cidade. Sua rotina é abalada com a chegada de Jackie, uma fisiculturista que passa a treinar em seu espaço antes de um esperado concurso. O romance das duas, porém, logo se transforma quando, por um ato de fúria, elas se veem presas em um esquema perigoso de chantagens, perseguições, mistérios e muito sangue.

O western moderno ganha cores vibrantes nas mãos de Rose Glass. Há algo do tech noir de Nicolas Winding Refn também, além de “Thelma e Louise” e a corajosa fuga de duas mulheres contra todo um sistema que favorece abuso, controle e violência. O roteiro subverte estereótipos e coloca, o tempo todo, Jackie e Lou em lugares que o próprio cinema normalizou como sendo espaços masculinos. A forma, inclusive, com que o filme revela o corpo de Jackie, seus músculos e sua força, é também uma contestação. Lou, por sua vez, soa frágil de início, inadequada. Ao decorrer, por vezes até de improviso, ela precisa se desabrochar, a encarar sem medo toda a realidade cruel e impune que a cerca.

Love Lies Bleeding é também um nome dado à planta Amaranto, que representa a imortalidade. A planta que se regenera, não murcha. Existe um certo misticismo que recai sobre a figura de Jackie e que leva o longa para caminhos um tanto quanto inesperados. A fantasia e o bizarro vai ganhando forma, confrontando a realidade crua que vive as personagens. É assim que Rose Glass desenha seu filme todo sobre contrastes, seja da força e fragilidade, da coragem e fraqueza, seja do real e do absurdo. Seja também de todos os gêneros que a cineasta consegue desenvolver tão bem dentro de sua obra, onde todos eles coexistem e crescem juntos. Ela consegue, por exemplo, sair do thriller e cair na comédia de maneira sublime. Tudo é possível aqui e o texto não tem medo algum do improvável.

Com ótimas atuações de Kristen Stewart, Katy O’Brian e de um assustador Ed Harris, “Love Lies Bleeding” é um espetáculo inesperadamente saboroso, empolgante e original. Um filme que provoca e subverte, inclusive, a sexualização dos corpos femininos em obras queer. É, também, aquele tipo de produto que vai crescendo. Está sempre saindo do lugar, sempre alcançando lugares mais altos (e muito, muito insanos).

NOTA: 9,0

País de origem: EUA, Reino Unido, Irlanda do Norte
Ano: 2024
Duração: 104 minutos
Diretor: Rose Glass
Roteiro: Rose Glass, Weronika Tofilska
Elenco: Kristen Stewart, Katy O’Brian, Ed Harris, Jena Malone, Anna Baryshnikov, Dave Franco

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