Crítica: A Nuvem Rosa

A vida fria do lado de dentro

Um dos raros títulos nacionais que passaram pelo renomado Festival de Sundance, “A Nuvem Rosa” chega por aqui com lançamento exclusivo do Telecine Play. A produção descreve muito do que vivemos hoje com a pandemia, mas o que a torna tão fascinante é o fato de ter sido finalizada antes da COVID. É bizarro assistir ao filme e ver tanta coisa relacionada com nossa atual realidade. É profético ao falar sobre o comportamento humano diante de uma quarentena.

Uma nuvem rosa mortal surge aos céus, obrigando todos os cidadãos a se trancarem onde quer que estejam. É assim que Giovana (Renata de Lélis) é obrigada a ficar isolada na casa de Yago (Eduardo Mendonca), seu acompanhante da noite anterior. Eles são forçados a construir uma relação ali dentro, se adaptando à nova realidade, distante de todos que amam, distante da vida que conheciam.

Escrito e dirigido pela estreante Iuli Gerbase, o longa não está interessado nas explicações do evento e nem como o mundo lá fora reage à presença da nuvem. Seu foco está nesse casal precisando lidar com o isolamento, espantando com as desconfortáveis similaridades com o que enfrentamos hoje. Essa necessidade de buscar novos meios de trabalho, estudo, comunicação e até mesmo uma simples compra ao mercado. Trazendo, ainda, ideias interessantíssimas como o uso do óculos de realidade aumentada e os tubos conectados aos apartamentos para entrega de produtos. Gerbase traz uma visão ampla desses novos comportamentos e transformações sociais, entregando um produto incômodo e pessimista. O rosa, claro, está sempre presente. E a produção faz bom proveito disso, entregando cenas visualmente belas.

Entretanto, para um filme que diz sobre solidão e essa carência do contato, “A Nuvem Rosa” vem em um formato muito mecânico. Não traz naturalidade na presença do casal, que conversam diante de um bom texto ensaiado, mas sempre ausente de sentimento. Os saltos temporais avançam a narrativa e ilustram bem esse tempo que passa e nós estagnados no mesmo espaço, dias após dias. Ainda que tenha uma intenção aqui, esses avanços nos afastam ainda mais dos personagens, sempre muito distantes, sem alma. Existe, claro, uma identificação fácil diante das situações em que narra, no entanto, falta uma direção mais segura quanto ao elenco.

O filme pincela inúmeros temas interessantes, mas não se aprofunda muito em nenhum deles. Como quando joga a bomba que as amigas da irmã estão grávidas do homem do qual estão confinadas e depois nunca mais temos notícias sobre isso. É tudo, infelizmente, muito expositivo, calculado e essas informações nunca chegam de forma fluída pelo texto. Seja quando fala sobre redes sociais, o papel da mulher, a infância na quarentena, tudo é muito bem pontuado, mas chega sem a destreza de um texto que torne todos esses debates mais orgânicos na tela.

“A Nuvem Rosa” termina e nos deixa em silêncio. Essa falta de perspectiva diante de um cenário desolador com esse nos inunda. O filme nos lembra desse desespero que internalizamos de querer a liberdade. De sofrer com as nossas próprias noias, de ter que ainda encarar pessoas vivendo uma realidade paralela à nossa, plenas nesse movimento de “está tudo bem” e “temos muito o que aprender com a quarentena”. A obra espanta por esse fator profético, por sintetizar muito bem o que enfrentamos antes mesmo da pandemia acontecer. E apesar das falhas e por ser imensamente tedioso, é inegável que ele causa um grande impacto em nós.

NOTA: 7,0

País de origem: Brasil
Ano: 2021
Disponível: Telecine Play
Duração: 105 minutos
Diretor: Iuli Gerbase
Roteiro: Iuli Gerbase
Elenco: Renata de Lélis, Eduardo Mendonca

Crítica: Amizade Adolescente

A geração que cansou de tentar

Um dos filmes que eu mais curti ano passado foi “A Arte de Ser Adulto”, estrelado por Pete Davidson, obra que traça um interessante paralelo com esse “Amizade Adolescente”, protagonizado pelo mesmo ator. Ele, novamente, personifica esse jovem adulto sem perspectivas sobre o futuro, estagnado no vazio que construiu para si. Também narrado com muito humor, o longa é agridoce ao olhar para a juventude com doçura, mas sem apagar esse sentimento triste que permeia por toda a obra.

Mo (Griffin Gluck) é um jovem de 16 anos que, em uma fase de amadurecimento e de tentar encontrar seu lugar no mundo, passa a seguir os exemplos de Zeke (Davidson), oito anos mais velho, pois o enxerga como um cara descolado, mesmo que ele seja apenas irresponsável e autodestrutivo. O filme nos leva a conhecer essa divertida conexão que nasce entre os dois, que vindos de universos tão distantes, se entendem.

O grande lance de “Amizade Adolelescente” é dessa união que nasce de uma necessidade de “fazer parte”. Enquanto Mo se sente descolado por andar com os mais velhos e ter experiências que os outros de sua idade não possuem, Zeke encontra nesta parceria uma chance de reviver seus anos de glória, enquanto era alguém pelos corredores de uma escola, mas que foi diminuído pelo mundo real. Mo é a última pessoa a achá-lo especial e ele abraça isso. São duas linhas que caminham paralelas mas que uma hora ou outra precisam se romper. Esta é a beleza da obra. O protagonista parece sugar todo o aprendizado naquela agitação proporcionada por seu mentor, buscando uma identidade que não é sua. Ele o vê como um Deus e essa idealização vai sendo gradativamente destruída assim que vai atingindo maturidade e coragem de seguir o próprio caminho. A última cena sintetiza brilhantemente tudo isso. São duas gerações diferentes, uma que quer abraçar as oportunidades e a outra que cansou de tentar.

Estreia na direção e roteiro de Jason Orley, ele entrega um filme sutilmente sentimental e incrivelmente adorável de se assistir. A trama flui de forma prazerosa e convidativa, entregando humor, mas sem diminuir o peso de sua bela trama e dessas reflexões que nos deixa.

NOTA: 8,5

País de origem: EUA
Ano: 2019

Título original: Big Time Adolescence
Disponível: Telecine Play
Duração: 90 minutos
Diretor: Jason Orley
Roteiro: Jason Orley
Elenco: Pete Davidson, Griffin Gluck
, Sydney Sweeney, Oona Laurence

Crítica: Mulheres ao Poder

Grande história, pequeno filme

Nem sempre uma história incrível resulta em um grande filme. “Mulheres ao Poder” traz uma trama fantástica inspirada em eventos reais e, infelizmente, acaba entregando um produto morno, pequeno demais diante do riquíssimo material que tem em mãos.

A obra narra um passo importante na luta feminista, quando ativistas do Movimento de Liberação das Mulheres protestaram contra o concurso de Miss Universo nos anos 70. Em uma época em que elas não tinham (ainda menos) voz, se uniram para questionar essa objetificação do corpo feminino como entretenimento. O grande conflito aqui, porém, nasce quando o longa oferece um outro lado dessa mesma história, quando a primeira mulher negra estava prestes a vencer esse mesmo concurso.

Infelizmente, o roteiro jamais consegue fazer bom proveito dessa dualidade. Existe espaço para tantas discussões relevantes, mas o texto, tão quadrado e sem coragem, não ousa expor nada além daquele discurso feminista de cartilha que a gente tanto vê. Quando uma mulher preta alcança um espaço que tantas vezes lhe foi negado, ela inspira crianças como ela, mostra que é possível chegar lá. A luta que as ativistas pregam é válida, mas ela não abraça o coletivo quando usam como base suas vivências individuais, que não olham os grupos minoritários. É ainda muito interessante a rápida conversa que a líder das ativistas, vivida por Keira Knightley, questiona as escolhas da própria mãe, tão submissa na vida doméstica. Seu ponto tem fundamento, mas ela jamais teria os privilégios que tem sem os sacrifícios daquela que a criou. São pontos delicados e que mostram as tantas camadas que a luta feminista tem, mas quando opta por não se aprofundar em nada, esses ótimos debates morrem.

Na intenção de contar diversos fatos, o roteiro acelera o passo, pincela sem muito cuidado essas tantas questões e termina sem nunca valorizar a grandeza da história e dessas grandes mulheres que a protagonizaram. Seja a força do movimento ou o glamour do concurso. Nada traz impacto, envolve ou traz sequer um sinal de honestidade. A direção de Philippa Lowthorpe é pouco inspirada, salvando apenas o momento em que ela revela as pessoas reais por trás dos eventos narrados. A sorte da produção é ter um forte elenco que segura o nosso interesse, com destaque para Gugu MBatha-Raw, Jessie Buckley e a surpreendente presença de Greg Kinnear.

NOTA: 6,5

  • País de origem: Reino Unido, Irlanda do Norte
    Ano: 2020
    Título original: Misbehaviour
    Disponível: Telecine Play
    Duração: 106 minutos
    Diretor: Philippa Lowthorpe
    Roteiro: Rebecca Frayn, Gaby Chiappe
    Elenco: Keira Knightley, Jessie Buckley, Gugu Mbatha-Raw, Rhys Ifans, Greg Kinnear, Lesley Manville, Emma Corrin

Crítica: A Jornada

A vida que existe em nossa ausência

“A Jornada” traz uma perspectiva bastante nova sobre viagem espacial e foi isso que me deixou imensamente fascinado durante seus belos minutos. Dirigido por Alice Winocour, o longa mostra os preparativos de uma missão de maneira crua, realista, distante do glamour hollywoodiano que conhecemos. É incrível acompanhar a rotina dos profissionais, ver os equipamentos, os ambientes que frequentam, os sons, sem a necessidade de efeitos visuais ou aquela visão antiquada do herói. A diretora revela sua trama por um olhar intimista através de sua forte protagonista, defendida pela ótima Eva Green.

A trama foca em Sarah, uma astronauta que precisa deixar sua filha pequena para realizar uma viagem espacial. O roteiro explora muito bem esse momento de decisão e rompimento, desta mãe precisando se desconectar daquilo que é uma extensão sua. É poderoso como é mostrado esse vínculo entre mãe e filha. Existe uma força gigante e indescritível que conecta as duas. A cena em que elas conversam através de uma parede de vidro é fantástica e sintetiza bem essa ideia. O longa revela, ainda, o machismo existente na profissão e como ela, além de ter que lidar com muito mais pressão, é sempre vista como a mulher que abandona enquanto os homens apenas estão vivendo o grande sonho.

É uma jornada solitária, de sentimentos que somente a protagonista pode entender. Uma viagem arriscada, o que resulta em uma sensação de despedida de tudo aquilo que conhece. De se entregar a dor de descobrir que as pessoas que ficam podem muito bem viver sem ela.

NOTA: 9

  • País de origem: Alemanha, França
    Ano: 2019
    Título Original: Proxima
    Disponível: Telecine Play
    Duração: 107 minutos
    Diretor: Alice Winocour
    Roteiro: Alice Winocour, Jean-Stéphane Bron
    Elenco: Eva Green, Matt Dillon, Sandra Hüller, Aleksey Fateev

A Arte da Autodefesa

Esse filme poderia muito bem se chamar “O Grito da Masculinidade”, isso porque, no meio de sua trama absurda, é possível fazer um paralelo aos encontros motivacionais liderados por coachs que libertam a força e garra existente no macho alfa. “A Arte da Altodefesa” revela, através de seu humor negro, as consequências de se viver cercado por um ambiente masculino tóxico.

Jesse Eisenberg dá vida à Casey, um homem inseguro que decide entrar para um grupo de karatê depois que é agredido na rua por um estranho. Decidido a não sofrer mais esse tipo de humilhação, ele ganha gosto pelas artes marciais, passando a seguir os passos de um misterioso e carismático sensei. A relação entre os dois personagens ganham traços bastante complexos e seus desdobramentos bizarros, tornam a trama um tanto quanto fascinante, divertida sim mas altamente assombrosa.

“A Arte da Autodefesa” é um retrato triste deste homem que tenta recuperar sua dignidade e nesta sua busca acaba por ser forçado a gostar de “coisas masculinas”, a ser másculo, a não ter medo. Ele usa da violência para descontar suas tantas frustrações, se tornando aquilo que o intimida, aquilo que ele tanto odiava. O nascimento do ódio e a base cíclica de nossa sociedade.

Uma produção simples, mas incrivelmente eficiente. Destaque para a excelente e hipnotizante presença de Alessandro Nivola.

NOTA: 8

  • País de origem: EUA
    Ano: 2019
    Título original: The Art of Selfdefense
    Disponível: Telecine Play
    Direção: Riley Stearns
    Elenco: Jesse Eisenberg, Imogen Poots, Alessandro Nivola

Crítica: Gabriel e a Montanha

“Gabriel e a Montanha” é um filme especial. Daqueles que se visto no momento certo da vida, pode ter um significado ainda mais profundo. É assim que me encontro com esta obra que, mais do que contar uma trágica história real, faz um belo tributo a alma deste jovem chamado Gabriel que, aos 28 anos de idade, morreu nas altas montanhas no Malaui, enquanto fazia sua viagem de descobertas pela África, apenas 10 dias antes de retornar ao Brasil.

O estudante fazia sua jornada de forma sustentável, gastando pouco e buscando abrigo com estranhos, se permitindo conhecer de perto a cultura e história do povo africano. O diretor Fellipe Barbosa era amigo de Gabriel e realiza aqui um trabalho bastante pessoal. Há uma beleza indescritível que permeia por toda a obra e uma honestidade que torna tudo ainda mais intenso, mais doloroso. Ao visitar os locais e pessoas reais, o filme nos atinge e espanta pela qualidade e brilhantismo com o qual domina essa linha tênue entre ficção e documentário.

O longa evita o caminho mais fácil e não desenha Gabriel como herói ou uma santidade. Ele era humano, cheio de falhas e é fantástico como o roteiro não ignora seus privilégios. O ator João Pedro Zappa é gigante, traz força e uma espontaneidade adorável à seu personagem. Acreditamos em sua bondade, em sua paixão e em suas fragilidades. Existe poesia em cada minuto deste filme, que mergulha de coração nesta jornada solitária e libertadora. Um filme imenso, inundado de sentimento e verdade. Sem dúvidas, uma das produções nacionais mais incríveis que tive a chance de conhecer nos últimos anos.

NOTA: 9

  • Duração: 131 minutos
    Disponível: Telecine Play
    Direção: Fellipe Barbosa
    Elenco: João Pedro Zappa, Caroline Abras

Crítica: Cats

Desastre anunciado

Grande sucesso no teatro, é até estranho pensar o porquê “Cats” demorou tanto para ganhar uma adaptação ao cinema. Lançado na década de 80, o premiado musical conta a história de uma tribo de gatos, os Jellicle Cats, que todo ano precisa realizar uma performance para o líder que dará ao vencedor a entrada para o Paraíso e a chance de uma vida melhor.

Com direção de Tom Hooper (Os Miseráveis), o longa recebeu uma enxurrada de críticas negativas em seu lançamento, principalmente devido ao seu visual. De fato, o resultado de “Cats” é bem desastroso, chegando a ser triste ver um produto com tamanho potencial, receber tal tratamento na tela grande. Os efeitos especiais são bizarros, causando estranhamento pela proporção dos elementos de cena – que ora são grandes demais, ora são pequenos demais – e principalmente pela opção de misturar os traços dos gatos com os dos atores. É tudo involuntariamente assustador, tirando o brilho das apresentações e, infelizmente, de todo o elenco.

Os mais prejudicados, com certeza, foram Jennifer Hudson, que apesar de impressionar pela potente voz, é ofuscada pelo visual e Idris Elba que precisa se esforçar para dar vida para um projeto mal feito de vilão. Rebel Wilson, por sua vez, precisa encarar o pior momento do filme, em um número musical assombroso envolvendo ratos e baratas. O roteiro jamais ajuda, onde tudo é narrado com pressa e um péssimo desenvolvimento. Nenhum personagem parece ter alguma importância, onde todos surgem como um mero adereço de luxo, sem meio e fim, o que enfraquece nosso envolvimento com a trama e com esta mísera trajetória de todos eles.

Nem tudo, aliás, é um desastre. Vale citar a bela performance dos atores novatos e bailarinos aqui, como Francesca Hayward, Robert Fairchild e Steven McRae, que realiza o mais belo instante de “Cats” com o sapateado do gato da estação de trem. Há, ainda, alguns bons respiros como as empolgantes apresentações de “Jellicle Song For Jellicle Cats” e “Mr. Mistoffelees“. Existe boas intenções e isso é nítido em diversos momentos. Mesmo que tudo tenha dado errado, sei que existe uma equipe talentosa por trás de tudo isso que, talvez, vítima de uma produção apressada e gananciosa, foi impedida de realizar algo melhor finalizado.

NOTA: 5

  • Duração: 110 minutos
    Disponível: Telecine Play
    Roteiro: Tom Hooper, Lee Hall
    Direção: Tom Hooper
    Elenco: Francesca Hayward, Robert Fairchild, Jennifer Hudson, Laurie Davidson, Idris Elba, Judi Dench, Ian McKellen, James Corden, Rabel Wilson, Jason Derulo, Taylor Swift