Crítica: Observadores

O fascínio pela realidade dos outros

Intrigante esse suspense à la Super Cine do Prime Video. Parte porque nos seduz para dentro de seu bom suspense, parte porque derrapa tanto ao final que ficamos nos perguntando quando foi que decidiram jogar a merda no ventilador. O filme vai muito que bem até seus instantes finais, quando o roteiro opta por reviravoltas bizarras e desfaz todo aquele bom envolvimento que tinha nos causado até então. É uma pena porque claramente existia um baita potencial aqui.

Observar a vida alheia dos vizinhos não é novidade no cinema. Hitchcock foi mestre em “Janela Indiscreta” e a sétima arte nunca perdeu o fascínio por essa situação. De certa forma, o próprio cinema é um ato de voyeurismo, de assistir de longe uma vida que não é nossa, de querer entender, fazer parte daquilo que não nos pertence. É assim que se torna tão fácil compreender as motivações da protagonista de “Observadores”. Pippa (Sydney Sweeney) acabou de se mudar para um apartamento junto com seu recente marido, Tom (Justice Smith). Existe uma certa ingenuidade na forma como eles se interagem, é então que notam a possibilidade de assistir, através da janela, a vida de casados dos vizinhos, que soa muito mais interessante que a realidade que eles vivem. É um casal fogoso e logo uma narrativa de traição e mistério suga toda a atenção da jovem observadora.

“A grama do vizinho é sempre mais verde”. É curioso como a vida de Pippa vai perdendo cada vez mais sentido, quanto mais ela observa a dos outros. A paixão do vizinho é mais ardente, o sexo, as conquistas, os conflitos. Ela vai perdendo a si mesma e se preenchendo com tudo aquilo que consome. Existe uma relação fascinante aqui com o nosso envolvimento nas redes sociais e como dedicamos horas de nosso dia assistindo essa versão filtrada e repleta de sucesso da vida alheia. Um recorte encenado, bem enquadrado e irreal. A comparação com nós mesmos, porém, é inevitável e logo nos vemos diminuídos pela grandeza do outro.

Ainda que traga boas reflexões, o filme se prolonga mais do que devia, abrindo espaço para reviravoltas forçadas e inverossímeis. Tudo caminhava bem até sua meia hora final, surpreendendo pelas saídas absurdamente tolas que decide seguir. Não convence e é de um mal gosto extremo. A atriz Sydney Sweeney está à vontade aqui e entrega uma performance provocativa. Mesmo assim, tanto sua escalação como a de Justice soam equivocadas pelo background dos personagens que nitidamente são “mais vividos”.

Dirigido por Michael Mohan, “Observadores” é um filme sexy e abraça esse thriller erótico sem culpa. A produção tem seu charme e assim como os protagonistas, assistimos tudo com tesão e atenção. Apesar de se perder completamente ao decorrer, confesso que achei a sessão divertida, brega e um tanto quanto audaciosa. É uma pena que erre tanto em sua conclusão, porque aí é um caminho sem volta e esses pontos perdidos não se recuperam mais.

NOTA: 6,5

País de origem: EUA
Ano: 202
1
Título original: The Voyeurs
Duração: 116 minutos

Disponível: Prime Video
Diretor: Michael Mohan
Roteiro: Michael Mohan
Elenco: Sydney Sweeney, Ben Hardy, Natasha Liu Bordizzo, Justice Smith

Crítica: The White Lotus

Os comedores de lótus

Quando uma produção é lançada sem alarde e, aos poucos, ganha sucesso pelo o boca a boca, algo de muito incrível tem ali. Às vezes é puro hype, outras, é o nascimento de algo original, digno da atenção da recebe. “The White Lotus” é, de fato, uma das séries mais brilhantes do ano. É uma sátira sagaz ao privilégio branco e há genialidade em cada pequeno detalhe que nos entrega.

Toda a ação acontece em um paradisíaco resort hotel no Havaí. A trama se concentra nas relações de um grupo de visitantes ao local e nos percalços que esses ricos surtados enfrentam por ali. A escolha do elenco é certeira e facilmente nos envolvemos com esses excêntricos personagens. A grande verdade é que todos ali estão em sintonia e todos revelam uma faceta que desconhecíamos. Seja dos jovens que passamos a ver com mais respeito como Sydney Sweeney, Alexandra Daddario e Fred Hechinger, como os mais experientes que renascem em cena. Murray Bartlett, Steve Zahn, Jennifer Coolidge e Connie Britton estão impecáveis. É muito bom ver um show onde nenhuma dessas peças estão fora do lugar e todos embarcam na bizarrice das situações apresentadas.

“The White Lotus” firma Mike White com um roteirista a se prestar mais atenção. Seu texto é fascinante, guiando o show com ritmo e uma originalidade que encanta. Tudo nos causa um desconforto, um riso nervoso, mas ao mesmo tempo nos deixa imensamente hipnotizados por seu sedutor universo. A trilha sonora composta por Cristobal Tapia de Veer, com seus sons tribais, invade nossa mente e nos faz sentir tão surtados quanto seus personagens. A trama caminha como se algo fosse explodir a qualquer instante, nos deixando vidrados por seus imprevisíveis desdobramentos.

Insanamente divertido, o roteiro provoca nessa sátira pungente ao privilégio branco e aos homens héteros castrados pela cultura do cancelamento. Os diálogos são geniais e nos deixam constrangidos ao dar voz à esta elite que hoje se sente tão excluída e por tudo o de mais bizarro que sai de suas mentes. São indivíduos que se sentem injustiçados pelos erros históricos dos brancos, incomodados por essa nova recentralização. “The White Lotus” faz rir na mesma medida que incomoda, assusta porque é desconfortavelmente atual.

Esses hóspedes afortunados são os lotófogos, os comedores de lótus. Na mitologia grega, ao digerirem a flor se colocam em estado alterado, distantes dos problemas reais do mundo. Mas esses lótus não são deles, eles se apropriaram. E não é roubo se você sente que já é seu. Se toda sua vida lhe ensinaram que é seu. Todas as portas estiveram abertas, nada lhe foi negado. Por mais distintos que sejam ali na tela, todos fazem parte de uma mesma tribo. Confortáveis demais em suas posições privilegiadas e fragilizados por essa nova hierarquia que emerge.

Existe inteligência nas entrelinhas de “The White Lotus” é reflexões que ficam muito tempo depois que a minissérie termina. É um espetáculo de ver e eu, com toda a certeza, teria mais fôlego para devorar muito mais do que só 6 episódios.

NOTA: 9,5

País de origem: EUA
Ano: 2021

Disponível: HBO Max
Duração: 358 minutos / 6 episódios
Diretor: Mike White
Roteiro: Mike White
Elenco: Murray Bartlett, Alexandra Daddario, Jake Lacy, Jennifer Coolidge, Steve Zhan, Connie Britton, Sydney Sweeney, Fred Hechinger, Molly Shannon