Crítica: Matthias e Maxime

Depois do beijo

Xavier Dolan é um cineasta de excessos. Suas produções são repletas de exageros e maneirismos, o que fez com que até mesmo os críticos que tanto apostaram em sua carreira acabaram se cansando de suas invenções. Ele lança “Matthias e Maxime” logo após seu produto mais esculachado, “A Minha Vida Com John F.Donovan”, ter sido esquecido no churrasco mesmo com um grande elenco hollywoodiano em mãos. É um retorno bem-vindo à suas origens, à simplicidade, quase como um respiro necessário, finalmente livre de pretensões.

O filme se inicia com uma premissa tola, digna de uma fanfic gay adolescente. Dois amigos héteros de infância, Matthias (Gabriel D’Almeida Freitas) e Maxime (Dolan), se reúnem com outros amigos para um divertido fim de semana regado a muitas bebidas e drogas. O que era para ser um instante de descontração, acaba transformando a relação entre os dois. Isso porque no meio do grupo surge uma estudante de cinema que precisa finalizar seu curta-metragem experimental e precisa de dois homens em cena se beijando. Depois de uma aposta perdida, são os dois amigos que precisam enfrentar isso. No entanto, o beijo faz com que se questionem sobre o que realmente sentem um pelo o outro, despertando ali um desejo jamais explorado.

Apesar do início questionável, o que vem a seguir é que dá o tom da obra e as intenções de Dolan são finalmente reveladas. O beijo acaba instaurando na mente dos protagonista uma dúvida inquietante, confrontando suas existências. Confrontando o que eles achavam saber sobre eles mesmos. No começo, percebemos que há uma cumplicidade e sintonia muito grande entre eles e é nítido que existe espaço para um romance ali, mesmo que eles evitem enxergar isso. É muito interessante o que vem a seguir, dos dois se negando a ver o que é tão perceptível, por medo, pelo desconforto de trair seus ideais tão bem estruturados até ali. Por receio de não mais se encaixar no padrão de uma sociedade tão consolidada. Neste sentido, é angustiante vê-los se afastando. É muito forte as cenas em que eles, reunidos, não cruzam mais os olhares. Evitam se falar, evitam se tocar. O filme, então, vai criando um abismo entre os dois, um espaço doloroso que poderia ser preenchido por amor, mas nunca é.

É curioso a escolha de Dolan por não nos permitir ver o tal beijo. Existe um universo inteiro ali naquele momento e somos privados de compartilhar. Gosto desta saída porque é como se aqueles instante, tão particular, na verdade, pertencesse somente à eles. Vemos o que dele resulta, que sentimento desperta, mas não o ato em si. Existe poesia em “Matthias e Maxime” que se revela nessas saída sutis. Como quando a natureza surge para ilustrar o estado de seus protagonistas. Assim que Matthias dá o beijo, ele se perde em um extenso mar. Mergulha como se fugisse de tudo aquilo, perdido na solidão daquele local. Já mais perto do final, quando os dois, enfim, se beijam realmente, surge o imenso barulho de chuva e trovão, dando som à excitação dos dois diante de algo tão novo e tão bom, tão completo.

O filme registra um instante de mudança da vida de Maxime. Neste instante de despedida, logo que ele está indo morar em outro local, vem a necessidade de transformação, de preencher aquilo que antes era vazio. Em uma das primeiras cenas, ele avista uma propaganda de margarina, que estampa a família tradicional perfeita. Maxime, desde o começo, se mostra descontente com este padrão, dentro de si busca por uma alternativa, não há espaço para ele neste universo “ideal”. Maxime finalmente se encontra em Matthias e é belo esta percepção dos dois. De se entregar a alguém que faça parte de seu mundo. Este é o filme mais introspectivo de Xavier Dolan, que ao longo de sua carreira, sempre deu voz ao amor em todas as suas possíveis formas. “Matthias e Maxime” pode até ser um trabalho menor e mais simples em sua filmografia, mas é, com certeza, mais um grande acerto. Um respiro necessário à sua carreira, repleto de poesia, honestidade e sensibilidade.

NOTA: 8

  • País de origem: Canadá
    Ano: 2019
    Duração: 129 minutos
    Título original: Matthias et Maxime
    Distribuidor: Mubi
    Diretor: Xavier Dolan
    Roteiro: Xavier Dolan
    Elenco: Xavier Dolan
    , Gabriel D’Almeida Freitas, Anne Dorval