Crítica: A Despedida

Deixar levar

Remake do dinamarquês “Coração Mudo” de 2014, “A Despedida” conta com o mesmo roteirista do original, Christian Torpe. Trata-se de uma narrativa comum, mas guiada com um imenso cuidado. Aqui, a matriarca Lily, interpretada pela hipnotizante Susan Sarandon, decide reunir sua família desestruturada para se despedir. Isso porque ela sofre de uma doença degenerativa e acredita que a melhor alternativa seja anteceder seu fim.

Um drama familiar dos bons, que coloca esses personagens se confrontando dentro de um único cenário: uma casa isolada na praia, sem qualquer interferência do mundo externo. É um reencontro de pessoas desajustadas que nitidamente se evitam, mas ao mesmo tempo se fortalecem, precisam uma da outra. O texto é bastante dinâmico ao narrar essas relações e emociona ao falar sobre despedidas, sobre o iminente fim. Comove na simplicidade, sem exagerar na dramaticidade da situação. A sequência onde a mãe distribui presentes para cada um em uma mesa de jantar já é um dos meus momentos favoritos do ano. Uma troca de afeto, lembranças e agradecimento pela existência de cada um. Existe uma história inteira que não tivemos acesso ali , mas sentimos diante da ternura expressa em cada ator. É lindo.

É assim que o diretor Roger Michell, de Um Lugar Chamado Notting Hill, consegue extrair o melhor de todo o elenco. Aliás, os homens aqui surgem como suporte, como apoio emocional dessa jornada enfrentada pelas mulheres. Sarandon, Kate Winslet e as subestimadas Mia Wasikowska e Lindsay Duncan brilham. Roger entrega, ainda, cenas delicadamente organizadas, simétricas, ilustrando esse controle da protagonista, seu plano orquestrado e até mesmo esse teatro dos familiares, mantendo uma pose e sorriso que nem sempre é o que existe por dentro.

Um dos instantes mais comoventes é quando Lily conversa com seu neto e ele diz sobre seus planos futuros. Ela se sente privilegiada por saber antes de todos e dor por não poder presenciar sua evolução. Dor, porque para todo seu legado, nada pode deixar. A vida, ao fim, diferente do que alguns filmes tentam nos ensinar, talvez não tenha nenhuma lição valiosa, um padrão de sucesso que precisa ser repassado para aqueles que ficam. A vida é um jogo de improviso. A morte é a única certeza, o resto é deixar levar, seguir como a música toca.

NOTA: 8,5

País de origem: EUA, Reino Unido
Ano: 2019

Título original: Blackbird
Disponível: Paramount +, NET Now
Duração: 97 minutos
Diretor: Roger Michell
Roteiro: Christian Torpe
Elenco: Susan Sarandon, Kate Winslet, Mia Wasikowska, Sam Neill, Rainn Wilson, Lindsay Duncan

Crítica: Ammonite

Paixão silenciosa

Retorno do diretor Francis Lee, depois de sua ótima estreia em 2017 com o filme “God ‘s Own Country”. Aqui ele volta a fazer um romance bastante íntimo, onde seus personagens vivem em um universo gélido e grosseiro. Existem muitas semelhanças entre as duas obras, mantendo o cineasta em uma área de conforto, sem cometer grandes riscos.

“Ammonite” conta com uma atuação incrível de Kate Winslet e ela, com certeza, é o que há de melhor aqui. Ela interpreta a paleontóloga Mary Anning, que faz importantes descobertas científicas de fósseis de amonite, no Reino Unido do século 18. Ela vive reclusa ao lado de sua mãe e não recebe o devido reconhecimento profissional. Sua vida ganha uma nova possibilidade com a chegada de uma jovem casada (Saoirse Ronan) e que se recupera de um grande trauma. São duas mulheres introspectivas, que ao longo de poucas semanas, vão desvendando essa paixão que nasce entre elas.

Frances Lee captura os detalhes de cada ação. Acompanhamos, de perto, as curvas dos corpos, os gestos, os ricos objetos de cena. Ele constrói esse universo fechado, íntimo, que aos poucos se abre com a chegada de uma nova pessoa. “Ammonite” é um filme silencioso, que diz mais nos olhares que nos próprios diálogos.

Apesar do cineasta estabelecer bem esse universo, falta alma ao filme. Falta sentimento. Não existe química alguma entre as duas atrizes e isso quebra a magia do romance que jamais atravessa a tela. É tudo tão frio e distante, que ele nos deixa apenas como espectadores de uma história que nunca nos atinge. Saoirse Ronan que, mesmo sendo a atriz mais completa de sua geração, parece desconfortável, sem entender essa personagem que some em cena. Ao menos, o belo visual compensa nossa contemplação. As cenas são lindas, auxiliadas pela sempre competente trilha de Dustin O’Halloran.

“Ammonite” tenta ousar com suas fortes cenas de nudez e sexo, mas acaba sendo vazio quando não há sentimento envolvido. Trata-se de uma produção linda, cuidadosa nos detalhes, mas tão fria que pouco nos importamos com o que relata e que facilmente esquecemos.

NOTA: 6,5

País de origem: Austrália, Reino Unido, Irlanda do Norte
Ano: 2020
Disponível: Net Now / Para locação no Youtube, Apple TV, Google Play e Looke.
Duração: 120 minutos
Diretor: Francis Lee
Roteiro: Francis Lee
Elenco: Kate Winslet, Saoirse Ronan, Fiona Shaw, Gemma Jones

Crítica: Mare of Easttown

Investigando as dores do passado

Quando uma minissérie, não muito acessível até então (agora está disponível no HBO Max), começa a fazer sucesso no boca a boca, alguma coisa boa tem ali. Ainda assim, não esperava encontrar o show mais completo do ano, onde dificilmente surgirá algo tão bom quanto em 2021. São 7 episódios precisos, que seguem uma narrativa absurdamente bem amarrada.

Nos subúrbios de Filadélfia, Mare (Kate Winslet) busca solucionar o assassinato de uma jovem, enquanto tenta impedir que sua própria vida desmorone. É um grande estudo de uma personagem que só cresce aos nossos olhos. Mare é aprisionada por um constante sentimento de culpa e está cercada de luto, de perdas e seus traumas caminham juntos em suas investigações. Tudo, no fim, vira uma questão pessoal, de acertos com o passado, de perdão próprio. Neste sentido, é interessante como o ótimo texto explora o acontecimento em uma cidade pequena, onde os moradores se conhecem, sabem um do outro e grande parte deles são suspeitos de cometer um crime. Melhor ainda, é quando todos esses personagens recebem atenção do roteiro e todos ali possuem uma função, um momento.

Em “Mare of Easttown” nada parece excesso, uma sobra. Cada pequeno detalhe terá sua importância na trama, mais cedo ou mais tarde. É, ainda, brilhante em como a minissérie consegue abraçar essa pluralidade de histórias e sentimentos, conseguindo ser doce, engraçada e ao mesmo tempo tão sensível, tão emocionante. O roteiro não se perde e sabe trazer cenas do cotidiano, sem esquecer de seus mistérios e da humanidade de cada indivíduo. Tudo tem seu tempo em cena e flui perfeitamente bem. Se tudo isso não fosse o bastante, a trama surpreende e ganha mais pontos ao não segurar seus segredos até o último segundo. Não usa do suspense como muleta para manter a audiência atenta. Cada episódio tem uma grande revelação e acompanhamos as consequências de cada uma delas. Aquele “depois” que os roteiros sempre nos omitiram.

Kate Winslet já é a atriz do ano. Que papel incrível. É lindo o que ela faz cena e o que ela entrega. Melhor ainda é quando ela funciona perfeitamente bem com todo o elenco. Sua troca com Evan Peters, Guy Pearce e principalmente com Jean Smart e Julianne Nicholson é de outro mundo. As duas últimas atrizes, inclusive, já merecem serem reconhecidas nas próximas premiações também, além de Kate, obviamente. Algo que me encantou muito nesses personagens é que o texto não os limitava em ser “a detetive 24 horas por dia”, “a mãe”, “a melhor amiga”. Todos vão além, tem camadas a ser exploradas. O humor, com certeza, ajuda nesta identificação e nessa afeição que passamos a ter com todos eles. A comédia aqui é certeira e vem sempre para preencher, revelando esses instantes afetuosos entre família e amigos. Vem de forma natural, como parte das boas conversas.

“Mare of Easttown” é completa. Traz uma história não tão original, mas a forma como a traz é que nos fascina. É brilhante e não há um ponto sequer fora da curva. Respeita seus bons mistérios e seus grandes personagens. Chegar aqui pela Kate Winslet já vale muito a pena, a sorte é que a minissérie entrega muito mais, inclusive um final fantástico que faz toda essa jornada ser recompensada e ser, definitivamente, um marco desse ano.

NOTA: 10

País de origem: EUA
Ano: 2021

Disponível: HBO Max
Duração: 7 episódios / 440 minutos
Diretor: Craig Zobel
Roteiro: Brad Ingelsby
Elenco: Kate Winslet, Julianne Nicholson, Jean Smart, Evan Peters, Guy Pearce, Angourie Rice

Crítica: Contágio

O medo é contagioso

Quando um filme de 2011 se torna a obra obrigatória e uma das mais relevantes de 2020. “Contágio” é aquele conhecido sleeper hit, que passa despercebido quando é lançado e demora anos para conquistar o sucesso. Atualmente, é um dos mais baixados e pesquisados, isso porque notou-se as semelhanças do longa com o que vivemos nos dias de hoje com o surto do Coronavírus. É brilhante quando paramos para analisar como um produto de quase 10 anos atrás conseguiu desenhar com tamanha precisão e realismo o caminhar da humanidade diante de uma pandemia. De fato, tem muito mais impacto neste tempo, justamente porque olhamos para a tela e compreendemos tudo o que ele estava tentando nos dizer, mas só agora fomos capazes de entender.

O roteiro, que teve mais de 30 versões antes da entrega final, contou com a importante consultoria de estudiosos, jornalistas e epidemiologistas. Tudo isso para que conseguissem construir a expansão de um surto sem os exageros e fantasias de Hollywood. Assim como o Sars-Cov-2, o vírus do Covid-19, o vírus fictício MEV-1 – descrito no filme – tem explicação científica e extremamente plausível. A trama se inicia com a personagem de Gwyneth Paltrow, que ao retornar de uma viagem à Hong Kong, dissemina uma doença viral e que, em pouquíssimo tempo, infecta centenas de pessoas em diversos países. Os sintomas são muito parecidos com os de uma gripe, mas a morte é fatal. A partir deste ponto, o longa tenta investigar os passos anteriores desta paciente zero e compreender a origem do vírus, ao mesmo tempo em que cientistas e profissionais da saúde correm contra o tempo para pesquisarem e desenvolverem uma vacina capaz de salvar a população. Ainda temos a presença das autoridades que precisam encontrar soluções, em um curto prazo, para como a humanidade precisa agir diante do caos que se instaurou. Além do olhar da mídia e todas as interpretações que ela tem sobre o caso.

Chega a ser bizarro e assustador as semelhanças com o que vivemos hoje. É chocante ver como o roteiro consegue ser tão preciso e tão perto da realidade. Compreende com inteligência todos os aspectos que envolvem uma crise como esta, entregando muito mais que um entretenimento, mas um estudo de sociedade. Vai muito além do que simplesmente mostrar a trajetória de uma infecção. Revela como isso afeta o Governo, aqueles que trabalham com saúde e principalmente, como afeta a vida das pessoas comuns. “Com o pânico, o vírus será o menor de nossos problemas”, diz uma cientista em certo momento. “Contágio” é muito sobre como o medo se expande com mais rapidez e eficácia que qualquer doença. O surto, a paranoia, a incerteza do amanhã. Mais do que a crise dos supermercados e a ausência de tudo aquilo que consideramos básicos para nossa sobrevivência, o filme investiga a crise psicológica que nasce na população e os efeitos colaterais do confinamento.

Dirigido por Steven Soderbergh, “Contágio” é narrado por uma perspectiva bem ampla, sem se apegar a personagens ou nas atuações, ainda que conte com um elenco de peso. Matt Damon, Kate Winslet, Jude Law, Laurence Fishburne e Marion Cotillard passam na tela como meros coadjuvantes. O texto está mais interessado na situação como um todo e não, especificamente, na experiência pessoal de cada um. Talvez isso fruste porque não há como ter empatia a nada. Não há indivíduos para nos preocupar e nem histórias que nos apegamos. No entanto, isso não impede do filme ter seu impacto e sua relevância enquanto cinema. Pelo contrário. Soderbergh e sua produção encontram o tom perfeito e criam uma atmosfera tensa, fria e angustiante, digno de uma ótima ficção científica apocalíptica.

É compreensível do porquê “Contágio” ter se tornado tão relevante dos dias de hoje e isso só prova a imensa qualidade da produção. É brilhante quando o cinema tem, no meio de sua fantasia, o poder de ver o futuro com clareza. O filme se torna importante e poderoso quando, enfim, vivemos este futuro e, de fato, ele estava certo sobre muitas coisas. Ainda que a obra incite nossa paranoia, não deixa de nos entregar, também, um voto de confiança, de otimismo. Mais do que entender a ciência e os efeitos de um surto, o longa entende o poder do contato. Aquele abraço, aquele aperto de mão. Isto é básico para a humanidade e vamos lutar para que isso continue existindo.

NOTA: 8

  • País de origem: EUA
    Ano: 2011

    Título original: Contagion
    Duração: 107 minutos
    Distribuidor: Warner Bros.
    Diretor: Steven Soderbergh
    Roteiro: Scott Z.Burns
    Elenco: Laurence Fishburne, Jennifer Ehle, Matt Damon, Jude Law, Kate Winslet, Marion Cotillard, Gwyneth Paltow, Bryan Cranston, John Hawkes