Crítica: Caminhos da Memória

O passado que assombramos

Escrito e dirigido por Lisa Joy, roteirista da série “Westworld“, o filme segue a mesma linha do show da HBO, tão ambicioso quanto vazio. É aquele prato lindo no cardápio, feito com os ingredientes mais saborosos, mas frio e sem sabor quando chega à mesa. Aqui, ela reúne todos os elementos de um ótimo blockbuster: elenco de peso, premissa intrigante e uma belíssima ambientação. Falta roteiro para dar vida a essa super produção que, infelizmente, não tem fôlego para nos carregar e morre minutos depois que começa.

Em um futuro distópico, Miami vive quase que submersa devido ao aquecimento global. Em um cenário de caos e pessimismo, o investigador Nick (Hugh Jackman), ganha a vida com seu lucrativo estabelecimento: possui uma tecnologia que permite que pessoas retornem ao passado, revivendo suas lembranças favoritas. Porém, ele acaba se apaixonando por uma de suas clientes que, misteriosamente, desaparece. É então que ele mergulha em suas próprias memórias e em uma rede de intrigas que podem revelar as razões do sumiço de sua amada.

Nada é mais viciante que o passado. É com esse pensamento que o nosso protagonista tenta recuperar a felicidade dos outros. É triste, porém, quando o próprio filme não entende a força dessa premissa, onde o roteiro jamais consegue explorar esse real potencial, desperdiçando tudo em prol de um suspense investigativo simplório, que circula repetidamente pelas mesmas ideias. A história de amor, base de toda a narrativa, não convence. Hugh Jackman e Rebecca Ferguson funcionam juntos e é uma química que vem desde “O Rei do Show”, mas sem um bom texto que nos faça acreditar, é difícil funcionar. Tudo é desenhado por uma plasticidade fake de comercial de perfume e as frases de efeito o tornam ainda mais enfadonho e tolo.

Há fortes referências de “Blade Runner” aqui, mas mesmo bebendo das fontes certas o produto não alavanca. É fato que o cinema atual carece dessas ideias originais e, por isso, é uma pena que tenham desperdiçado tanta coisa aqui. “Caminhos da Memória” tinha potencial mas insiste em seguir os piores rumos possíveis. Ao menos, ao fim, traz uma reflexão interessante sobre como nosso passado está intacto e somos nós, aqui no presente, que o assombramos.

NOTA: 5 / 10

País de origem: EUA
Ano: 2021

Título original: Reminiscence
Duração: 116 minutos

Disponível: HBO Max
Diretor: Lisa Joy
Roteiro: Lisa Joy
Elenco: Hugh Jackman, Rebecca Ferguson
, Thandiwe Newton

Crítica: I May Destroy You

O grito silencioso

Difícil falar sobre essa minissérie. A produção me levou a sentir e a refletir sobre tanta coisa ao mesmo tempo, tornando a digestão quase impossível. Escrita, produzida e protagonizada pela talentosíssima Michaela Coel, “I May Destroy You” vai te destruir. Para cada pessoa, claro, de uma forma diferente. Para uma mulher preta terá, com certeza, um impacto ainda maior do que eu tive e será uma experiência diferente da que eu tive. E ainda que eu tenha apreciado muito, não posso negar que, ao fim, senti uma leve ponta de decepção também.

Durante 12 episódios, a minissérie nos faz mergulhar no trauma da protagonista. Arabella (Coel) é uma escritora promissora, rodeada de bons amigos e dos bons rolês londrinos. Depois de sofrer um lapso de memória pelo alto nível de álcool, tenta buscar em suas falhas lembranças os eventos da noite anterior. Vem com muito humor essa descoberta, mas é uma comédia que provoca, que não faz rir. O brilhante texto nos leva a desvendar o que aconteceu ao seu lado, a revirar os detalhes e a sentir sua dor diante do ocorrido. Assim como Arabella, não queremos ter que ver. É então que “I May Destroy You” vem em tom confessional e bastante íntimo de Michaela Coel ao falar sobre estupro e diversos tipos de abuso sexual que encontramos em nossa sociedade e nem mesmo nos damos conta. É um relato poderoso, chocante e assombroso.

“O meu grito pode ajudar o grito silencioso delas”. O show é o grito de uma artista que se viu acuada diante de uma situação tão delicada e precisava exteriorizar isso. Ao revelar sua dor, ela revela a de muitas pessoas. É fácil criar essa identificação com os personagens, não necessariamente pelo o que eles viveram, mas porque eles são escritos com uma naturalidade absurda. Porque eles são tão falhos como todos nós, sempre aptos a fazerem as escolhas mais equivocadas. É, ainda, interessante em como a narrativa se expande para os amigos da protagonista, onde vivenciam algo que lhes causam dúvida. E essas dúvidas passam a ser as nossas também. Para nenhum personagem essa certeza existe, estão todos com esta indagação do que ocorreu no passado. O trauma nunca é claro. Ele vem em lapsos, em revisitar o momento com outros olhos. “I May Destroy You” nos provoca ao fazer perguntas difíceis ao invés de nos dar respostas suaves.

O que me frustra, porém, é que ao decorrer dos episódios, o roteiro dá vários saltos temporais. Ainda que isso agilize a trama e a evolução dos personagens, é um pouco incômodo essa escolha por omitir do público alguns instantes cruciais da história, como o fato de nunca ouvirmos as confissões e os relatos de seus traumas um para o outro. Simplesmente pula para um tempo em que os conflitos dessas relações já foram superados. Avança na história, mas perde na dramaticidade e na profundidade desses indivíduos. Não que eu ache que tudo precisa ser revelado, mas infelizmente em “I May Destroy You” o que alcança a superfície nem sempre é mais interessante daquilo que não é falado.

A minissérie terminou e me deixou um sentimento misto, confesso. O incômodo é proposital, aceito. Mas além desse desconforto, vem a frustração porque a trama parece não alcançar seu altíssimo potencial. O final entrega uma saída interessante e muito dialoga com seu ousado texto metalinguístico. “Ego Death” vem com um conceito lindo, mas pouco acrescenta para a narrativa. Disse tanto ao longo dos episódios para, ao fim, preferir se esquivar.

A produção, por sua vez, é fantástica, bela de se ver e impressiona por esse roteiro em que faz tanta coisa caber em apenas trinta minutos. Além de Coel, que está incrível, vale prestar atenção em Weruche Opia, impecável como Terry, a melhor amiga. O texto é ótimo e apesar de perder o fôlego nos últimos e gastar tempo com subtramas nem sempre interessantes, vale muito dar uma chance. Não são temas fáceis e a minissérie vem com uma abordagem completamente nova e necessária. Michaela Coel levanta debates urgentes e, por vezes, com a agressividade que precisávamos.

NOTA: 8,0

País de origem: EUA
Ano: 2020
Disponível: HBO Max
Duração: 360 minutos / 12 episódios
Diretor: Sam Miller, Michaela Coel
Roteiro: Michaela Coel
Elenco: Michaela Coel, Weruche Opia, Paapa Essiedu