Crítica: A Subida

Os tropeços de uma longa caminhada

Baseado no curta-metragem de mesmo nome, “The Climb” traz novamente a direção e roteiro de Michael Angelo Covino, que aqui também protagoniza. O filme, que venceu a Mostra “Um Certo Olhar” em Cannes de 2019, é uma grata surpresa e diverte ao falar sobre uma inusitada amizade ao longo de vários anos. Existe autenticidade nessa jornada e brilhantismo ao conduzir a evolução desses personagens tão humanos e tão aptos a cometerem os piores erros.

A obra inicia-se registrando a subida de dois amigos ciclistas em uma pista íngreme. É ali que Mike (Michael Angelo Covino) revela a seu melhor amigo, Kyle (Kyle Marvin), que dormiu com sua esposa, dias antes do casamento acontecer. O que poderia ser o momento de separação, é quando o elo se torna ainda mais forte. É uma relação tóxica, narrada por péssimas decisões. Separado por capítulos, o longa nos lança a diversas fases da vida de cada um deles, onde enfrentam o luto, novas mudanças, o envelhecimento. E eles odeiam a si próprios a ponto de nunca se abandonarem.

A subida inicial é filmada em um plano sequência bem arquitetado, onde a fluidez se mantém ao longo da obra e a câmera nunca perde esse ritmo da escalada. Sempre em movimento, adentrando por seus cenários, invadindo a intimidade de seus personagens e tudo aquilo que ninguém se sentiria à vontade em revelar. A produção transmite naturalidade ao falar sobre os tropeços da vida e essas conexões inesperadas que construímos ao longo do caminho. Até mesmo as transformações físicas dos atores em cena, ajudam nessa imersão.

Uma comédia brilhante, incrivelmente bem escrita, colocando em evidência o talento de Michael Angelo Covino. Ele aqui também entrega sequências muito bem filmadas, que possuem uma certa complexidade apesar do baixo orçamento. É um debute potente em um longa-metragem. “A Subida” causa um riso pelo desconforto e uma dúvida inquietante em nós assim que termina. Simples, mas surpreendentemente genial.

NOTA: 8,5

País de origem: EUA
Ano: 2019

Título original: The Climb
Duração: 94 minutos

Disponível: HBO Max
Diretor: Michael Angelo Covino
Roteiro: Michael Angelo Covino
Elenco: Michael Angelo Covino, Kyle Marvin, Gayle Rankin

Crítica: Dente Canino

A assustadora mente humana

Vencedor do prêmio de Melhor Filme na Mostra “Um Certo Olhar” no Festival de Cannes de 2009 e indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, “Dente Canino” marca o primeiro grande passo do cineasta grego Yorgos Lanthimos, que posteriormente realizou “O Lagosta” e “O Sacrifício do Cervo Sagrado”. Há uma linguagem muito similar entre suas obras, algo excêntrico que as une e, como consequência, o torna neste diretor singular, único, com forte assinatura. Seus temas são complexos e geram, dentro de suas estranhezas, muitas reflexão, além daquele já conhecido nó no cérebro.

O filme não nos oferece muitas respostas e ao seu decorrer, vamos tentando juntas suas partes para chegar a alguma conclusão, que nunca é muito clara. Vemos um pai que isola seus três filhos dentro de casa e não os permite sair, criando, desde que nasceram, a ilusão de que o universo existe apenas dentro daquele muro. É assustador ver esta realidade distorcida que é oferecido a esses jovens e como eles aceitam tudo como verdade. A omissão do mundo os torna em seres completamente despreparados e dependentes das histórias contadas pelos pais. As sequências são naturalmente perturbadoras, e mesmo que Yorgos saiba inserir humor de forma inteligente e inesperada, é impossível não sentir um constante soco na alma e uma vontade desesperadora de ver os personagens livres de tudo o que nos apresenta.

“Dente Canino” é um filme cru, seco, frio. Suas cenas são fortes e não recebem censura alguma. Yorgos não está disposto a nos privar de sua perversidade, ele nunca está. Da violência ao incesto, tudo causa um imenso desconforto, no entanto, nos traz um estranho prazer de vê-lo, porque nos instiga a permanecer, nos causa curiosidade de compreender seu universo e esta mitologia única que desenvolve ali. E mesmo com a teatralidade que o diretor posiciona e guia seus atores, tudo o que nos mostra é forte porque há uma interessante analogia a tudo o que vivemos, a história dos homens. A caverna de Platão de Yorgos Lanthimos nos faz pensar neste condicionamento humano, em como aceitamos uma cultura e o que julgamos o que é certo pelo aprendizado dado a nossos pais. Somos constantemente moldados pela sociedade, frutos de um conhecimento passado que se reproduz sem muitos questionamentos.

“Dente Canino” nos deixa atordoados ao fim, sufocados por tudo o que nos oferece e que mal conseguimos digerir. Yorgos Lanthimos é um cineasta raro e esta é a grande prova de que ele deve ser levado a sério.

NOTA: 9

  • País de origem: Grécia
    Ano: 2009
    Duração: 94 minutos
    Título original: Kynodontas / Dogtooth
    Distribuidor: –
    Diretor: Yorgos Lanthimos
    Roteiro: Yorgos Lanthimos, Efthymes Fillippou
    Elenco: Aggeliki Papoulia, Hristos Passalis, Mary Tsoni, Christos Stergioglou