Crítica: O Esquadrão Suicida

o retorno triunfante

O ano é 2016, ao som de Queen, um trailer ambicioso surgia e o filme se tornava uma grande promessa. O tombo veio e “Esquadrão Suicida” foi esmagadoramente criticado pelo público e crítica. Logo, uma sequência parecia o caminho mais tolo a ser seguido. É então que o projeto cai nas mãos certas e James Gunn, ainda que traga alguns personagens de volta, reinicia com vigor a franquia, entregando um produto autêntico e extremamente eficiente.

Autenticidade é uma palavra rara a ser usada quando falamos do universo dos heróis, em geral, no cinema. Quando se encontra a fórmula do sucesso, não há criador que possa interferir. É assim que assistir a um filme claramente assinado por um diretor traz frescor, um respiro necessário. “O Esquadrão Suicida” não é apenas muito prazeroso de assistir como também comprova a esperteza de James Gunn. Traz estilo sim, mas o grande acerto aqui se encontra no texto, que sabe dosar o humor, a dramaticidade e, principalmente, sabe como valorizar seus bons personagens. Cada um tem seu momento de glória ali e, como consequência, muito diferente do que havia sido feito antes, nos afeiçoamos a cada um deles, vibramos pela jornada, pelas conquistas.

Já nos primeiros minutos, temos uma virada genial na narrativa. E, felizmente, o roteiro é esperto o bastante para manter esse fator surpresa até o fim. A obra tem uma premissa extremamente simples, onde os nossos supervilões são recrutados pela Força Tarefa X que, para uma redução de sentença, aceitam salvar o mundo de uma grande ameaça e destruir um projeto militar. A grande graça aqui é ver esses personagens desajustados se unindo por um único objetivo. Há sintonia entre todos eles e o elenco se mostra muito à vontade. Margot Robbie enche a tela com seu brilho e Idris Elba, John Cena e a revelação Daniela Melchior se mostram adições adoráveis. É incrível como todos eles funcionam e como o diretor sabe, inclusive, fazer um tubarão e uma doninha darem certo na tela. Ele abraça o nonsense, entregando uma obra imprevisível e divertidíssima.

Existe nas entrelinhas de “O Esquadrão Suicida” um debate audacioso sobre a presença massiva do governo norte-americano nos crimes de guerra e o que eles são capazes de fazer para omitir tal interferência. Ao fim, em um filme cercado de personagens de caráter duvidoso, o grande vilão é o próprio país e aquele que trai usando discursos pacíficos e patriotas. É irônico e traz provocação em suas boas reviravoltas.

A obra vem, claro, cercada de boas cenas de ação e com um visual caprichado. Depois de “Guardiões da Galáxia”, James Gunn acerta novamente, trazendo não apenas uma energia revigorante como, também, muito coração.

NOTA: 8,5

País de origem: EUA
Ano: 2021

Título original: The Suicide Squad
Disponível: HBO Max
Duração: 132 minutos
Diretor: James Gunn
Roteiro: James Gunn
Elenco: Idris Elba, Margot Robbie, John Cena, Daniela Melchior, Viola Davis, David Dastmalchian, Peter Capaldi, Alice Braga

Crítica: We Are Who We Are

Tempo de transições

A vida pacata de um grupo de adolescentes vivendo em uma base militar norte-americana na Itália. A premissa é simples, mas na mão do cineasta Luca Guadagnino, a minissérie da HBO chega a um resultado grandioso.

Adentramos a este lugar tão incomum pelos olhos de Fraser (Jack Dylan Grazer), jovem que precisa se adaptar à nova realidade, pois sua mãe será a nova comandante na base. Durante os belíssimos 8 episódios, acampamos esse processo dele tentando se encaixar e sua relação com Caitlin (Jordan Kristine Seamon), sua vizinha. Os dois enfrentam um momento de grande transição e se unem nesta imediata identificação.

A trama faz um paralelo dessa adolescência em mutação com os Estados Unidos em período eleitoral e nessas incertezas assustadoras que nasceram na sociedade pós-Trump. Mas eles estão distantes do país, vivendo em um lugar quase inexistente e que possui sua própria lógica. É justamente essa ambientação que torna a série tão fascinante. Há um trabalho muito rico de detalhes que nos faz adentrar a esse universo tão único. A rotina incomum, as paisagens, cenários e locações. O show nos permite passear e contemplar cada pedaço, apreciando sua fluída passagem de tempo. Luca Guadagnino é um grande diretor e torna o ato de assisti-la em uma gloriosa experiência.

Somos acostumados, enquanto público, a definir os personagens, a colocá-los em certas caixas. “We Are Who We Are” é um convite a não decifrar esses personagens que, em uma época de transição e amadurecimento, tão pouco conhecem a si mesmos. É um convite a abraçamos a pluralidade de cada um deles e aceitar que eles podem ser qualquer coisa. A série é, também, uma história de amizade. De dois jovens que se encontram neste pedaço de mundo que parece ter uma rotação diferente do resto do universo. É sobre essa conexão entre os dois, tão diferentes, mas tão solitários em suas realidades. Essa troca entre eles é bela de se acompanhar. Apesar do protagonista ser um tanto quanto irritante, consigo ver nele muito dos adolescentes por aí. Caitlin, por sua vez, tem uma trajetória incrível e me encanta sua presença.

“We Are Who We Are” perde, porém, com alguns de seus coadjuvantes que, ao não ter suas tramas aprofundadas em nenhum momento, se tornam meros adereços de cena, como o plot das mães lésbicas, das traições e do irmão muçulmano. Soa como se eles estivessem ali para tapar um buraco, apenas.

Termino de ver a série com um sorriso largo no rosto e um sentimento forte dentro de mim. Sinto que presenciei algo. “We Are Who We Are” pode não entrar para a história da televisão, mas com certeza estará ali, em um algum canto especial na memória.

Melhores episódios: “Right Here Right Now IV” e a hipnotizante despedida de um soldado dentro de uma casa invadida. E o último, “Right Here Right Now VIII and Last”, a belíssima despedida dos protagonistas.

NOTA: 9

País de origem: EUA, Itália
Ano: 2020
Disponível: HBO GO, Net Now
Duração: 8 episódios
Diretor: Luca Guadagnino
Roteiro: Luca Guadagnino, Francesca Manieri, Paolo Giordano
Elenco: Jack Dylan Glazer, Jordan Kristine, Chloe Sevigny, Tom Mercier, Alice Braga