o bicho aprisionado
Ney Matogrosso é uma força da natureza e merecia, há muito tempo, um filme para chamar de seu. Ainda que as cinebiografias, como costumo comentar por aqui, estejam muito saturadas, “Homem com H” se mantém muito acima da média. Esmir Filho, que dirige, entrega uma obra que funciona tanto como homenagem à figura icônica do artista, quanto um produto expressivo, com substância e sentimento.
A primeira imagem que temos de Ney na tela é dele ainda criança, em um cenário que remete à selva. É um começo simbólico: o que vemos em seguida é a jornada de um homem em busca de seu habitat natural, enquanto constrói sua identidade numa sociedade que insiste em aprisioná-lo. Seja pela repressão do pai homofóbico ou pela censura brutal da ditadura, o protagonista está constantemente em confronto com o mundo ao redor, batalhando por um espaço maior do que o que lhe concedem. Ney é o bicho da selva que recusa qualquer definição ou limite. É um animal indomável, à procura de um território onde seu rugido feroz finalmente possa ecoar.

Um ser inquietante, cheio de paixão e sonhos. O filme busca, ao longo de suas duas horas, sintetizar essa potência e percorrer brevemente as tantas fases de sua trajetória. Momentos marcantes são pincelados, como sua explosiva passagem pelos “Secos & Molhados”, o envolvimento com Cazuza e as perdas dilacerantes causadas pela epidemia da AIDS. Contudo, ao tentar abraçar toda uma vida, a produção inevitavelmente acelera o passo, sacrificando aprofundamentos mais densos. Essa pressa em ser um grande panorama da carreira resulta em uma narrativa que, por vezes, soa fragmentada.
Ainda assim, Esmir Filho consegue entregar momentos de pura inspiração, como na eletrizante sequência em que o cantor apresenta “Homem com H”, revelando toda a sua ironia, ousadia e deboche. O filme não se limita e consegue, através das imagens, traduzir a coragem estética e pessoal de Matogrosso. Jesuíta Barbosa, por sua vez, é um acerto absoluto. Ele se entrega por completo a uma performance física e emocionalmente intensa.
O filme termina sendo muito mais do que apenas mais uma cinebiografia. Consegue emocionar, indo além de uma simples homenagem ou produto vazio feito para agradar aos fãs. No entanto, também carrega o maior vício do subgênero: a vontade de contar tudo, o que acaba engessando a fluidez. A narrativa deixa de ser livre para se tornar episódica, como se avançasse de capítulo em capítulo, só permitindo que um acontecimento se inicie quando o anterior termina.
Diferente de muitas produções, “Homem com H” tem sentimentos. Além do artista, temos em cena um personagem grande, que tem muito a dizer. E Jesuíta Barbosa tem uma presença magnética e impactante, não sendo possível desgrudar os olhos dele. Uma obra que faz jus ao seu protagonista, abraçando o estranho, sendo sexy e, sobretudo, sensível.
NOTA: 8,0

País de origem: Brasil
Ano: 2025
Duração: 129 minutos
Diretor: Esmir Filho
Roteiro: Esmir Filho
Elenco: Jesuíta Barbosa, Bruno Montaleone, Rômulo Braga, Hermila Guedes, Carol Abras
