sopro esperançoso de originalidade
A parceria entre o diretor Ryan Coogler e o ator Michael B.Jordan já nos presenteou com obras marcantes como “Fruitvale Station”, “Creed” e “Pantera Negra”. “Pecadores” não é apenas o ápice dessa colaboração, como também é um sopro esperançoso de originalidade e autenticidade ao cinema blockbuster contemporâneo.
Fui assistir sem saber absolutamente nada sobre a trama (e recomendo essa mesma abordagem). Coogler constrói seu universo com calma, esmero e uma elegância rara nos dias de hoje, onde tudo precisa acontecer rápido para manter a atenção do público. Em vez disso, ele aposta numa introdução longa, contemplativa, que prepara o terreno para uma virada insana e absolutamente recompensadora. A espera vale cada minuto: “Pecadores” entrega algo potente, novo e ousado. Diria, sem medo, que o filme vai a lugares que poucos já se atreveram a explorar.
Michael B.Jordan interpreta dois personagens, os irmãos gêmeos Smoke e Stack. Eles retornam à terra Natal – Mississippi, nos anos 30 – em busca de um recomeço. No entanto, eles precisam unir forças com um grupo de amigos de longa data para combater uma impetuosa presença maligna que agora assombra a comunidade.

A mitologia criada aqui é riquíssima, misturando ancestralidade, criaturas sobrenaturais e muito sangue. E tudo isso entrelaçado ao poder da música. A trilha sonora não é mero pano de fundo, é força espiritual, elo entre gerações, instrumento de libertação e também de conjuração do mal. Em um contexto marcado pela escravidão e pela violência sistemática contra os negros, Coogler constrói uma fábula sobre herança, resistência e os fantasmas que habitam uma nação dividida. Fala sobre um mal profundamente enraizado, que se disfarça de cordialidade, e sobre uma cultura afro-americana que, apesar de apropriada e marginalizada, segue viva e pulsante.
Existe muita força nesse universo, que consegue, com maestria, transitar entre o drama histórico, o terror e o musical. É uma mistura ousada, cheia de alma, que assusta e encanta com igual intensidade. É o blues correndo nas veias de um filme que não tem medo de ir contra a maré. Coogler injeta inteligência e frescor no cinemão hollywoodiano, entregando uma obra autoral e sem amarras, e o que é muito raro, fazendo isso dentro de um grande estúdio.
O elenco eleva ainda mais a experiência. Michael B. Jordan, como sempre, impressiona, mas é ótimo ver Wunmi Mosaku, Jack O’Connell e o veterano Delroy Lindo brilhando também. “Pecadores” é uma das grandes surpresas do ano, profundo, eletrizante e essencial. Ryan Coogler nos entrega o que há de mais necessário no cinema atual: coragem e originalidade. Um horror que pensa, que sente e que reverbera.
NOTA: 9,0

País de origem: EUA
Ano: 2025
Título Original: Sinners
Duração: 137 minutos
Diretor: Ryan Coogler
Roteiro: Ryan Coogler
Elenco: Michael B. Jordan, Wunmi Mosaku, Delroy Lindo, Miles Caton, Hailee Steinfeld, Jack O’Connell
