entre novos estímulos e desencantos

Destaque no Festival de Cannes em 2023, quando foi exibido na Mostra Um Certo Olhar, “A Natureza do Amor” é um romance que, de início, até parece bastante óbvio, mas aos poucos vai revelando suas boas camadas e nos envolvendo em uma trama que foge de respostas fáceis. Através de imagens belíssimas, somos convidados a embarcar em uma espécie de conto de fadas moderno. Encanta ao falar de paixão, mas também nos mantém reflexivos quando nos enxergamos em sua representação. Quando vemos o como somos tristes e confusos dentro de nossos relacionamentos atuais.

Sophia (Magalie Lépine Blondeau) tem 40 anos e mantém um relacionamento aparentemente confortável com Xavier. Compartilham as mesmas opiniões e gostos sobre muitas coisas, mas dormem em camas separadas. Tudo muda completamente quando ela se apaixona por Sylvain (Pierre-Yves Cardinal), um homem bruto e irresistível que foi contratado para reformar sua casa de campo. Sophia se entrega a seus impulsos românticos, vivendo desse desejo proibido e insaciável. No entanto, ambos são de mundos opostos. Ela é de família rica, ele de uma família humilde de trabalhadores braçais. Passado o tesão inicial, essas diferenças tornam-se maiores à medida que um vai adentrando a vida do outro.

“O amor é uma ação, não um sentimento. Não nos submetemos a ele. Escolhemos amar.” A protagonista é, também, uma professora de filosofia e, durante a obra, a vemos lecionando sobre amor e as definições encontradas por grandes pensadores. O filme acaba por fazer um paralelo interessante entre essa ideia mais racional do sentimento, com aquilo que realmente se vive. Com toda a entrega, desequilíbrio e complexidade que é estar com alguém. Nos faz pensar muito, também, nessa antiga ideia de que opostos se atraem e como esses contrastes, dentro de uma relação, nem sempre funcionam a longo prazo.

A Natureza do Amor” acerta justamente por não procurar nessas tantas definições uma resposta e nos permite nos perder ao lado dos personagens. Todos eles são falhos em algum momento, mesmo que sempre com a intenção de acertar. O roteiro lida com humor, inteligência e perspicácia esses desencontros, navegando entre a magia inicial de uma paixão e o afastamento natural. O que se inicia como uma história óbvia sobre paixão, acaba trilhando caminhos um tanto quanto obscuros ao revelar essa frustração iminente quando se vive a dois. Um retrato muito atual de como nos deixamos nos levar por essa excitação da novidade, mas acabamos sempre tropeçando no vazio da incerteza.

A produção é deslumbrante e nos encanta com a beleza de cada composição. Ao falar sobre um casal que vive mundos tão distantes, Monia Chokri ilustra, com muito estilo e cuidado, através da esperta movimentação de câmera, diferentes perspectivas. Além desse zoom que abre revelando uma outra composição, muitas vezes vemos os personagens refletidos em vidraças e espelhos. Dessa forma, ela indica que eles estão no mesmo ambiente, mas é como se pertencessem a outros planos.

“A Natureza do Amor” é um filme divertido, acima de tudo. Me prendeu em seus primeiros segundos e não consegui mais soltar a mão. Tem bom ritmo e uma tensão sexual que nos mantém completamente vidrados. Terminei de ver encantado por tudo e feliz por ver um filme de romance que, ao mesmo tempo em que não ignora a fantasia que o gênero proporciona, também dialoga perfeitamente bem com os novos tempos. Na era dos tantos estímulos, preocupações e desencantos.

NOTA: 9,0

País de origem: Canadá
Título original: Simple comme Sylvain
Ano: 2023
Duração: 110 minutos
Diretor: Monia Chokri
Roteiro: Monia Chokri
Elenco: Magalie Lépine Blondeau, Pierre-Yves Cardinal, Francis-William Rhéaume, Monia Chokri

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