Crítica: Culpa

O som que uma história tem

“Culpa” é aquele produto simples, pequeno mas que nos leva à lugares inimagináveis. Um belo exercício cinematográfico, que mesmo filmado em um único espaço, consegue entregar um thriller potente, envolvente, hipnotizante e com surpreendentes reviravoltas.

É sempre interessante quando o cinema nos apresenta este tipo de ideia. Um conceito sempre arriscado mas fascinante se bem realizado. Um personagem de destaque, um cenário fechado e nada além disso. Aqui temos o policial Asger (Jakob Cedergren), que aparentemente está sofrendo um processo judicial e trabalha como atendente no setor de emergência. O plot principal se dá início quando ele recebe a ligação de Iben, uma mulher desesperada que está sendo vítima de um sequestro. Com pouquíssimas informações sobre o caso, Asger precisa correr contra o tempo para que uma tragédia maior não aconteça.

A experiência de ver “Culpa” é tão intrigante e mágica como a que temos ao ler um livro. O roteiro, tão rico e brilhantemente bem escrito, nos permite viajar em suas ideias, construindo em nossa mente tudo aquilo que o filme não nos revela. Tudo acontece através de ligações e o som que cada evento emite é aquilo que ativa nossa imaginação. Sequestro, fuga, dramas familiares. Um mundo inteiro dentro daquela chamada e é fantástico como o filme não decai nunca, sempre nos mantendo atentos aos acontecimentos e sempre nos levando para uma nova direção. As reviravoltas são ótimas e muito bem conduzidas pelo texto. E claro, destaque para o ator Jakob Cedergren, que é nosso ouvido e nosso olhar diante de tudo. É um ator carismático e que nos leva junto em sua jornada. Trata-se, aliás, de um grande personagem, cheio de dúvidas e dilemas morais que precisa enfrentar dentro daquele tempo e espaço limitado.

“Culpa” surpreende por alcançar proporções enormes mesmo dependente de pouquíssimos recursos. Tudo é trabalhado através de sugestões. Uma história tensa que cresce sem a necessidade de mostrar seus reais protagonistas. A única imagem que temos é a do herói, que diferente das perseguições hollywoodianas, ele está incapaz de encarar as ruas e resolver por suas próprias mãos. Sua voz é sua única arma. É incrível, neste sentido, como a direção precisa buscar na montagem, som e fotografia os artifícios necessário para nos manter atentos. E consegue. Temos aqui, no fim, um thriller fascinante, incrivelmente bem conduzido e um exercício de linguagem prazeroso. É brilhante. É o cinema independente em sua melhor forma.

NOTA: 8,5

  • País de origem: Dinamarca
    Ano: 2018
    Duração: 85 minutos
    Título original: Den skyldige
    Distribuidor: California Filmes
    Diretor: Gustav Möller
    Roteiro: Gustav Möller
    Elenco: Jakob Cedergren

Crítica: Beast

Contra todos

Lançado em 2017, “Beast” soa como uma fábula adulta e moderna, quase como aquelas versões originais e obscuras que descobrimos sobre os contos de fadas. A produção captura essa atmosfera do realismo fantástico para contar uma trama densa, guiada por protagonistas ambiguos. Em uma comunidade rural e afastada, conhecemos Moll (Jessie Buckley), uma mulher que demonstra impotência diante do controle e pressão de sua família conservadora. Claramente insatisfeita com sua vida, ela acaba conhecendo aquele que parece ser sua salvação de sua prisão, Pascal (Johnny Flynn), com quem logo se apaixona. Fascinada pelo misterioso forasteiro, ela precisa lidar com o fato de que ele é o principal suspeito de uma série de assassinatos brutais.

O filme conta com a direção e roteiro do estreante Michael Pearce, que surpreende por conseguir construir um produto que navega, de forma harmoniosa, por diversos gêneros. É brilhante como quando aquilo que começa como um drama familiar e um romance doce se transforma em um potente thriller psicológico, sem jamais parecer inconsistente ou sem provar tamanho domínio sobre essas tantas formas de narrativa. O roteiro, ao inicio, vai te conquistando, te introduzindo àquele universo único e te afeiçoado ao casal protagonista. É belo aquela relação porque os dois se completam, um entende a loucura do outro, a estranheza, o descontentamento. É poderosa essa conexão estabelecida entre eles, o que torna seus desdobramentos ainda mais perturbadores e interessantes.

A mente complexa de nossa protagonista é revelada por um estranho discurso sobre baleias sendo mantidas em cativeiro e como elas se machucam, propositadamente, para que percam seus próprios dentes pois cansaram de sorrir. Essa analogia vem como ilustração de tudo o que nos é mostrado posteriormente. Seja o forasteiro que caça animais silvestres, sejam as garotas brutalmente assassinadas. Curiosamente, essa fera da qual Moll demonstra simpatia, diz muito sobre ela, sobre se sentir enclausurada em sua realidade domesticada. Ela é vista como selvagem pelas pessoas da comunidade e se fascina por aquele homem grosseiro, mesmo quando ele é descrito como assassino. Essa identificação é bastante conturbada, nos fazendo questionar a todo instante o real caráter da protagonista. Seria ela a vítimas ou seria ela o verdadeiro monstro da história? Ela é a fera aprisionada ou é a fera que ataca? É curioso quando a própria Moll teme duvidar de sua bondade, precisando a todo momento reafirmar suas atitudes de boa cristã, cantando no coral e se limitando a viver para cuidar do pai. Essa tensão psicológica ganha cada vez densidade porque nunca vem com respostas fáceis e termina sem nos esclarecer completamente. A brecha que deixa, torna o filme ainda mais poderoso, justamente porque indica aquilo que evitamos acreditar durante toda a história.

Jessie Buckley é uma atriz intrigante. Ela revela essas tantas camadas de sua personagem com garra, com honestidade. Ao mesmo tempo em que ela é doce, nos amedronta, nos faz querer entendê-la. É fantástico o momento em que ela, no limite de sua repreensão, expulsa sua dor aos gritos ou quando ela se enterra, assim como as vítimas que foram mortas. São atitudes bizarras de uma alma solitária, que jamais é ouvida, compreendida, completamente avulsa à realidade. É assustador esse seu fascínio por Pascal, mesmo quando é visto como criminoso. Ela não teme ser igual à ele, pelo contrário, parece se afeiçoar à sua suposta rebeldia, quase como se o entendesse, como se buscasse na violência, na brutalidade, sua vingança contra o mundo, contra todos que a diminuíram. Buckley entrega alma e sentimentos a toda essa complexidade e brilha em cena. Sua parceria com Johnny Flynn funciona, sendo imensamente prazeroso vê-los contracenando. O filme ainda acerta na estética, entregando sequências visualmente poderosas, além da potente trilha sonora. “Beast” é um belíssimo achado. Um projeto audacioso, original e que nega a obviedade a todo instante.

NOTA: 8,5

  • País de origem: Reino Unido, Irlanda do Norte
    Ano: 2017
    Duração: 107 minutos
    Título original: Beast
    Distribuidor: –
    Diretor: Michael Pearce
    Roteiro: Michael Pearce
    Elenco: Jessie Buckley, Johnny Flynn

Crítica: Boyhood – Da Infância à Juventude

Em um piscar de olhos

Dirigido por Richard Linklater, “Boyhood” pode ser citado como uma das obras mais ambiciosas dos últimos tempos. Filmado durante 12 anos, a sensação que temos ao assisti-lo e ver seu elenco envelhecendo, ali na tela, é uma experiência única, de uma coragem e genialidade ímpar.

Ao longo de 12 anos, o diretor Richard Linklater reuniu sua equipe para rodar seu filme, uma vez a cada ano, para mostrar a jornada e o crescimento de seus personagens. Ellar Coltrane, que interpreta o protagonista Mason, inicia as filmagens aos 6 anos e termina aos 18. Não haveria forma melhor para Linklater, que também assina o roteiro, relatar sobre o que pretendia, o tempo. É muito curioso pensar como tudo isso foi feito. Parece aquelas ideias malucas que alguém para e pensa: “e se gravarmos um filme durante vários anos? Como seria o resultado?”. Penso que foi preciso muita coragem, disposição em fazer o melhor, dedicação em se doar a um único projeto, não só do diretor, mas de todos os envolvidos. O resultado é mágico. Muito mais do que ver os atores envelhecendo no mesmo filme, é presenciar este milagre em nos transportar ao passado, reviver uma vida que não foi a nossa, mas que poderia muito bem ter sido.

“Boyhood” é sobre a vida, sobre a rotina, sobre momentos. Por isso, não encontramos reviravoltas, surpresas, lições de moral, muito menos um clímax ao seu final. Acompanhamos de perto a jornada de Mason e todas as fases que enfrenta, da infância à juventude. Vemos na tela partes da nossa própria vida. As brincadeiras, os vícios, os gostos musicais e principalmente os questionamentos do protagonista. Pelo menos algum instante ou algum diálogo é sobre nós, sobre o que vimos e presenciamos. Cada sequência é como voltar no tempo, é sentir aquele sorriso bobo saltando em nosso rosto ao relembrar detalhes tão banais da nossa antiga rotina, como aquela satisfação imensa em irritar o irmão ou a concentração máxima diante de um video-game. Muito mais do que nos dar essa chance de reviver, Richard Linklater consegue, com toda sua maestria, fazer o mais honesto e mais brilhante relato de uma geração, mais precisamente, a geração dos anos 2000, mostrando seus gostos e suas excentricidades, apostando na memória e no repertório cultural daqueles que viveram aqueles anos. Como foi bom começar o filme ouvindo “Yellow” do Coldplay e terminando ao som de Arcade Fire. A trilha musical, assim como tudo no longa, parece respeitar todos as preferências, sem julgamentos e sem níveis de importância, tudo é apontado como partes de uma história, de Britney Spears à Foo Fighters, de Lady Gaga à The Black Keys. Além das tantas citações da cultura pop, situando sempre a trama à época em que acontecia, como Dragon Ball, Harry Potter, Star Wars e Cavaleiro das Trevas, entre tantas outros.

É muito curioso essa experiência de ver como os personagens estão em cada ano e isso é mostrado no longa de forma muito natural. Às vezes, mal percebemos o quanto Mason ou Samantha haviam crescido. Não há choque, o tempo apenas flui diante de nossos olhos e mal nos damos conta do quanto todos estão envelhecendo. Tudo é tão rápido, quase que imperceptível. Acredito que seja por isso que o filme consiga emocionar tão fácil, por vezes, sem a intenção. É doloroso sentir e ver a vida passando, ver o quanto não temos controle sobre o tempo. É cruel ver tudo o que deixamos para trás. Como num piscar de olhos, tudo é passado, tudo é lembrança. Se na trilogia do “Amanhecer”, Linklater havia inovado ao falar sobre o tempo, em “Boyhood” ele leva essa máxima a outro nível. É mágico ver Ellar Coltrane em cena. Vê-lo criança e depois de duas horas vê-lo se tornando um adulto, sem maquiagem ou qualquer efeito. É ele, apenas ele, suas próprias mudanças, sua própria evolução.

Em certo momento, o protagonista discute sobre sua ida a faculdade e sobre não achar que este seja o grande passo da sua vida. Dentre tantas coisas que “Boyhood” diz, a mais marcante acredito que seja exatamente esta. Esta visão de que tudo o que nós vivenciamos é apenas um passo. A vida não é como um filme repleta de reviravoltas e provações, é apenas um passo de um caminho que seguimos às cegas, sem jamais saber para onde vamos ou que iremos fazer. E não importa o que façamos, estaremos sempre perdidos. O filme ainda debate sobre esta “padronização” da vida. O fato de nos identificarmos com a vida de Mason é porque todos nós somos levados a realizar as mesmas coisas. O colégio, a faculdade, o trabalho, é tudo como o personagem diz, é apenas um “espaço pré-determinado” reservados para nós, e nada disso definirá o que somos ou nos libertará da confusão que é a nossa mente. E que talvez passado e futuro não importam, nada adianta refletir sobre o que aproveitamos ou que aproveitaremos, os momentos são o agora, as chances estão no presente. É válido dizer, porém, “Boyhood” pode representar algo diferente para cada pessoa, cada um mergulhará nas histórias a sua maneira e retirará o melhor para si. Uma experiência única, dolorosa, mas ao mesmo tempo, tão doce, tão delicada, tão honesta.

NOTA: 9,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2014
    Duração: 165 minutos
    Título original: Boyhood
    Distribuidor: Universal Pictures
    Diretor: Richard Linklater
    Roteiro: Richard Linklater
    Elenco: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke, Lorelei Linklater

Crítica: Permissão

Quando o eterno é tempo demais

Eu estou em uma fase que ando procurando filmes maduros sobre relacionamentos modernos. “Permissão” pode até não ser muito marcante, nem mesmo uma grande obra, mas, com certeza, vem para debater alguns assuntos relevantes e só por isso merece uma chance. Tem coisas interessantes a dizer e diz com sinceridade. Questiona sobre como saber se aquela pessoa com a qual nos relacionamos é “a” pessoa, aquela que deveríamos viver a eternidade ao lado. E ao duvidar disso acaba por trazer uma verdade desconfortável: a de que, talvez, a vida seja curta demais para se viver uma única história de amor.

“Permission” se inicia quando um casal de longa data está prestes a dar o próximo passo, o casamento. Anna (Rebecca Hall) nunca namorou ninguém além de Will (Dan Stevens) e isso passa a atormentá-la, pois ela nunca soube o que é a vida além deles. É então que ela surge com uma inesperada proposta: o liberta a transar com outra mulher por uma noite. O trato se expande e Anna passa a ter o passe livre também. A partir dessa traição consentida, ambos começam a questionar sobre a vida que construíram juntos e se ficar com uma única pessoa é o que realmente querem dali para frente.

A obra é, curiosamente, um projeto entre família e amigos. O diretor Brain Crano é casado com o ator David Joseph Craig, que faz o irmão de Rebecca Hall no filme, que por sua vez estudou e é grande amiga do ator Dan Stevens, além de ser casada com Morgan Spector, que também está presente no elenco. Ou seja, um grupo de pessoas que se conhecem muito bem na vida real e decidiram se juntar para fazer um longa-metragem. Essa intimidade é nítida na tela e todos se mostram muito a vontade durante as cenas. A história flui quase como uma peça de teatro com poucos personagens que precisam se enfrentar o tempo todo. E entre questionamentos, discussões e desilusões, todos parecem estar evoluindo, seguindo um novo rumo. O filme revela este instante de ruptura na vida amorosa desses amigos, que ou aceitam o destino ou se permitem arriscar outra saída.

– O que há de errado comigo?
– “Eu não sei quem eu sou sem você!”. Foi isso o que disse, certo? Você não gostaria de saber?

O cinema sempre nos ensinou sobre “o destino”. Sobre como o universo nos prepara para encontrar uma pessoa especial e quando encontramos essa pessoa é com ela que devemos ficar para sempre. Nossa cultura é assim. É o que nossos pais esperam de nós. Talvez nós esperamos isso de nós mesmos também. É bom, então, quando vem um filme para quebrar um pouco esse idealismo romântico. “Permission” não vem para falar sobre relacionamentos abertos e nem menosprezar a traição, vem para dizer que tudo bem se apaixonar outra vez. Estar com alguém a vida toda pode ser assustador. É quase como retirar a chance de nos perder nos braços de outras. É quase como não nos permitir conhecer a pessoa ideal para nós porque optamos pelo conforto de uma relação já estabelecida. E se “a” pessoa estiver lá fora? Em outro canto a nossa espera. O filme fala justamente sobre esta permissão. Sobre permitir se conhecer melhor. Porque relacionamentos camuflam indivíduos e muitas vezes eliminam desejos particulares. Como Will poderia saber o que é amor a dois se ele nunca soube o que é solidão? Como desejar um casamento se ele nunca soube o que é sua vida sem ela? Como saber que o parceiro é “a” pessoa quando ele é a única pessoa?

Rebecca Hall, como sempre, ilumina o filme. É uma atriz com boa presença, que encanta, que traz verdade. Sua parceria com Dan Stevens funciona é ótimo quando eles também funcionam com os outros personagens que surgem na trama. Nos faz desejar esse estranho experimento por eles. Me encanta toda a direção de arte do filme, também, e neste capricho do diretor em enquadrar tão bem suas sequências. Na segunda metade da obra, a história vai perdendo a força, foge um pouco do foco, tornando alguns momentos arrastados e alguns deles, dignos de serem deletados. No mais, um produto elegante, sexy, sensível e que busca se aprofundar nessa complexidade que são os relacionamentos. São respostas difíceis, o que é ótimo vindo de um gênero que sempre procurou pelas saídas mais convencionais. “Permissão” vem para dizer que é um alívio existir fins, porque eternidade é tempo demais para se viver junto. Que seja eterno enquanto dure, mas é natural que não dure para sempre.

NOTA: 8

  • País de origem: EUA
    Ano: 2017
    Duração: 96 minutos
    Título original: Permission
    Distribuidor: –
    Diretor: Brian Crano
    Roteiro: Brian Crano
    Elenco: Rebecca Hall, Dan Stevens, François Arnaud, David Joseph Craig, Morgan Spector, Gina Gershon, Jason Sudeikis