Um relato de amizade em um mundo individualista

Indicado ao Oscar 2019 de Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Atriz e Melhor Ator Coadjuvante, “Poderia Me Perdoar?” traz a junção de duas mulheres talentosíssimas: a diretora Marielle Heller (O Diário de Uma Adolescente) e a roteirista Nicole Holofcener (À Procura do Amor) para contar a surpreendente e real jornada de Lee Israel, uma escritora decadente que decide ganhar a vida falsificando cartas de autores renomados e vendendo a alto custo para colecionadores.

“Poderia me Perdoar?” é uma grata surpresa. Já nos primeiros minutos, o filme nos convence sobre aquela protagonista, sobre a vida miserável que leva e já nos faz torcer por ela. Sua falta de tato com os outros e sua incapacidade de aproximação, estranhamente, causa uma grande identificação em nós. Essa vontade dela em estar distante ou de simplesmente se recusar a ser o que a sociedade espera dela. Seja nas festas, no ambiente de trabalho, seja nas ruas frias de Nova York. Não há espaço para Lee Israel, que caminha solitária em busca de um aluguel pago e uma razão para viver. Mais do que forjar documentos e lucrar com isso, ela encontra ali um portal para voltar no tempo e viver, mesmo que em uma pequena carta, uma identidade que não é sua. Dessa forma, seu maior crime é também sua fuga. Não há maldade em seus atos, apenas um gosto amargo de nunca poder ganhar o reconhecimento por seus feitos. Talvez por isso sua relação com Jack Hock, interpretado por Richard E.Grant, é tão inesperadamente bela. Ele, que acaba a ajudando em seus golpes, é tão miserável quanto ela. Os dois se entendem, falam a mesma língua e estão diante dos mesmos receios. Desta divertida cumplicidade, o filme acaba por se revelar um relato delicado sobre amizade e sobre achar alguém que te entenda neste mundo cada vez mais caótico e individualista.

Muitos talentos da comédia resolveram se arriscar em um papel dramático no cinema, mas a verdade é que esta transição nunca foi tão completa e tão natural como a de Melissa McCarthy. Compreendemos, quando ela defende tão bem sua personagem, que ela é muito mais do que uma comediante, ela é uma atriz. Uma excelente atriz. Sua performance é irretocável, trilhando incrivelmente bem entre o humor sarcástico e a comoção. Sua parceria com Richard E.Grant, que surge impecável, é uma das melhores coisas que aconteceu no cinema recentemente. Como é bom ver os dois juntos em cena. Como é bom ver dois grandes atores dando vida para um texto tão rico e inteligente. Não há sequer um arco narrativo que não seja bem finalizado aqui ou um diálogo mal pensado. Tudo está em seu perfeito estado e prova o belíssimo trabalho de Holofcener como roteirista.

“Poderia Me Perdoar?” é um presente, aquelas jóias raras do cinema. Fiquei feliz por ter conhecido a jornada real de Lee Israel através de um filme tão humano, deliciosamente divertido e inesperadamente emocionante, que sabe quando e como inserir o drama. Ao fim, diante de minhas tantas lágrimas, queria entrar em cena e dizer para aqueles amáveis personagens: “vai ficar tudo bem!”. Eu amei cada segundo do que vi e isso não é algo que acontece com muita frequência. Se fosse possível abraçar um filme, no momento atual, este seria o primeiro da fila.

NOTA: 9,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2018
    Duração: 107 minutos
    Título original: Can You Ever Forgive Me?
    Distribuidor: Fox Film do Brasil
    Diretor: Marielle Heller
    Roteiro: Nicole Holofcener
    Elenco: Melissa McCarthy, Richard E.Grant, Dolly Wells

Um comentário em “Crítica: Poderia Me Perdoar?

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