Crítica | Noites Brutais

Sobre monstros e homens

Sempre fico com o pé atrás quando surgem termos exagerados e emocionados como “o melhor filme de terror do ano”. Para minha surpresa, porém, “Noites Brutais” é sim o melhor filme de terror do ano. É uma obra que me deixou em completo choque, não só por suas cenas fortes, mas também por toda sua ousadia e originalidade. Porque se recusa a ser só mais um, se transformando (e se reinventando) a cada minuto.

Sabe quando aquele filme é tão bom que dificilmente você desgruda os olhos? Pois bem, “Noites Brutais” sabe como fisgar a atenção, revelando uma trama que tem sempre uma carta na manga e está sempre a um passo à frente do público. Apesar dos exageros e da (divertida) forçação de barra, consegue fugir da previsibilidade através de seus personagens que, por vezes são bem estúpidos, mas também sabem ter boas soluções nas horas devidas. A prova de que a história não perde quando a mocinha é inteligente e corajosa, muito pelo contrário, o torna ainda mais empolgante, porque suas viradas são ainda mais saborosas.

Dividido em 3 partes, temos aqui quase que 3 filmes distintos e que, aos poucos, vão se encontrando. Essas quebras podem até causar uma estranheza, mas enriquecem sua estrutura como um todo. A trama inicia-se quando dois estranhos, em uma noite chuvosa, descobrem que alugaram a mesma casa no Airbnb. O diretor Zach Cregger já cria ali uma atmosfera de tensão fascinante, porque nunca sabemos exatamente a índole daquele hóspede misterioso ou até onde aquela desconfortável situação os levará. Aquela casa esconde outros segredos e logo somos apresentados a uma virada assustadora.

Nada é o que parece à primeira vista aqui. “Noites Brutais” brinca justamente com essas fórmulas que já desvendamos com outros exemplares do terror e as subvertem. O monstro não é o que existe de pior dentro daquela casa, assim como os homens – que estão sempre invadindo o espaço da protagonista – não são necessariamente o que seus discursos pregam. O longa, por fim, faz uma inteligente analogia à masculinidade tóxica e ao confortável mundo dos homens brancos, que atravessam limites e tem seus crimes silenciados. É brilhante esses questionamentos que o filme traz sobre quem são realmente os monstros e as vítimas dessa história e quem são aqueles que merecem a salvação ao fim da jornada.

Eletrizante, impactante e saborosíssimo! Gostei demais dos personagens, das boas saídas que a obra encontra e nessa habilidade do roteiro em renascer em todos os instantes em que ameaça cair no óbvio. A produção também é ótima, acertando nesse visual que cada um de seus capítulos possuem e no belíssimo e rico trabalho de maquiagem. Um novo passo para o jovem diretor Zach Cregger, que se torna um nome a prestarmos mais atenção. Sem ninguém esperar absolutamente nada, ele entrega não só o melhor terror, como um dos mais inventivos e divertidos filmes do ano.

NOTA: 9,0

País de origem: Estados Unidos
Ano: 2022
Titulo original: Barbarian
Duração: 102 minutos
Disponível: Star+
Diretor: Zach Cregger
Roteiro: Zach Cregger
Elenco: Georgina Campbell, Justin Long, Bill Skarsgård