Crítica | X – A Marca da Morte

O terror slasher teve seu auge nos anos 80 e tem ganhado força, novamente, ao longo dos últimos anos. “X”, desde seu lançamento, tem chamado a atenção justamente porque marca o retorno definitivo do subgênero, entregando uma produção divertida e impactando sem muitos rodeios. O diretor Ti West reúne aqui elementos necessários, desde sua ótima ambientação à sanguinolência, que tornam a experiência bastante saborosa. No entanto, não posso deixar de sentir que houve uma comoção exagerada em torno do filme. É bom e entretém, mas nada tão revolucionário como querem que ele seja.

A introdução de “X” funciona bem, preciso ressaltar. A obra reúne um grupo de jovens atores e produtores em uma fazenda na zona rural do Texas, no final da década de 80, para realizarem um filme adulto. Claro, nem tudo sai bem como planejaram e logo somos apresentados a uma virada violenta. Confesso que gosto mais do primeiro ato, quando vamos conhecendo as motivações dos personagens e a estranheza daquele local. Quando o filme revela, de fato, suas intenções, vai perdendo o brilho. Suas sequências são impactantes e até empolgam, mas sinto que ele vai caindo no lugar comum e termina com uma sensação estranha de: OK, legal. Infelizmente, é tudo tão rápido em seu último ato, que parece que faltou alguma parte importante, soando incompleto. A final girl está ali, inclusive, mas ela pouco faz para sua sobrevivência. O que há no subtexto, porém, é rico e é nele que o filme encontra seu valor.

O cinema de terror, por muitas vezes, teve essa postura de condenação ao sexo, colocando suas vitimas, ativamente sexuais, sendo punidas por seus comportamentos pecaminosos. “X” soa como uma provocação a esse movimento, colocando, principalmente, suas personagens femininas desfrutando dessa libertação e muito seguras sobre como lidam com sexo e relacionamentos. Bobby-Lynne, em uma entrega surpreendente de Brittany Snow, é o arquétipo dessa jovem promíscua ao olhar dos outros, aquela que em outros tempos, seria a primeira vítima, aquela que precisaria ser castigada. A presença de Maxine (Mia Goth) também vem para agregar nesse discurso, sendo essa mulher decidida a romper os padrões de beleza, onde nitidamente, foi reprimida por suas escolhas e precisa se manter firme nessa posição que sempre tentaram diminuir.

“X” lida muito bem com esse paralelo entre libertação sexual e conservadorismo, muitas vezes, entregando de forma literal com suas telas divididas ao meio. A morte vem como reprovação, como necessidade de manter a sociedade limpa, longe da blasfêmia dos novos tempos. Esse conservadorismo é hipócrita e causa medo ao ter como fundamento discursos religiosos. Os assassinos aqui não usam máscaras e assustam quando caminham livremente sob a luz do dia. Ainda assim, me soa bem batido a ideia de reforçar essa imagem de idosos asquerosos, como criaturas nojentas, não dignas do sexo. Entendo a intenção, mas me decepcionou logo de cara, não só por revelar seus vilões rapidamente, como por eles serem essa personificação óbvia da repulsa e o filme nunca procurar uma saída contrária a isso. Aliás, sigo sem entender a necessidade do prequel “Pearl”, visto que nem é uma personagem tão interessante assim ao ponto de ter que contar seu passado.

Muito provável que os comentários emocionados sobre a produção tenham estragado um pouco minha experiência. Encontro aqui um produto divertido, estiloso e, apesar de revitalizar o terror slasher e trazer boas atuações de todo o elenco, falta um brilho a mais, algo que o distancie de ser apenas um compilado de ótimas referências. É bom, mas incompleto. Mesmo que seja o primeiro de uma trilogia, eu termino sem a menor vontade de consumir mais histórias dentro desse universo.

NOTA: 7,0

País de origem: Canadá, Estados Unidos
Ano: 2022
Titulo original: X
Duração: 106 minutos
Disponível: –
Diretor: Ti West
Roteiro: Ti West
Elenco: Mia Goth, Kid Cudi, Jenna Ortega, Brittany Snow, Martin Henderson

Crítica | Morte Morte Morte

A fragilidade da geração Z

O terror slasher tem retornado com força no cinema e “Morte Morte Morte” vem em boa hora. É uma sátira ao gênero e que, apesar de ser bastante saborosa, principalmente pelo bom roteiro, não necessariamente vai ganhar aprovação do público que busca perseguições, assassinatos e um vilão icônico. Um filme que nunca procura por caminhos fáceis, logo, vem com muita ousadia, inovando em sua abordagem e se sustentando mesmo com sua trama anticlimática.

Esse é o primeiro roteiro de Sarah DeLappe, que usa como base aquela já conhecida reunião de adolescentes em uma festa onde tudo vai dando incrivelmente errado. Toda a ação ocorre dentro de uma casa, durante apenas uma noite. Quando os personagens passam a morrer, o texto faz bom proveito do “whodunit” e aquele mistério sobre qual deles é o intruso no meio do grupo. Esse suspense funciona e tudo flui de forma bem intrigante e divertida, principalmente quando todos os indivíduos ali claramente possuem algo a esconder.

É brilhante como tudo se inicia com o jogo “Bodies Bodies Bodies” (algo parecido com detetive). Quando alguém é “encontrado morto”, todos devem descobrir quem é o assassino. Acho fascinante quando essa brincadeira, no fim, é o que define todos os acontecimentos e sempre que uma nova vítima surge, vemos cada um deles tentando se defender e tentando provar que o outro é o provável culpado.

O filme, porém, dificilmente agradará a todos. Não só porque todos os personagens são irritantes, mas simplesmente porque ele não é o que muitos esperam de um slasher (ou de um filme cult da A24). Confesso que achei genial a virada no final e assim como em muitas sequências, me fez rir. Por vezes, um riso de nervoso, por outras, porque é engraçado mesmo. É um texto afiado e surpreendentemente divertido. Gosto bastante também do elenco, onde todos estão muito convincentes em seus papéis. O destaque fica para Rachel Sennott, extremamente surtada e incrivelmente espontânea em cena. Uma coadjuvante que brilha e se torna a alma da festa. O que me incomoda no filme, porém, é o excesso de conversa no meio da ação. Tem sempre uma discussãozinha para interromper um momento que poderia ser sempre melhor se fosse mais objetivo.

Durante o caos que se instaura e as tantas intrigas entre os falsos amigos, “Morte Morte Morte” aproveita para, além do slasher, satirizar os debates vazios da internet e essa necessidade de opinar sobre tudo. Muitas questões sociais são levantadas aqui, propositadamente superficiais, sempre no tom de “uhmm acho que o Twitter vai gostar!”. Ao fim, a obra acaba por revelar um retrato fiel sobre a fragilidade da geração Z, o narcisismo de um grupo que precisa se firmar constantemente e essa escassez de anseios, quando abraçaram o niilismo como filosofia de vida. São jovens focados demais em si, presos dentro de uma bolha, onde não conseguem enxergar que os acontecimentos são maiores do que apenas um ataque a eles mesmos. Eles são desiludidos demais para ter um propósito e, assim como a genial virada do final, pode soar cômico ao primeiro olhar, mas é só triste e deprimente.

NOTA: 8,0

País de origem: EUA
Ano: 2022
Titulo original: Bodies Bodies Bodies
Duração: 94 minutos
Disponível: Cinema
Diretor: Halina Reijn
Roteiro: Sarah DeLappe
Elenco: Maria Bakalova, Amandla Stenberg, Rachel Sennott, Myha’la Herrold, Pete Davidson, Chase Sui Wonders, Lee Pace

Crítica: Maligno

Entre o bizarro e o sofisticado

Um dos nomes mais fortes do terror atual certamente é James Wan. Depois de “Jogos Mortais”, “Sobrenatural” e “Invocação do Mal”, ele retorna com mais um produto digno de atenção. “Maligno” resgata um cinema não mais usual e vai na completa contramão do que tem sido produzido atualmente no gênero. Apesar de ter visto elogios de muitos colegas cinéfilos, confesso que não terminei de vê-lo tão empolgado como a maioria. É uma produção interessantíssima, mas a bagunça é tanta que me afastou um pouco da brincadeira que propõe.

O que é mais assustador: estar na pele da vítima ou daquele mata? É com essa mudança curiosa de perspectiva que “Maligno” fisga nossa atenção. A protagonista Madison (Annabelle Wallis) passa a ter visões de assassinatos, enquanto os assiste imóvel. Logo, ela busca entender, ao lado da irmã, como isso tem sido possível, enquanto, para uma dupla de detetives, passa a ser a principal suspeita dos crimes. O filme guarda muito bem seus mistérios, nos deixando boquiabertos quando revela suas verdadeiras intenções.

Fazia tempo que o cinema não me impactava nessa medida. É bizarro, chocante e imensamente brilhante o que James Wan nos entrega aqui. Tentei prever, mas não pude imaginar uma reviravolta tão incrível como a que ele dá. É uma pena, porém, que a produção abrace o filme B de horror corporal tão tardiamente, quando já havia gastado tempo demais tentando sofisticar o terror ou tudo aquilo que ele não era. Existe um conflito muito grande entre ser bizarro ou requintado e o diretor nunca decide o que quer ser, entregando um produto osciloso, irregular. A verdade é que eu gosto muito dessa produção que nasce ao final, mas quando olho para o todo, decepciona.

“Maligno” é uma bagunça lindamente produzida, mas sem as amarras de um bom roteiro. Há um belo trabalho de iluminação e sequências incrivelmente bem dirigidas por Wan, mas ainda assim falta um bom texto para sustentar suas boas intenções. Tanto a construção dos personagens como os diálogos são simplórios, onde às vezes até divertem pela breguice, mas também afastam pelo desleixo. Até mesmo para um filme que pretende fazer piada de si mesmo, é preciso ter um bom roteiro para a brincadeira funcionar. A gente se diverte sim, mas nem sempre pelas razões certas.

Não acho que filme de terror precisa necessariamente dar medo e também não acho que filmes precisam se encaixar em um gênero definido. É ótimo, inclusive, quando uma obra sabe dosar essa pluralidade. James Wan joga de tudo ali no meio, do terror giallo ao slasher, do thriller psicológico às tramas policiais. É uma loucura que prende a atenção, mas o cinema não sobrevive somente de referência e ousadia. Infelizmente, o longa ainda não sabe se desvincular dos tantos clichês, encerrando-se com um discurso enfadonho e sem o brilho que merecia.

Apesar dos defeitos, “Maligno” é um filme que sai da caixa e merece reconhecimento sim, e não apenas pela belíssima reviravolta que dá. Penso que é uma obra que vale uma revisita e que pode ter um novo impacto nos anos que virão. É absurdo e propõe uma nova forma de encararmos o terror.

NOTA: 7,0

País de origem: EUA
Ano: 2021

Título original: Malignant
Duração: 111 minutos

Disponível: HBO Max
Diretor: James Wan
Roteiro: James Wan, Akela Cooper, Ingrid Bisu
Elenco: Annabelle Wallis, Mckenna Grace