Crítica: A Rota Selvagem

Atalho para maturidade

O cinema sempre procura encontrar novas formas para falar sobre crescimento, sobre aquela fase complicada em que se deixa de ser adolescente e passa a encarar com mais seriedade os dilemas da vida. É o conhecido coming of age e “Rota Selvagem” vem para dar uma nova voz a este processo, seguindo um rumo nada óbvio para falar sobre um assunto comum. É um filme único, dono de uma beleza única.

Acompanhamos, então, a jornada de Charley (Charlie Plummer), um jovem que é forçado a crescer diante de inesperadas mudanças em sua vida. Após ver seu pai (Travis Fimmel) sendo gravemente ferido e ficar em coma em um hospital, o jovem decide, por não ter ninguém a quem possa pedir ajuda, buscar auxílio em um amigo recente, Del (Steve Buscemi), que cria e treina cavalos para corridas. Um desses cavalos é Lean On Pete – que dá nome ao título – que está fraco e pode ter seus dias contados. Nessa fragilidade e fim iminente do animal, Charley sente uma grande afinidade por ele, nascendo ali uma amizade e uma necessidade de proteção, de ambas as partes.

O que difere a obra é que ela está constantemente saindo do lugar comum, sempre seguindo um caminho que não suspeitávamos previamente. Quando o protagonista parece atingir sua zona de conforto, o roteiro o obriga a construir uma nova jornada. Desta maneira, “A Rota Selvagem” é dividido em alguns capítulos e, ainda que o cenário e as situações se alterem, mal percebemos essas transições tamanha a naturalidade com que apresenta cada fase. São vários personagens que vão entrando em cena, quase como atos com começo, meio e sem nunca apresentarem um fim, como um ciclo em movimento. O fascínio do filme está nesta trajetória costurada por etapas não planejadas, justamente como nossa vida é: imprevisível. O lado bom disso é que nunca sabemos o rumo que a história irá tomar e sempre somos surpreendidos por um novo início. O lado ruim é que os capítulos não possuem a mesma força, oscilando e nos fazendo perder o interesse em determinadas passagens. O elenco é bom e segura a qualidade, passando na tela nomes como Steve Buscemi, Chloë Sevigny e Steve Zahn.

O diretor Andrew Haigh, que já havia entregado outros bons trabalhos como “Weekend” e “45 Anos”, volta a oferecer uma obra singela, sensível e incrivelmente bem filmada. Suas sequências são belas e são enaltecidas pela fantástica fotografia. Claro que nada disso seria possível sem a potente performance de Charlie Plummer. É um papel que requer entrega e ele surpreende, ainda mais por ser tão jovem no cinema. É muito bom o que Plummer entrega, seus diálogos com Pete são delicados e enche a tela com honestidade. Sem uma explosão comum em filmes do gênero, conseguimos sentir o peso do mundo em suas costas apenas com suas expressões. “A Rota Selvagem” comove com suas sutilezas, com este poder de emocionar sem grandes esforços. Mais do que uma jornada de maturidade, temos aqui um road movie sincero e encantador, que revela com graciosidade essa busca por proteção, por abrigo, por não se sentir tão sozinho nesse mundo tão cheio de nada.

NOTA: 8

  • País de origem: França, EUA, Irlanda do Norte, Reino Unido
    Ano: 2017
    Duração: 121 minutos
    Título original: Lean on Pete
    Distribuidor: Diamond Films
    Diretor: Andrew Haigh
    Roteiro: Andrew Haigh
    Elenco: Charlie Plummer, Steve Buscemi, Chloë Sevigny, Travis Fimmel, Steve Zhan, Lewis Pullman

Crítica: A Arte de Ser Adulto

O agridoce da vida adulta

Pete Davidson é um jovem ator conhecido por suas sketches do Saturday Night Live. Ele veste com perfeição esse conceito do adulto que não abandonou a adolescência, desajeitado e despreocupado. O filme “The King of Staten Island” lhe dá o palco para brilhar e espaço para expor sobre si, sobre sua jornada peculiar, sobre sua dor pessoal. Davidson, que também assina o roteiro, revela de forma bastante honesta sua relação com o pai, bombeiro que morreu no 11 de setembro. Logo, sua parceria com o cineasta Judd Apatow não poderia ter sido mais certeira. Ele, que veio de outras tantas comédias, sempre soube muito bem construir essas obras que usam do humor para relatar algo tão melancólico. Sua escrita é agridoce e emociona quando não tem pretensão.

The King of Staten Island” faz um recorte na vida de Scott Darlin, o alter ego de Davidson, e nesta sua fase de transição, de amadurecimento tardio. Aos vinte e quatro anos, ele mora com a mãe, não tem emprego e passa suas horas fumando com seus amigos. Não se compromete com absolutamente nada, nem mesmo em seus relacionamentos e hobbies. Ele, que sofre de alguns distúrbios psicológicos, sempre foi alvo de preocupação a todos ao redor, logo que nada o faz seguir em frente, estagnado desde a morte do pai. Sua vida acaba perdendo as estruturas quando sua irmã mais nova (Maude Apatow) vai para a faculdade e sua mãe (Marisa Tomei) passa a se relacionar com outro homem. Toda a situação é narrada de forma cômica e ganha graça pelo carisma de seus tantos personagens. O humor, porém, vem quase como um escape à melancolia existente em cada instante do filme.

É incômodo assistir essa persona tão autodestrutiva, que se diminui o máximo que pode para não ter que arcar com qualquer consequência. Que não vê perspectiva para o futuro e que se protege dentro do caótico universo que criou para si. O filme narra o limite dessa situação, o instante em que ele é forcado a dar um outro tipo de passo, a aceitar outra coisa em sua vida além da dor. Nesse sentido, é belo a jornada do protagonista. Encanta pela sensibilidade e honestidade de cada relato, de cada discurso, de cada relação ali mostrada. Todos os personagens em cena parecem exigir algo novo em Scott, não por pressão, mas por todos acreditarem no brilho existente naquela alma que somente ele não vê. O roteiro é brilhante e mantém o alto nível por seus longos 137 minutos. Há esperteza e originalidade em seus bons diálogos, que nos fazem criar uma afeição a esses indivíduos. Ajuda, claro, ter um elenco tão afinado como este. Destaque para Marisa Tomei e a jovem Bel Powley, que estão fantásticas em cena.

A primeira sequência da obra revela esse estado perturbado do protagonista, de olhos fechados, pronto para ser esmagado. A última, em contrapartida, Scott caminha sem rumo e avista um horizonte cheio de possibilidades. “The King of Staten Island” é mais do que o renascimento e amadurecimento do personagem, é o espaço onde um artista usa para superar seus traumas, expor os tantos fantasmas que guarda dentro de si. Até mesmo a canção escolhida para finalizar o longa – “Persuit of Happiness” do Kid Cudi – foi a que ajudou o ator a superar sua depressão. O filme em si já é bastante delicado mas ganha tons mais profundos quando traçamos um paralelo com a vida do ator. É, de certa forma, fácil criar empatia pelas reflexões que deixa, desse sentimento de fracasso quando se chega à fase adulta, quando se tem a mesma idade daqueles que estão vencendo. E ainda que seja um produto muito íntimo, Judd Apatow revela tudo com seu olhar peculiar, não deixando de fazer seu próprio cinema, entregando um filme que se encaixa perfeitamente dentro de sua filmografia, dentro dos temas que sempre debateu. Confesso que senti uma conexão muito grande com tudo o que vi e fiquei devastado por toda a honestidade e sentimentos expostos. Nem sempre a comédia tem esse poder. Mas essa não é uma comédia qualquer e esse não é um filme qualquer.

NOTA: 9

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Duração: 137 minutos
    Título original: The King of Staten Island
    Distribuidor: Apple TV
    Diretor: Judd Apatow
    Roteiro: Pete Davidson, Judd Apatow, Dave Sirus
    Elenco: Pete Davidson, Bill Burr, Marisa Tomei, Bel Powley, Maude Apatow, Steve Buscemi