Crítica: A Última Carta de Amor

As relações de um outro tempo

Enquanto assistia “A Última Carta de Amor”, título recente da Netflix, fiquei me questionando em como filmes como esse se tornaram raridade. Sim, talvez ele tivesse feito um sucesso enorme lá nos anos 2000, mas que bom que ele veio agora, quando o cinema pouco fala sobre paixão. Baseado no livro de Jojo Moyes, temos aqui algumas ideias recicladas de obras como “Cartas para Julieta”. Ainda que nada seja muito novo, é aquele clichê bem contado, que funciona pelo capricho da produção e o charme irresistível do elenco.

A graça da história é que ela acontece em dois tempos diferentes. No presente, a jornalista Ellie (Felicity Jones), ao buscar arquivos na editora em que trabalha, descobre antigas cartas correspondidas entre dois jovens apaixonados e decide pesquisar o que aconteceu com essa história de amor não concretizada. Essas cartas são da década de 60, quando Jennifer (Shailene Woodley), que infeliz no atual casamento, passa a flertar com o escritor Anthony (Callum Turner).

Ainda que a narrativa flua bem entre as épocas diferentes, é inegável a atenção dada à trama do passado, que se torna muito mais instigante, principalmente à química existente entre Shailene e Callum, que estão ótimos em cena. No presente, não apenas a relação entre a jornalista e o arquivista não convence como falha ao transformarem os dois em alívio cômico. No mais, é válido essa reflexão sobre o papel da comunicação nas histórias de amor. Hoje, cartas viraram relíquias de um registro fascinante do tempo. Neste mesmo presente, dependemos de mensagens vazias, emojis e tiques azuis para manter contato com alguém que desejamos mas pouco sabemos como dizer, como se expressar.

A direção é de Augustine Frizzell, responsável pelo piloto da série “Euphoria”. Envolvente e sedutor, ela entrega um produto charmosíssimo, com belos figurinos e locações. É raro porque não tem vergonha do clichê, do romance e abraça tudo isso com muito cuidado e carinho por sua bela história de amor. Me deixou com um sorriso no rosto e um sentimento muito bom no peito.

NOTA: 8,0

País de origem: EUA
Ano: 2021

Título original: The Last Letter From Your Lover
Disponível: Netflix
Duração: 110 minutos
Diretor: Augustine Frizzell
Roteiro: Esta Spalding, Nick Payne
Elenco: Felicity Jones, Shailene Woodley, Callum Turner, Nabhaan Rizwan, Joe Alwyn

Crítica: O Mauritano

Memórias da dor

Não é de se espantar o porquê “O Mauritano” não tenha feito sucesso nas premiações deste ano. Não que o filme seja ruim, bem pelo contrário, mas porque ele vai complementarmente na contramão desse cinema “pós 11 de setembro” que os americanos gostam de ver (ou de fingir que acreditam). Poucas vezes, nesse período, me deparei com uma produção tão corajosa em seus discursos e tão consciente sobre o papel do governo Bush-Obama e dessa desastrosa campanha da “guerra ao terror”.

A prisão secreta de Guantánamo, localizada em Cuba, foi a saída do Governo dos Estados Unidos em manter em detenção qualquer suspeito de envolvimento com o terrorismo. É uma grande atrocidade e, justamente por isso, torna este filme tão necessário, por escancarar a crueldade e manter viva essa lembrança dolorosa que não deve ser ignorada. Baseado no livro “Diário de Guantánamo”, escrito a mão pelo mauritano Mohamedou Slahi enquanto esteve preso, o longa narra a jornada deste homem comum que ficou encarcerado durante 14 anos sem ter cometido crime algum.

O roteiro é bem pontual, jamais perdendo o foco ou o interesse do público diante dos acontecimentos. A trama se dá início quando o caso de Slahi vai parar na justiça, em um interessante embate entre a advogada de direitos humanos, vivida pela ótima Jodie Foster, e o Governo, que precisa, a qualquer custo, encontrar algum culpado. Essa trajetória acaba por questionar essa justiça impiedosa, que precisa ver alguém pagando pelo o que fez. A ausência de provas, a busca por respostas, tudo vai criando um ambiente sufocante dentro da obra, que nos deixa inquietos e desesperados por alguma solução.

O diretor Kevin McDonald opta por revelar as lembranças do acusado em um formato mais fechado, intensificando esse sentimento de aprisionamento. Ainda que esses flashbacks não funcionem tão bem dentro da narrativa, “O Mauritano” entrega um registro necessário e ousado ao revelar as torturas, o assédio, a violência e tudo o que se manteve, por tantos anos, em silêncio. Desse Governo que usa o medo como controle. Poucas vezes, aliás, ler os letreiros finais de um filme doeu tanto. É, de fato, angustiante e revoltante.

No mais, vale destacar as ótimas atuações do elenco. Jodie Foster é aquela atriz que aparece pouco no cinema, mas quando aparece entrega o seu melhor. Tahar Rahim está fantástico também. É bela essa conexão que vai sendo construída entre os dois personagens. Dela que precisa acreditar na inocência do acusado e ele que precisa acreditar na humanidade dela, diante desse mundo que só lhe trouxe dor.

NOTA: 9

País de origem: EUA, Irlanda do Norte, Reino Unido
Ano: 2021
Título original: The Mauritanian
Disponível: Net Now
Duração: 129 minutos
Diretor: Kevin Macdonald
Roteiro: Michael Bronner, Rory Haines, Sohrab Noshirvani
Elenco: Jodie Foster, Tahar Rahim, Benedict Cumberbatch, Shailene Woodley, Zachary Levi