Crítica: Quo Vadis, Aida?

A tradução desumana

Indicado ao Oscar, neste ano, na categoria de Melhor Filme Internacional, “Quo Vadis, Aida?” é um drama que mexe com os nervos do público. É difícil sair ileso por tudo o que nos apresenta. Dirigido por Jasmila Zbanic, o longa relembra um dos atos mais violentos da Guerra Civil iugoslava, durante os conflitos entre as Nações do Leste Europeu ao início da década de 90. Mais especificamente quando o exército Sérvio invade as fronteiras da Bósnia.

Nossa corajosa protagonista, Aida, está no meio do fogo. Ela atua como tradutora de um campo de refugiados da ONU e entra em desespero quando todos os cidadãos da pequena cidade de Srebrenica são forçados a deixarem suas casas. Além de lidar com a burocracia da organização, Aida passa a lutar com todas as suas forças pela segurança de sua família, que está no meio dos desabrigados. É curioso tê-la como tradutora neste cenário desolador, sendo obrigada a ser voz de um conflito em que ela também é uma vítima, precisando ser clara quando a tradução é apenas sem lógica e desumana.

“Quo Vadis, Aida?” é, acima de tudo, a dolorosa trajetória de uma mulher, consciente de um possível massacre, em salvar aqueles que ama. Aqueles que protegeria com sua alma. A diretora entrega um filme devastador, dilacerante, nos fazendo acompanhar cada passo da protagonista e sentir esse desespero da impotência. A impotência diante de um genocídio, diante do silêncio daqueles que não podem ajudar. É sufocante a frieza e descaso como tudo é guiado e como tantas vidas são tratadas. Há medo e tensão em cada segundo dessa jornada, nos deixando sem chão e sem ar ao seu fim.

Nada é tão cruel quanto a realidade e o longa nos relembra de maneira dolorosa um episódio da história que jamais deve ser esquecido. Como cinema, temos aqui um exercício narrativo primoroso, repleto de sensações e que facilmente nos causa impacto. É tudo incrivelmente bem guiado pela diretora e pela potente atuação da atriz Jasna Đuričić.

NOTA: 9,5

País de origem: Bósnia
Ano: 2020
Duração: 102 minutos
Diretor: Jasmila Zbanic
Roteiro: Jasmila Zbanic
Elenco: Jasna Djuricic
, Dino Bajrovic

Crítica: Judas e o Messias Negro

Os bastidores da revolução

É um momento relevante que nasce “Judas e o Messias Negro”. O longa, que marca a ótima estreia do diretor Shaka King, vem para reforçar tantos discursos em pautas atuais, como os do movimento Black Lives Matter. Mesmo em uma trama que se inicia lá no final da década de 60, traz grandes reflexões sobre desigualdade social, racismo e sobre a corajosa luta dos negros ao longo dos anos.

O filme traz uma estrutura já comum no cinema, a do infiltrado que se fascina por seu alvo. Ainda assim, o roteiro empolga e costura um suspense hipnotizante, principalmente pelas ótimas atuações do elenco e pela complexidade de sentimentos entregues ali. Logo ao início somos apresentados ao Messias Negro, Fred Hampton (Daniel Kaluuya), o ativista e líder do Partido dos Panteras Negras. Grande orador, seus discursos poderosos recrutam e inspiram jovens negros, que se unem dedicados a libertação de pessoas oprimidas. Esse idealismo chama a atenção do FBI, que o encara como um grande inimigo da Segurança Nacional, o que faz com que um agente (Jesse Plemons), use William O’Neal (Lakeith Stanfield), um ladrão de carros, como informante dentro dessa organização. A partir desse momento, acompanhamos a ascensão de Hampton na política e esta relação que nasce entre ele e o novo membro infiltrado.

“Eu sou um revolucionário”. A sequência que revela o poderoso discurso de Hampton é o grande momento do filme, que sintetiza bem esse poder que alcança. Não apenas revela a força das atuações de Daniel Kaluuya e Lakeith Steinfeld, como indica um ponto importante e de ruptura ali. É o momento em que O’Neal revela traços mais complexos, revelando-se um indivíduo bastante intrigante, que passa a confrontar sua necessidade de sobreviver com suas crenças. Ainda que Lakeith seja brilhante, o palco acaba ficando com Kaluuya, que se entrega em cena, transitando com perfeição entre a força e a fragilidade, entre a coragem e a introspecção. É seu grande momento. Curiosamente, ambos foram indicados como coadjuvantes no Oscar. Merecido, mas isso também aponta algo que senti falta na obra: o personagem central, que fosse nosso olhar dentro das situações. Esse elemento diminui um pouco o filme, logo que tudo nos é revelado com certa distância, como se assistíssimos de longe, sem se aprofundar no íntimo de nenhuma dessas figuras tão emblemáticas. Vale destacar, também, a atriz Dominique Fishback que está incrível e sua personagem traz ainda mais profundidade à trama e essa reflexão sobre quais são os motivos de Fred tem para sobreviver, qual o legado que sua luta deixará.

A condução de Shaka King é bastante segura e mantém o bom nível. A ótima trilha, os figurinos e toda esta belíssima ambientação nos levam de volta aos anos 60. A produção conversa bastante com o recente “Infiltrado na Klan” de Spike Lee, mas confesso que gosto bem mais desse. Encerro dizendo, que os letreiros finais vem como um grande soco no estômago. Apesar de trazer uma narrativa que já conhecemos, a realidade ao fim vem como choque. É uma história triste, revoltante e que causa um grande impacto em nós.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2021
    Título original: Judas and The Black Messiah
    Duração: 126 minutos
    Diretor: Shaka King
    Roteiro: Shaka King, Will Berson
    Elenco: Daniel Kaluuya, Lakeith Stanfield, Jesse Plemons, Dominique Fishback, Algee Smith