Crítica | O Grande Ivan

Por uma realidade melhor

Lançado no Disney+, “O Grande Ivan” é uma adaptação do livro infantil de Katherine Applegate, que por sua vez, é inspirado na história real do Gorila que viveu, ao longo de 27 anos, sozinho em um shopping beira-de-estrada, onde era a estrela principal de um circo.

Ivan é a grande atração deste evento. Ele tem bom coração, mas precisa ser assustador para conquistar novos ingressos. Divide este espaço enclausurado com outros animais cansados. Até que a chegada de uma pequena elefante o faz refletir se ali é realmente o lugar para todos eles e começa a elaborar seu plano de fuga.

Existe um tom melancólico que ilustra todo o filme. A voz espaçada dos personagens, a tristeza e desesperança de cada um deles. Eles vivem sem saber o que existe do lado de fora, mas precisam encontrar uma motivação para sonhar com essa possibilidade. É bonito toda essa trajetória e não foi à toa que deram este projeto nas mãos da cineasta Thea Sharrock, depois do sucesso de “Como Eu Era Antes de Você”. Há um cuidado imenso com esses tantos sentimentos e nos cativa, nos encanta. Mike White é um grande roteirista também e aqui ele realiza um belo trabalho. É sensível essas relações que costura, humanizando esses bons personagens. É um filme que eu, definitivamente, gostaria de ter visto quando criança. Apesar da simplicidade, é tão bem escrito que facilmente nos carrega junto, nos faz embarcar nesta fantasia, digna dos bons e antigos filmes da Disney.

Os efeitos especiais aqui, indicados ao Oscar neste ano, espantam pelo alto nível de qualidade. É um trabalho magnífico que coloca animais e seres humanos no mesmo espaço e em ambientes reais. É tudo tão bem feito que nem estranhamos o fato dos animais falarem, já que é um artifício não mais usual no cinema. Inclusive, a dublagem do elenco original é incrível. “O Grande Ivan”, porém, romantiza um final que não é tão feliz quanto o próprio filme acredita, o que soa inocente demais ou que se esquiva de um assunto ainda maior. É triste quando pensamos nesses “Ivans” que existem por aí e nesses animais enclausurados para o entretenimento humano. Ainda assim, entendo que, ao falar diretamente com crianças, esse tom de otimismo e esperança é necessário.

Os humanos gostam de colocar os outros em uma caixa e quando ousamos sair dessa caixa, somos considerados uma ameaça. Interessante quando a criança é a única a entender os desenhos de Ivan, porque ela representa justamente como os pequenos possuem esse dom de entender os outros ou de não ver essa maldade doutrinada pelos mais velhos. O Grande Ivan entende que precisa existir um mundo melhor quando se depara com um filhote. Não é porque sua realidade funcionou até ali que ela precisa funcionar para os mais pequenos. Eles estão crescendo e, definitivamente, possuem a sensibilidade de entender as modificações do mundo que, às vezes, os próprios adultos evitam enxergar. Eles estão crescendo e merecem um futuro melhor, que há de vir.

NOTA: 7,5

País de origem: EUA
Ano: 2020
Título original: The One and Only Ivan
Duração: 95 minutos
Disponível: Disney+
Diretor: Thea Sharrock
Roteiro: Mike White
Elenco: Sam Rockwell, Bryan Cranston, Danny DeVito, Angelina Jolie, Ariana Greenblatt

Crítica: Um Estranho no Ninho

A falsa liberdade

“Um Estranho no Ninho” é, com certeza, uma obra fantástica, atemporal, que sobreviveu durante todos esses anos e tem potencial para se manter na memória daqueles que assistem. Baseado no livro de Ken Kesey e produzido pelo ator Michael Douglas, o longa nos apresenta Randle McMurphy (Jack Nicholson), um cara preguiçoso e que devido a alguns surtos de agressão, é retirado da prisão, da qual já havia passado várias outras vezes, para ser tratado e observado em um sanatório. Ciente de que não possui problemas mentais, McMurphy passa a usar o local para desfrutar de sua liberdade, ser o louco que eles procuram, além de incentivar e persuadir seus colegas internos a ir contra à ordem vigente, questionar os medicamentos e a rotina que levam ali dentro. No entanto, seus atos revolucionários se chocam com o pensamento conservador da enfermeira Mildred Ratched (Louise Fletcher), que não pretende facilitar a jornada de McMurphy no local.

Um filme grandioso! Começa tímido, mas ao seu decorrer acaba alcançando momentos épicos. O diretor Milos Formam nos entrega grandes sequências, nos faz navegar por diversas sensações e ao seu término, nos deixa sem chão com seu final impactante. Ele consegue criar uma ambientação incrível, nos fazendo parte daquele sanatório e criando um forte vínculo com seus carismáticos personagens. No entanto, ainda que o brilhante roteiro construa tão bem este ambiente amigável, não nos impede de sentir uma constante dor por todos eles, por cada situação, pela trajetória de McMurphy e esta noção distorcida que todos tem sobre liberdade. É bem curioso o instante em que o protagonista descobre que os internos estão lá por opção e começa a instigá-los a fugir, a buscar a liberdade que ele acredita ter alcançado, a de ser são e poder agir como um louco. E ainda que alguns pacientes estejam lá por opção, precisam seguir às regras, precisam compreender o que é ser normal, ou o que seus superiores dizem o que é ser normal. É então surge este anti-herói, que passa a ser a voz, o líder, que passa a ser os olhos e a mente, que passa a ser o caos no meio da ordem.

Vencedor do Oscar por sua atuação, Jack Nicholson está simplesmente irretocável como protagonista. É difícil imaginar outro ator a compor Randle. Todas as nuances de seu personagem, aquela loucura, o humor, a irreverência e o carisma, com certeza, um dos melhores momentos de Nicholson no cinema. Entre os coadjuvantes vemos rostos, hoje conhecidos, mas na época estavam em começo de carreira como Danny Devito e Christopher Lloyd. Destaque para a grandiosa atuação de Brad Dourif, que interpreta Billy e Louise Fletcher, que entrega uma performance de peso, conseguindo ao mesmo tempo ser sóbria, calma e ainda possuir um ar um tanto quanto enigmático, maligno. Não posso deixar de citar o personagem Chief, interpretado por Will Sampson, onde sua relação com McMurphy, marca um dos grandes momentos do filme.

Com um roteiro cuidadoso e muito bem escrito, Milos Formam realiza um filme magnífico, repleto de sequências memoráveis, sabendo dosar com perfeição os momentos leves com os mais impactantes, chegando ao ponto de nos emocionar profundamente. O longa ainda conta com uma excelente trilha sonora, composta por Jack Nitzsche. Acredito que o que faz de “O Estranho no Ninho” ser tão comovente é por este conceito de liberdade que relata, tão próximo ao que temos no nosso dia-a-dia, e por isso, talvez, que a obra sobreviveu ao tempo. É sobre esta noção falsa que temos de ser livres, onde vivemos num mundo onde escolhemos nossos rumos, nossos empregos, nossos pertences, sem nos darmos conta de que estamos seguindo uma ordem “superior”, uma trajetória já predestinada. Estamos seguindo esta normalidade, este padrão.

NOTA: 9,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 1975
    Duração: 133 minutos
    Título original: One Flew Over the Cuckoo’s Nest
    Distribuidor: –
    Diretor: Milos Forman
    Roteiro: Lawrence Hauben, Bo Goldman
    Elenco: Jack Nicholson, Brad Dourif, Louise Fletcher, Danny DeVito, Christopher Lloyd, Will Sampson