Os 15 melhores atores de 2022

Continuando com a retrospectiva de 2022, venho apresentar os meus atores favoritos do ano.

Tivemos algumas grandes revelações de atores novatos, como também tivemos a chance de ver alguns veteranos brilharem novamente. Foi um ano bem interessante para as atuações masculinas, o que tornou bem difícil fechar essa lista em apenas 15 nomes.

Espero que gostem dos selecionados e comentem qual foi a favorita de vocês!

Lembrando que selecionei atuações apenas de filmes lançados entre janeiro e dezembro de 2022 aqui no Brasil, no cinema ou VOD, independente do lançamento original.

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15. Vincent Lindon
(Titane)

“Titane” é um filme bem maluco e precisava de um excelente ator para fazer essa insanidade funcionar. Vincent interpreta Vincent, um homem que injeta esteróides para salvar seu corpo do envelhecimento, enquanto luta pela dor de ter perdido um filho no passado. É um personagem ferido e que externaliza suas dores através de sua força e fúria. Uma performance marcante de um grande ator.

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14. Justin Chon
(Blue Bayou)

Justin também escreve e dirige o drama “Blue Bayou”, o que torna sua atuação ainda mais interessante. Ele é incrível em todas as funções que ocupa aqui e prova ser um talento a ser descoberto. É nítido o quão pessoal é esse projeto para o ator, que entrega muita honestidade em todos os seus dolorosos discursos. O final é arrebatador e ele nos destrói.

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13. Alexander Skarsgård
(O Homem do Norte)

Confesso que eu sempre esqueço que o Alexander é um grande ator. Toda vez que ele ressurge eu penso: “Ah, verdade! Ele atua muito bem mesmo”. Talvez porque ele já tenha se metido em projetos duvidosos, mas quando ele tem a chance de fazer algo realmente bom, o cara se destaca. Em “O Homem do Norte”, ele nos revela toda a garra de seu bravo protagonista, atormentado pelo passado, sedento por vingança. Sua presença é forte e nos carrega ao seu lado nessa jornada violenta.

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12. Peter Dinklage
(Cyrano)

Peter já havia dado vida a Cyrano nos palcos e agora tem a chance de mostrar ao grande público o carinho que tem pelo personagem. Um homem que, por acreditar não ser digno do amor, se esconde nas cartas que envia à sua donzela, fingindo ser outra pessoa e vivendo sempre distante da felicidade. Além de revelar ser um excelente cantor, afinal estamos falando de um musical, Peter faz de Cyrano uma figura adorável e apaixonante. Deposita ali muito sentimento e facilmente nos emociona.

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11. Dev Patel
(A Lenda do Cavaleiro Verde)

Gawain não tem nada de herói e é justamente isso que torna sua jornada tão interessante. Distante da bravura e lealdade que sempre lemos nas histórias sobre a Távola Redonda, ele é covarde, fraco e cheio de dúvidas. Ele é humano. Dev Patel faz de Gawain um indivíduo estranhamente fascinante, que caminha sempre atormentado por suas escolhas, pelo peso de ser quem é, receoso sobre o que o futuro lhe aguarda. 

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10. Oscar Martínez
(Competição Oficial)

No meio da insana e divertida metalinguagem de “Competição Oficial”, o ator argentino Oscar Martínez brilha como o ator Iván Torres, um renomado astro do cinema que precisa encarar um excêntrico ensaio para seu novo filme. Nesse tempo ele precisa se desconstruir e se desprender de seu enorme ego. Oscar nos convence ser essa persona amarga e obcecada pela perfeição. Um grande personagem entregue a um grande ator. Não poderia dar errado.

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9. Denzel Washington
(A Tragédia de Macbeth)

O veterano Denzel Washington tem a chance de ouro aqui. É aquele papel do sonho de qualquer profissional e ele agarra com bravura, estando sempre a altura do difícil texto que proclama. Como Lorde Macbeth, o ator nos relembra o tamanho de seu talento e fazia tempo que ele não tinha uma oportunidade tão rica como esta.

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8. Felix Kammerer
(Nada de Novo no Front)

É bastante desesperador acompanhar a guerra pelos olhos do soldado Paul. Se de início, ele é apenas um jovem sonhador, acreditando estar agindo como herói, assim que pisa nas trincheiras destroçadas, sua expressão se apaga. Felix entrega uma atuação brutal, intensa e que acaba dizendo muitos com seus olhares.

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7. Paul Mescal
(Aftersun)

Eu diria que é impossível não se envolver com o Paul Mescal em “Aftersun”. Impossível não ficar com ele na mente, muito tempo depois que o filme termina. Seu personagem nos envolve e, ao fim, nos faz revirar tudo o que vimos para tentar entendê-lo melhor, buscar detalhes que nos passaram despercebidos. É como se ele fosse próximo de nós. Um ente querido, um amigo do qual recordamos com carinho. Uma performance muito singela, comovente. Paul é uma revelação.

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6. Javier Bardem
(O Bom Patrão)

Me vi com um sorriso nervoso enquanto assistia “O Bom Patrão”. É um retrato poderoso e extremamente atual sobre o mundo corporativo. Como chefe de uma fábrica de balanças, Javier nos faz sentir um turbilhão de emoções. É uma mistura de asco e raiva, mas também de admiração por ver um ator veterano tão entregue e tão à vontade no papel. É desconfortavelmente cômico, real e ele nos fisga. Ele faz aqui um protagonista incomum, onde nos deixa vidrados por suas ações inescrupulosas e torcendo por sua desgraça.

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5. Amir Jadidi
(Um Herói)

“Um Herói” atacou a minha ansiedade. A obra nos faz sentir sentimentos diversos diante de sua trama que corre como se a qualquer minuto uma bomba pudesse explodir. A poderosa presença de Amir Jadidi faz dessa experiência ainda mais intensa e emotiva. Há algo de muito único em seu olhar e sua postura. Ele é um cara comum, querendo recuperar sua vida depois de ser preso injustamente. Seu sorriso de alguém que quer sempre acreditar no melhor nos golpeia com força. Uma atuação delicada e extremamente humana.

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4. Antonio Banderas
(Competição Oficial)

Bandeira dá vida a Félix Rivero, um astro do cinema que está prestes a lançar um novo filme. Ele tem uma reputação a zelar e um método de atuação nada convencional. Banderas está à vontade no papel e nos diverte. Ele explora muito bem todas as possibilidades aqui e entrega uma performance espetacular. O monólogo dele quando inventa sofrer de uma doença terminal é de arrepiar.

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3. Stephen Graham
(O Chef)

“O Chef” tem um roteiro eletrizante que não nos permite escapar nem por um segundo. Ficamos ali vidrados por cada passo dos atores, isso porque é filmado em um único take. É um desafio e tanto para o britânico Stephen Graham que não se pode dar o luxo da falha. É ele quem nos guia pelos espaços de um restaurante, vivendo a pressão de uma noite de trabalho. Ele precisa segurar os ânimos de todo mundo, manter aquele lugar de pé e ainda enfrentar seus tantos medos internos. Ele é um furacão.

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2. Franz Rogowski
(Great Freedom)

Um dos personagens que mais comoveram em 2022. Franz é um ator brilhante e me fez querer, a todo momento, entrar ali na tela e abraçá-lo e dizer que vai ficar tudo bem. Ele interpreta Hans, que em uma Alemanha pós-guerra, é repetidamente preso ao longo dos anos por ser homossexual. Um papel poderoso e que representa tantas histórias silenciadas. Me vi com os olhos marejados e com o coração apertado diante de sua presença. É belo e único o que ele faz aqui.

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1. Austin Butler
(Elvis)

Desde que vi as imagens e posteriormente o trailer, em nada Austin me convencia que poderia ser o Elvis Presley. Não só por não parecer fisicamente com o ícone da música, mas algo não encaixava. Ao final do filme eu estava trêmulo, simplesmente hipnotizado por aquela performance. É muito difícil fazer o Elvis porque ele é uma figura excêntrica e já foi alvo de muitas imitações. Distante de qualquer caricatura, Austin traz verdade. Traz sentimento. Não apenas pela voz e por seu rigoroso trabalho corporal, mas também por sua energia, por sua presença que ocupa os espaços e que nos faz acreditar, durante aqueles preciosos minutos, de que sim…ele é o Elvis.

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E para você? Qual foi o melhor ator de 2022?

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Crítica | Aftersun

Memória ferida

Demorei para conseguir escrever algo sobre esse filme, tamanho o baque que levei. Nenhum outro que vi em 2022 me despertou o que esse aqui conseguiu. Debute de Charlotte Wells na direção de um longa-metragem, ela realiza um cinema que transcende, que nos leva para um lugar imensamente íntimo, doce e, ao mesmo tempo, tão obscuro e doloroso. “Aftersun” terminou e me deixou paralisado, em completo estado de catarse. 

A verdade é que nada nos prepara para onde este filme chega. Talvez ele seja até maior do que a diretora pretendia ao início. Enquanto grande parte da projeção, estamos lidando com as férias de verão e o relacionamento entre uma filha, Sophie (Frankie Corio) e seu pai Calum (Paul Mescal), ao decorrer entendemos que se trata de uma história de reconciliação, de memória e luto. A trama toda acontece com uma leveza natural, entre conversas e situações corriqueiras. A grande potência aqui é que grande parte desses momentos são registrados com uma câmera durante a viagem. E esses instantes, congelados pelo tempo, ganham novos significados no futuro. 

“Aftersun”, então, é guiado pelo olhar de Sophie, já adulta, revisitando as lembranças com seu pai, durante suas férias na Turquia. É brilhante como a primeira aparição dela é pelo reflexo de uma TV e muito do que a diretora nos revela é uma imagem distorcida da realidade. Muito provável que ela, na fase atual, tenha a mesma idade de seu pai, durante os vídeos que assiste. Existe aqui uma metalinguagem fascinante, pois é como se Charlotte Wells estivesse ali, revivendo sua própria vida e usando da arte para expurgar o que antes estava preso. E é aqui que a obra vai além. Essa revisita que Sophie faz é muito mais do que para reencontrar aquela lembrança intocável, mas para abraçar aquela dor do passado, que só a idade a faz entender. 

Eu poderia simplesmente viver dentro desse filme, de tão adorável que ele é. As cenas entre os protagonistas são de uma ternura que inunda a alma. Gostoso demais ver Paul Mescal dividindo a cena com a jovem e talentosíssima Frankie Corio. Toda essa atmosfera dos anos 90 também é lindamente arquitetada pela produção, que nos faz voltar ao tempo e nos colocar ali dentro, compartilhando daquelas sensações e sentimentos. A trilha musical, que vai de David Bowie, R.E.M. e Blur, ajudam ainda mais nessa fantástica imersão. 

Dito isso, eu nunca mais irei ouvir a clássica “Under Pressure” da mesma forma. O que Wells constrói naquele momento não tem palavras para descrever. O final de “Aftersun” é um abraço entre presente e passado. Entre a memória ferida e a memória, enfim, compreendida. Esse instante é dolorosamente impactante e ecoa em nós. E é quando a diretora nos propõe o exercício de revirar o que acabamos de assistir e buscar os indícios que nos passaram despercebidos. O resultado dessa experiência é algo difícil de esquecer. Uma obra que me comoveu profundamente e me fez perguntar quando foi a última vez que vi um filme tão bom quanto este, porque ele faz tudo o que foi lançado recentemente parecer tão menor e insignificante. 

NOTA: 10

País de origem: Estados Unidos, Reino Unido e Irlanda do Norte
Ano: 2022
Duração: 96 minutos
Disponível: Mubi
Diretor: Charlotte Wells
Roteiro: Charlotte Wells
Elenco: Frankie Corio, Paul Mescal