Crítica: Amizade Adolescente

A geração que cansou de tentar

Um dos filmes que eu mais curti ano passado foi “A Arte de Ser Adulto”, estrelado por Pete Davidson, obra que traça um interessante paralelo com esse “Amizade Adolescente”, protagonizado pelo mesmo ator. Ele, novamente, personifica esse jovem adulto sem perspectivas sobre o futuro, estagnado no vazio que construiu para si. Também narrado com muito humor, o longa é agridoce ao olhar para a juventude com doçura, mas sem apagar esse sentimento triste que permeia por toda a obra.

Mo (Griffin Gluck) é um jovem de 16 anos que, em uma fase de amadurecimento e de tentar encontrar seu lugar no mundo, passa a seguir os exemplos de Zeke (Davidson), oito anos mais velho, pois o enxerga como um cara descolado, mesmo que ele seja apenas irresponsável e autodestrutivo. O filme nos leva a conhecer essa divertida conexão que nasce entre os dois, que vindos de universos tão distantes, se entendem.

O grande lance de “Amizade Adolelescente” é dessa união que nasce de uma necessidade de “fazer parte”. Enquanto Mo se sente descolado por andar com os mais velhos e ter experiências que os outros de sua idade não possuem, Zeke encontra nesta parceria uma chance de reviver seus anos de glória, enquanto era alguém pelos corredores de uma escola, mas que foi diminuído pelo mundo real. Mo é a última pessoa a achá-lo especial e ele abraça isso. São duas linhas que caminham paralelas mas que uma hora ou outra precisam se romper. Esta é a beleza da obra. O protagonista parece sugar todo o aprendizado naquela agitação proporcionada por seu mentor, buscando uma identidade que não é sua. Ele o vê como um Deus e essa idealização vai sendo gradativamente destruída assim que vai atingindo maturidade e coragem de seguir o próprio caminho. A última cena sintetiza brilhantemente tudo isso. São duas gerações diferentes, uma que quer abraçar as oportunidades e a outra que cansou de tentar.

Estreia na direção e roteiro de Jason Orley, ele entrega um filme sutilmente sentimental e incrivelmente adorável de se assistir. A trama flui de forma prazerosa e convidativa, entregando humor, mas sem diminuir o peso de sua bela trama e dessas reflexões que nos deixa.

NOTA: 8,5

País de origem: EUA
Ano: 2019

Título original: Big Time Adolescence
Disponível: Telecine Play
Duração: 90 minutos
Diretor: Jason Orley
Roteiro: Jason Orley
Elenco: Pete Davidson, Griffin Gluck
, Sydney Sweeney, Oona Laurence

Crítica: A Arte de Ser Adulto

O agridoce da vida adulta

Pete Davidson é um jovem ator conhecido por suas sketches do Saturday Night Live. Ele veste com perfeição esse conceito do adulto que não abandonou a adolescência, desajeitado e despreocupado. O filme “The King of Staten Island” lhe dá o palco para brilhar e espaço para expor sobre si, sobre sua jornada peculiar, sobre sua dor pessoal. Davidson, que também assina o roteiro, revela de forma bastante honesta sua relação com o pai, bombeiro que morreu no 11 de setembro. Logo, sua parceria com o cineasta Judd Apatow não poderia ter sido mais certeira. Ele, que veio de outras tantas comédias, sempre soube muito bem construir essas obras que usam do humor para relatar algo tão melancólico. Sua escrita é agridoce e emociona quando não tem pretensão.

The King of Staten Island” faz um recorte na vida de Scott Darlin, o alter ego de Davidson, e nesta sua fase de transição, de amadurecimento tardio. Aos vinte e quatro anos, ele mora com a mãe, não tem emprego e passa suas horas fumando com seus amigos. Não se compromete com absolutamente nada, nem mesmo em seus relacionamentos e hobbies. Ele, que sofre de alguns distúrbios psicológicos, sempre foi alvo de preocupação a todos ao redor, logo que nada o faz seguir em frente, estagnado desde a morte do pai. Sua vida acaba perdendo as estruturas quando sua irmã mais nova (Maude Apatow) vai para a faculdade e sua mãe (Marisa Tomei) passa a se relacionar com outro homem. Toda a situação é narrada de forma cômica e ganha graça pelo carisma de seus tantos personagens. O humor, porém, vem quase como um escape à melancolia existente em cada instante do filme.

É incômodo assistir essa persona tão autodestrutiva, que se diminui o máximo que pode para não ter que arcar com qualquer consequência. Que não vê perspectiva para o futuro e que se protege dentro do caótico universo que criou para si. O filme narra o limite dessa situação, o instante em que ele é forcado a dar um outro tipo de passo, a aceitar outra coisa em sua vida além da dor. Nesse sentido, é belo a jornada do protagonista. Encanta pela sensibilidade e honestidade de cada relato, de cada discurso, de cada relação ali mostrada. Todos os personagens em cena parecem exigir algo novo em Scott, não por pressão, mas por todos acreditarem no brilho existente naquela alma que somente ele não vê. O roteiro é brilhante e mantém o alto nível por seus longos 137 minutos. Há esperteza e originalidade em seus bons diálogos, que nos fazem criar uma afeição a esses indivíduos. Ajuda, claro, ter um elenco tão afinado como este. Destaque para Marisa Tomei e a jovem Bel Powley, que estão fantásticas em cena.

A primeira sequência da obra revela esse estado perturbado do protagonista, de olhos fechados, pronto para ser esmagado. A última, em contrapartida, Scott caminha sem rumo e avista um horizonte cheio de possibilidades. “The King of Staten Island” é mais do que o renascimento e amadurecimento do personagem, é o espaço onde um artista usa para superar seus traumas, expor os tantos fantasmas que guarda dentro de si. Até mesmo a canção escolhida para finalizar o longa – “Persuit of Happiness” do Kid Cudi – foi a que ajudou o ator a superar sua depressão. O filme em si já é bastante delicado mas ganha tons mais profundos quando traçamos um paralelo com a vida do ator. É, de certa forma, fácil criar empatia pelas reflexões que deixa, desse sentimento de fracasso quando se chega à fase adulta, quando se tem a mesma idade daqueles que estão vencendo. E ainda que seja um produto muito íntimo, Judd Apatow revela tudo com seu olhar peculiar, não deixando de fazer seu próprio cinema, entregando um filme que se encaixa perfeitamente dentro de sua filmografia, dentro dos temas que sempre debateu. Confesso que senti uma conexão muito grande com tudo o que vi e fiquei devastado por toda a honestidade e sentimentos expostos. Nem sempre a comédia tem esse poder. Mas essa não é uma comédia qualquer e esse não é um filme qualquer.

NOTA: 9

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Duração: 137 minutos
    Título original: The King of Staten Island
    Distribuidor: Apple TV
    Diretor: Judd Apatow
    Roteiro: Pete Davidson, Judd Apatow, Dave Sirus
    Elenco: Pete Davidson, Bill Burr, Marisa Tomei, Bel Powley, Maude Apatow, Steve Buscemi