uma viagem psicodélica difícil de embarcar
Pouquíssimo tempo após lançar “Rivais”, o diretor italiano Luca Guadagnino retorna com “Queer”, um dos filmes mais íntimos de sua filmografia. Adaptação do livro de William S. Burroughs, o longa se propõe a ser uma viagem sensorial, transitando entre o real e a fantasia. Existe algo de fascinante aqui, principalmente devido a belíssima ambientação desenhada com tanto cuidado pela produção. No entanto, também apresenta uma jornada confusa e bastante irregular. Existem muitas intenções na tela, mas nada que tenha me feito sentir alguma coisa além do desejo de que acabasse logo.
“Queer” nos apresenta Lee, interpretado por Daniel Craig, um expatriado americano. Pouco sabemos sobre o passado dele, que agora caminha pelas ruas do México buscando preencher sua vida vazia e solitária. Domado por vícios, ele acaba se encantando pelo misterioso Allerton (Drew Starkey), um jovem por quem desenvolve uma intensa paixão.

Sem saber exatamente o que este homem sente por ele, Lee o convida para uma viagem psicodélica em busca de ayahuasca. É neste exato ponto em que “Queer” me perde por completo. O primeiro ato, que mostra a evolução da relação entre os personagens, tão bem construído, é interrompido quando o filme passa a ter mais interesse nas descobertas pessoais do protagonista e nesta viagem sensorial pelo desconhecido. São tramas que não caminham juntas, onde uma precisa pausar para que a outra siga em frente. O resultado é uma sensação de perda de foco, onde nada recebe a atenção necessária, deixando tudo fragmentado e desconexo.
Para viabilizar a comercialização da obra, Luca Guadagnino precisou fazer um corte de cinquenta minutos. Além da fluidez que é comprometida, há momentos em que os diálogos soam truncados, deixando a estranha sensação de que estão faltando pedaços importantes daquelas conversas, falas essenciais às quais não tivemos acesso. A parte da viagem, em particular, é extremamente desarmônica, como se estivéssemos assistindo a uma sucessão de fragmentos sem ligação.
A obra sofre uma grande ruptura tonal que me afastou ainda mais. Há uma dissonância não só pela mudança na trama, que segue um rumo muito menos interessante, mas também pela incursão no psicodélico e no surreal – e indo mais além – quando flerta com o horror corporal. São muitas intenções que, paradoxalmente, não se complementam. Não há um desenvolvimento claro, parecendo que Guadagnino precisou abandonar a linha narrativa inicial para seguir por um caminho diferente, sem uma transição ou crescimento orgânico.
Por outro lado, “Queer” apresenta uma boa atuação de Daniel Craig, que se distancia completamente de sua persona como o 007. Tenho certeza de que ele teria brilhado ainda mais se o roteiro tivesse lhe dado mais suporte. A ambientação também é um dos pontos fortes da obra. Luca Guadagnino tem uma habilidade impressionante para criar atmosferas tangíveis, nos permitindo sentir as texturas do ambiente como se estivéssemos realmente dentro daquele universo. No entanto, não pude deixar de sentir uma enorme decepção. Poucas vezes, neste ano, experimentei um desconforto tão grande. A sensação de claustrofobia e o desejo de sair da sala não surgiram de uma provocação artística, mas sim de uma exaustão extrema e da falta de substância e sentimento no filme. Nessa viagem, não consegui embarcar.
NOTA: 6,0 / 10

País de origem: EUA, Itália
Ano: 2024
Duração: 135 minutos
Diretor: Luca Guadagnino
Roteiro: Justin Kuritzkes
Elenco: Daniel Craig, Drew Starkey, Jason Schwartzman, Lesley Manville
