perdido na própria grandeza

Por muito tempo ouvimos falar sobre “Megalopolis”, o tal projeto dos sonhos de Francis Ford Coppola, que teve seus primeiros rascunhos no início dos anos 80. O filme que marca seu grande retorno e no qual ele financia do próprio bolso o orçamento estimado de 140 milhões de dólares. Um produto arriscado e que muitos diziam ser “tão grande e complicado que parecia impossível de ser feito”. Pois bem, pulamos para 2024 e hoje posso afirmar que se trata, definitivamente, de uma experiência. A mais catastrófica delas, mas ainda assim uma experiência. 

Coppola nos transporta para o futuro distópico de Nova Roma, onde despeja todas suas reflexões e estudos acumulados ao longo de décadas. O filme imagina os Estados Unidos como um império romano em decadência, prestes a ser destruído pela ganância dos homens sedentos por poder. “Megalópolis”, então, surge como uma tentativa de fuga de um mundo condenado ao fracasso. O problema é que essa utopia, que o diretor chama de “fábula”, é rasa e desorganizada. Feita de muitas ideias, mas carente de inteligência para conectá-las de forma coesa para chegar a algum lugar.

A trama é simples, no entanto, revelada da forma mais confusa possível. Adam Driver interpreta César Catilina, um artista idealista e arquiteto renomado que tem um projeto poderoso em mãos: a criação da cidade dos Sonhos, o lugar onde a desigualdade é corrigida. Uma metrópole autossustentável, que cresce organicamente junto com seus habitantes. Contudo, para levar isso adiante, ele precisa enfrentar figuras ambiciosas e corruptas que estão no poder. O que vemos, então, é este embate entre realismo e utopia. Deste homem tentando salvar a humanidade, enquanto é bloqueado por aqueles que defendem o mundo como ele é. 

“Megalópolis” é um produto kitsch e extremamente cafona. É exagerado, teatral e fruto das altíssimas ambições de um diretor que esteve cercado de profissionais e amigos que, provavelmente, não tiveram a coragem de impedi-lo de soltar essa bomba. É a criação de alguém que acredita estar sendo muito genial, quando na verdade só está sendo muito ingênuo. Chega a ser triste ver que o filme só era incrível nos sonhos do diretor. Na tela, apenas constrange. Inclusive, em diversos aspectos, é estranhamente amador.

Embora eu possa admirar a ousadia do risco envolvido – afinal, Coppola se arrisca ao máximo –, o resultado final é profundamente decepcionante, mal executado e desenhado com extremo mau gosto. O roteiro é confuso e, ao invés de usar citações de filósofos antigos para enriquecer a trama, apenas as emprega para criar uma aura de intelectualismo vazio. Os personagens falam de forma arcaica, distantes da realidade e de qualquer semblante de humanidade.

O elenco também não ajuda, sendo um dos mais fracos que vi este ano. Adam Driver saturou a própria imagem e vira a pior versão de si mesmo. É apenas lamentável vê-lo em cena. O restante do elenco segue a mesma linha, com atuações caricatas e sem inspiração. Mas não os culpo por completo, o texto é fraco. “Megalópolis” é um amontoado de ideias mal costuradas e pouco aprofundadas. Na ganância de querer abraçar tudo, Coppola não alcança nada. A metrópole dos sonhos, o cerne da trama, não passa de um deslumbre sem pé nem cabeça, onde a maior invenção são esteiras rolantes que brilham. O filme tenta representar um mundo vasto, mas tudo é filmado como se ocorresse em um único quarteirão. É pobre, simplório e não digno da carreira que ele construiu até aqui. Uma experiência desastrosa de um diretor que se perde em sua própria grandeza.

NOTA: 4,0/10

País de origem: EUA
Ano: 2024
Duração: 138 minutos
Diretor: Francis Ford Coppola
Roteiro: Francis Ford Coppola
Elenco: Adam Driver, Nathalie Emmanuel, Aubrey Plaza, Shia LaBeouf, Giancarlo Esposito

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