Crítica | Finch

O Caminho para o fim

Tem alguns filmes que têm a cara de um determinado ator. “Finch” é o típico filme Tom Hanks. O homem carismático e solitário vagando pelo mundo com seu cachorro e um robô. Não haveria outra pessoa a estar aqui que não fosse ele. A obra é uma espécie de road movie rodeado pela ausência, onde as paisagens se foram e tudo o que vemos ao fundo é o que restou. Isso porque um desastre acabou com a civilização e o planeta se transformou em um imenso deserto constantemente atacado por tempestades de areia.

É neste cenário pós-apocalíptico que nosso herói caminha. Finch desenvolveu todo um maquinário para sua auto sobrevivência e, percebendo que pode não aguentar por muito mais tempo, cria um robô para que, no futuro, alguém possa cuidar de seu único companheiro, seu cachorro Goodyear. O filme, então, é esse homem ensinando um robô a viver e, consequentemente, protegendo a única coisa que importa em sua vida. É bela essa motivação do protagonista e essa inusitada relação que vai sendo construída. Diferente de muitas produções do gênero, o protagonista sofreu pelo abandono e julga não sentir mais falta desse contato humano. Ele está bem com a solitude e é apenas por seu cachorro que traça seus planos.

A direção é de Miguel Sapochnik, que tem uma carreira extensa em séries de TV e acabou ganhando reconhecimento ao comandar o épico episódio “Battle of The Bastards” de Game of Thrones. Ele demonstra muito cuidado com as cenas e entrega um trabalho bastante seguro. Sua obra não perde tempo mostrando essa humanidade degradante que tanto já vimos em produções pós-apocalípticas. Já vimos esse universo antes e, sabiamente, o roteiro tem plena consciência disso. Se concentra unicamente em Finch e nessa sua jornada para o fim.

Finch é um homem descrente, que sempre evitou contato com os outros. Praticamente sozinho no mundo, ele se vê obrigado a acreditar no próximo, na confiança e na solidariedade. No fim, o único legado que pode deixar são seus sentimentos e esses pequenos aprendizados que a vida lhe deu. É interessante esse contraponto do robô que, como um adolescente pronto para o futuro, suga todas as lições para compreender essas pequenas coisas que tornam a experiência humana tão enriquecedora.

Apesar de perder um pouco pela longa duração, se estendendo mais do que precisava, encanta e prova que não se precisa de muito para construir uma boa ficção. “Finch” não inova em muita coisa, mas nos envolve mesmo com sua simplicidade e claro, pela sempre marcante presença de Tom Hanks. Ele é aquele grande ator capaz de segurar um filme sozinho e aqui não é diferente.

NOTA: 8,5

País de origem: EUA
Ano: 2021
Duração: 105 minutos
Disponível: Apple TV+
Diretor: Miguel Sapochnik
Roteiro: Craig Luck, Ivor Powell
Elenco: Tom Hanks, Caleb Landry Jones

Crítica: Uncle Frank

Sempre serei eternamente grato a Alan Ball por ter criado e escrito uma de minhas séries favoritas, “Six Feet Under”. Ele, que ainda foi responsável pelo roteiro de Beleza Americana, retorna com seu novo filme, “Uncle Frank”, produção original do Prime Video.

Paul Bettany dá vida ao tio Frank do título. Ovelha negra de uma família extremamente conservadora, ele sempre causou fascínio em sua sobrinha Beth (a ótima Sophia Lillis), que desde criança nunca entendeu como alguém tão sensível e inteligente como ele poderia ser rejeitado por pessoas tão próximas. Anos depois, as pontas se encaixam, quando ela descobre que Frank é homossexual e vive com outro homem, recluso, distante de todo mundo. O grande conflito nasce quando o patriarca morre e ele precisa retornar, não apenas para dizer adeus à seu pai, mas confrontar seu passado e ir em busca de reconciliação, ao lado de Beth e seu parceiro.

É assim que “Uncle Frank” se transforma em um delicioso road movie quando, colocando na estrada três belíssimos personagens, discutindo sobre a vida e sobre auto aceitação. É sensível todo este discurso de família e como é um processo doloroso viver em um meio que não te aceita, que te julga e te exclui. Allan Ball captura esses instantes de forma bastante madura e honesta, no entanto, não consegue manter o bom nível até o fim.

O filme funciona muito bem até o ato final, onde o roteiro perde a sutileza e abre espaço para o dramalhão. É quando se dá início a revelações forçadas e situações um tanto quanto constrangedoras. Parece ter sido escrito por outra pessoa completamente diferente, que pouco entendeu o que estava sendo trabalhado até ali. É incômodo o caminho que segue, porque em nada tem a ver com a delicadeza e honestidade com que iniciou. O texto acaba, por fim, reproduzindo ideias tão antiquadas sobre homossexualidade, que vai deste o infame discurso religioso até o suicídio, para causar impacto. Acaba optando pelo sensacionalismo banal para se expressar, quando, na verdade, caminhava tão bem na sutileza. É, ainda, cruel com seu protagonista que precisa ceder, como se devesse algum tipo de desculpa para aqueles que o rejeitaram, como se fosse ele quem devesse se adaptar ao mundo dos outros.

Apesar dessa reviravolta pouco inspirada, “Uncle Frank” vale uma conferida. Ótimo poder ver Paul Bettany de volta ao drama e relembrarmos o potencial que ele tem como ator. Assim como a jovem Sophia Lillis, Peter Macdissi ilumina a cena. Alan Ball pode cometer alguns deslizes aqui, mas sem dúvidas, entrega um filme de coração. Há sensibilidade em suas criações e comove neste seu belo relato de lutar por ser quem deseja ser. Amar quem deseja amar. Mudar até de nome, se precisar.

NOTA: 7

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Disponível: Prime Video
    Duração: 94 minutos
    Diretor: Alan Ball
    Roteiro: Alan Ball
    Elenco: Paul Bettany, Sophia Lillis, Peter Macdissi, Margo Martindale, Judy Greer, Steve Zahn, Stephen Root

Crítica: A Rota Selvagem

Atalho para maturidade

O cinema sempre procura encontrar novas formas para falar sobre crescimento, sobre aquela fase complicada em que se deixa de ser adolescente e passa a encarar com mais seriedade os dilemas da vida. É o conhecido coming of age e “Rota Selvagem” vem para dar uma nova voz a este processo, seguindo um rumo nada óbvio para falar sobre um assunto comum. É um filme único, dono de uma beleza única.

Acompanhamos, então, a jornada de Charley (Charlie Plummer), um jovem que é forçado a crescer diante de inesperadas mudanças em sua vida. Após ver seu pai (Travis Fimmel) sendo gravemente ferido e ficar em coma em um hospital, o jovem decide, por não ter ninguém a quem possa pedir ajuda, buscar auxílio em um amigo recente, Del (Steve Buscemi), que cria e treina cavalos para corridas. Um desses cavalos é Lean On Pete – que dá nome ao título – que está fraco e pode ter seus dias contados. Nessa fragilidade e fim iminente do animal, Charley sente uma grande afinidade por ele, nascendo ali uma amizade e uma necessidade de proteção, de ambas as partes.

O que difere a obra é que ela está constantemente saindo do lugar comum, sempre seguindo um caminho que não suspeitávamos previamente. Quando o protagonista parece atingir sua zona de conforto, o roteiro o obriga a construir uma nova jornada. Desta maneira, “A Rota Selvagem” é dividido em alguns capítulos e, ainda que o cenário e as situações se alterem, mal percebemos essas transições tamanha a naturalidade com que apresenta cada fase. São vários personagens que vão entrando em cena, quase como atos com começo, meio e sem nunca apresentarem um fim, como um ciclo em movimento. O fascínio do filme está nesta trajetória costurada por etapas não planejadas, justamente como nossa vida é: imprevisível. O lado bom disso é que nunca sabemos o rumo que a história irá tomar e sempre somos surpreendidos por um novo início. O lado ruim é que os capítulos não possuem a mesma força, oscilando e nos fazendo perder o interesse em determinadas passagens. O elenco é bom e segura a qualidade, passando na tela nomes como Steve Buscemi, Chloë Sevigny e Steve Zahn.

O diretor Andrew Haigh, que já havia entregado outros bons trabalhos como “Weekend” e “45 Anos”, volta a oferecer uma obra singela, sensível e incrivelmente bem filmada. Suas sequências são belas e são enaltecidas pela fantástica fotografia. Claro que nada disso seria possível sem a potente performance de Charlie Plummer. É um papel que requer entrega e ele surpreende, ainda mais por ser tão jovem no cinema. É muito bom o que Plummer entrega, seus diálogos com Pete são delicados e enche a tela com honestidade. Sem uma explosão comum em filmes do gênero, conseguimos sentir o peso do mundo em suas costas apenas com suas expressões. “A Rota Selvagem” comove com suas sutilezas, com este poder de emocionar sem grandes esforços. Mais do que uma jornada de maturidade, temos aqui um road movie sincero e encantador, que revela com graciosidade essa busca por proteção, por abrigo, por não se sentir tão sozinho nesse mundo tão cheio de nada.

NOTA: 8

  • País de origem: França, EUA, Irlanda do Norte, Reino Unido
    Ano: 2017
    Duração: 121 minutos
    Título original: Lean on Pete
    Distribuidor: Diamond Films
    Diretor: Andrew Haigh
    Roteiro: Andrew Haigh
    Elenco: Charlie Plummer, Steve Buscemi, Chloë Sevigny, Travis Fimmel, Steve Zhan, Lewis Pullman