Crítica: O Mistério de Silver Lake

Uma geração sem mais enigmas

Segundo longa-metragem de David Robert Mitchell após o elogiado “Corrente do Mal”. Ele volta a trabalhar em filme de gênero, mas amplia aqui suas possibilidades, sem receios de caminhar pela comédia e o suspense. Tem um toque de erotismo também e do estilo noir, onde um jovem caminha pela cidade para desvendar um cabuloso mistério. Há muita intenção condensada em único filme, buscando fortes referências à Hitchcock e esta força dos símbolos dentro de suas composições e, principalmente, às pirações de David Lynch. Enquanto que sua ação ocorre em Los Angeles, o cineasta aproveita para costurar uma grande homenagem ao cinema e as estes tantos nomes que deixaram um legado. No melhor estilo de “Cidades dos Sonhos”, que coloca Hollywood como parte central de sua trama, “O Mistério de Silver Lake” é o mais próximo de Lynch que o cinema recente alcançou.

É curioso como o filme vai sendo construído, onde seu protagonista traça uma jornada sem muito sentido e seguindo um rumo repleto de imprevisibilidades. Existe uma lógica que, até grande parte da trama, parece existir apenas em sua cabeça. Sam (Andrew Garfield) é um jovem perdido e punheteiro que entra em uma grande paranóia quando sua vizinha desaparece subitamente e um assassino de cachorros está a solta pelas ruas. Decidido a entender o que de errado está acontecendo, ele passa a procurar pistas nos mais improváveis lugares e achar uma razão para tanta insanidade. Seja em uma embalagem de sucrilhos ou nas HQs que coleciona, tudo passa a ser alvo de suas investigações. É uma busca um tanto quanto cômica e existe brilhantismo nesta aleatoriedade do roteiro. David Robert Mitchell cria uma cosmologia própria, que ganha proporções cada vez mais bizarras e fascinantes. Há uso de muitos simbolismos aqui, deixando rastros de significados que podem não ser claros à primeira visita.

Sam é o retrato de uma geração desmotivada, que segue sem grandes perspectivas. Vive sua vida banal sabendo que não haverá nenhuma recompensa por seus atos. Tem forte apego e é completamente dependente da cultura pop, que são uma das raras coisas com significado em sua rotina. “O Mistério em Silver Lake” diz muito sobre essa geração que não mais cria, vive apenas do reflexo do que já foi dito, escrito, inventado. Que aplica sentimentos e significados variados à qualquer item como forma de mantê-los motivados ou intrigados por alguma coisa nova. Nós não temos mais os vampiros e lobisomens, mas nem por isso deixamos de desenvolver nossas próprias paranoias. Criar este mistério para Sam é quase como uma necessidade, uma prova de que ainda está vivo. O longa ainda aproveita para debater justamente esta fragilidade da cultura atual, que ainda que depositemos sensações e representações à tantos ícones, muitas vezes essas criações são apenas fruto da ganância de alguém. No meio de toda essa loucura e da comicidade de tudo isso, a obra não deixa de plantar uma semente da dúvida em nós, que por alguns minutos passamos a vivenciar dessas conspirações e a questionar se de fato há mais significado por de trás de tudo aquilo que consumimos.

O grande acerto do filme é não se levar a sério. É entender o quão absurdo é e fazer piada de si mesmo. Há coragem em cada saída encontrada e uma originalidade que falta no cinema atual. Ser comparado com Lynch é o maior elogio que essa obra poderia receber e finalmente tivemos algo à altura dessa comparação. Claro, é preciso abstrair muito para se deixar levar por tantas pirações, mas é uma viagem gratificante, insana sim, mas altamente genial. David Robert Mitchell se mostra, mais uma vez, um diretor notável, nos fazendo mergulhar nas neuras de seu protagonista, muito bem defendido por Andrew Garfield. O que vale aqui não são as respostas ou as resoluções de sua trama, mas o caminho que percorre até chegar lá.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2018
    Duração: 136 minutos
    Título original: Under The Silver Lake
    Distribuidor: –
    Diretor: David Robert Mitchell
    Roteiro: David Robert Mitchell
    Elenco: Andrew Garfield, Riley Keough, Grace Van Patten, Jimmi Simpson, Topher Grace, Zosia Mamet

Crítica: O Diabo de Cada Dia

Delírios da fé 

Grande acerto da Netflix, “O Diabo de Cada Dia” é uma adaptação do livro de Donald Ray Pollock que reúne um elenco de atores promissores. A obra narra uma série de histórias e personagens que são conectadas pela violência em uma região esquecida dos Estados Unidos. São indivíduos atormentados por um período entre Guerras, que encontram na fé uma passagem para a salvação. É bem interessante como o roteiro vai costurando essas tantas tramas, que atravessam anos e são cruzadas por pura coincidência ou vontade divina, como o próprio narrador nos alerta. Essa voz onisciente e onipresente é o que nos guia. É ela quem nos permite adentrar na mente conturbada de cada um e na melancolia existente nessas ligações. 

O diretor e roteirista Antonio Campos surpreende ao comandar essa jornada. Ele, que veio de obras menores como “Christine”, volta a investigar os efeitos de se viver em uma sociedade que normalizou a violência e crueldade. Campos acerta na construção da atmosfera, nos fazendo viajar ao tempo e a acreditar naquelas histórias e sentimentos. Há algo de amedrontador que permeia por todas as narrativas. A desumanidade ganha força nos lugares comuns, justamente onde parecia habitar bondade. O longa rapidamente nos faz traçar esse paralelo com a realidade e como a religião e a fé acabam sendo usadas como desculpa para tanta atrocidade. Esse fanatismo religioso é aterrorizante porque ele vem como escudo e porque ele defende o mal como um simples ato de delírio. 

Neste sentido, é interessante a história de vingança de Arvin Russell (Tom Holland) porque ele não combate uma pessoa específica e sim o peso que carrega do passado e sua relação com esse Deus impiedoso. Essa santidade que corroeu sua família e tudo aquilo que ele amava. Essa adoração que nunca trouxe respostas ou que tenha justificado tantos sacrifícios. Trouxe apenas o vazio, a dor, a solidão de ter que viver com tanta perda. Arvin é o que conecta essas tantas histórias. Desde seu pai, um soldado perturbado pela Guerra (Bill Skarsgård) até os inúmeros personagens que vão cruzando seu caminho por puro acaso (ou porque Deus quis assim). A arma, uma Luger alemã, que dizem ter estourado os miolos de Hitler, é outro item que transita por esses tantos ciclos e o objeto amaldiçoado que carrega essas tantas memórias. Ainda que o roteiro acerte na composição de todo este extenso universo, sinto uma leve fragilidade na jornada do xerife, interpretado por Sebastian Stan. Ele era um item importante na história mas jamais fica claro sua real relevância. Sinto que não foi bem explorado essa forte conexão que havia entre ele e Arvin e como ambos eram essas linhas soltas que dariam o último nó ao fim. Como todo filme que se utiliza de narração em off, este infelizmente nem sempre escapa da armadilha de narrar o que, às vezes, é explícito na imagem. Mas no geral funciona e não chega a estragar a experiência. 

Trata-se de um roteiro poderoso, brilhantemente bem escrito. Flui bem por todas as histórias sem perder a unidade, sem oscilar, apesar da longa duração. Mais do que ter em mãos grandes personagens, a obra acerta na escalação e condução dos atores. Independente do tempo de cena de cada um, todos estão bem. Holland nos faz esquecer seu Homem-Aranha e isso é ótimo, visto que nos últimos anos ignoramos a criança promissora que ele era. Jason Clarke e Sebastian Stan são tão bons que criamos um asco enorme por vê-los na tela. O mesmo sentimos por Robert Pattinson que, no entanto, ainda que seja esforçado, não consegue fugir da caricatura. As atrizes Eliza Scanlen, Mia Wasikowska, Riley Keough e Haley Bennett estão ótimas também, mesmo que menores na trama. Destaco Harry Melling pela força e garra ao qual entrega à seu personagem. 

Algumas pessoas nascem apenas para serem enterradas é uma verdade dolorosa. “O Diabo de Cada Dia” traz uma visão pessimista sobre como a nossa jornada e a maldade coexistem. Nosso destino pode alcançá-la a qualquer instante, quando menos esperamos, apenas porque tem que ser assim. A obra, no meio de suas tantas tragédias, faz um relato obscuro sobre a base de nossa atual sociedade e os reflexos que temos na política. Pessoas ordinárias e lunáticas que não tem noção do peso de suas ações e seus crimes bárbaros hoje estão no poder e estão validando o que é certo.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Duração: 138 minutos
    Título original: The Devil All The Time
    Distribuidor: Netflix
    Diretor: Antonio Campos
    Roteiro: Antonio Campos, Paulo Campos
    Elenco: Tom Holland, Robert Pattinson, Sebastian Stan, Bill Skarsgård, Riley Keough, Jason Clarke, Harry Melling, Eliza Scanlen, Haley Bennett, Mia Wasikowska

Crítica: O Chalé

A pressão do parafuso

“The Lodge” é um filme de terror que tem ganhado fama, aos poucos, aqui no Brasil. É o mesmo caminho que a dupla de diretores e roteiristas, Veronika Franz e Severin Fiala, enfrentou em 2014 quando lançaram “Boa Noite, Mamãe”, que surgiu tímido mas não demorou até ganhar reconhecimento. O trabalho anterior deles foi definitivo para o que hoje é realizado dentro do gênero e este retorno vem para reafirmar a grande habilidade deles em construir obras perturbadoras e de forte impacto. Alguns elementos voltam como o fato da trama se concentrar na relação conturbada entre duas crianças e uma enigmática figura materna. Além, é claro, a interessante construção do roteiro, que tem a capacidade de nos confundir e de driblar nosso olhar para a verdade.

O começo do filme é lento mas é crucial para revelar sua potente intenção. A protagonista Grace (Riley Keough) demora a se revelar, propositadamente. Ela é capturada de costas ou através de vidros esfumaçados. Essa escolha é interessante porque nos guia a criar uma imagem dela pelo olhar e impressão de outras pessoas. A julgamos previamente, não apenas por seu passado mas por ela ser a representação daquilo que, teoricamente, destruiu uma família. Grace está noiva de Richard, cujo os dois filhos pequenos, Aidan e Mia acabaram de perder a mãe que se suicidou. Ainda abalados pela perda, os dois são obrigados a se aproximar da nova madrasta no feriado de Natal, dentro de um chalé em uma região remota e afastada. O filme, então, nos leva a enfrentar esta desconfortável relação entre os três. A tensão piora quando estranhos eventos passam a acontecer ali, levando à protagonista a questionar sua fé e reviver as escolhas de seu passado.

Veronika Franz e Severin Fiala entregam sequências visualmente bem interessantes, capturando seus ambientes por planos bem abertos e até mesmo vertiginosos, construindo uma atmosfera de tensão e constante desconforto. É ainda curioso o uso da casa de bonecas, que recria com perfeição o chalé e nos leva a este sentido dúbio sobre o que é invenção, manipulação ou reconstrução da realidade. Quando o roteiro entrega sua primeira reviravolta, ele bifurca suas interpretações e passamos a questionar o que, de fato, está acontecendo ali. Até que ponto aquilo é real ou alucinação. Os roteiristas apostam em nossas lembranças, até mesmo de outros filmes, para criar um jogo audacioso e um tanto quanto divertido. Eles nos enganam porque sabem onde já fomos enganados outras vezes. Com fortes referências à obra clássica de Henry James, “A Volta do Parafuso” – que serviu de base à muito do que conhecemos no terror dentro do cinema – somos manipulados a enxergar algo através desses símbolos que eles usam, inclusive o próprio nome da protagonista, Grace, logo nos remete à personagem de Nicole Kidman em “Os Outros”, talvez a mais memorável adaptação do conto e que muito se assemelha aos acontecimentos daqui. O grande brilhantismo vem quando ele quebra essa nossa previsão e entrega algo mais palpável, surpreendente e ainda assim, assustador.

A expressão “a volta do parafuso” diz muito sobre o filme também. Ainda que em português não faça muito sentido, o termo é uma metáfora para aquilo que está ruim e pressionamos para ficar pior. As crianças aqui usam da fraqueza de Grace para construir um jogo perverso, a levando a enfrentar seus próprios fantasmas, se afundando dentro de si. O terror psicológico vem justamente dessa mente desestabilizada dela e desta relação que tem com a fé, deste pavor que sente diante dos símbolos religiosos que repreendem seus pecados. Esta perigosa oscilação da personagem é muito bem representada pela atriz Riley Keough, que entrega um de seus melhores momentos no cinema até agora. O filme, no entanto, perde um pouco pela pressa de se revelar, não nos permitindo aproveitar dessa tensão que se constrói e de suas próprias reviravoltas. O final, aliás, é bastante caótico e não explora todo o potencial que tinha, entregando suas revelações de forma fria, longe do climax que poderia alcançar. Sinto falta de conhecer um pouco mais sobre as crianças e entender melhor as motivações delas também. O longa carece ainda de originalidade, desde sua trilha sonora com ruídos à condução dos diretores, tudo nos remete à um cinema ainda muito recente como “Hereditário”, “O Sacrifício do Cervo Sagrado” e outras obras mais potentes do terror moderno.

Apesar das falhas, “The Lodge” funciona e nos deixa bastante atordoados ao fim, tentando digerir tudo o que nos foi mostrado. Pode não ter o mesmo impacto que outros filmes do gênero, mas merece ser descoberto.

NOTA: 7,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2019
    Duração: 100 minutos
    Título original: The Lodge
    Distribuidor: –
    Diretor: Severin Fiala, Veronika Franz
    Roteiro: Severin Fiala, Veronika Franz
    Elenco: Riley Keough, Jaeden Martell, Lia McHugh, Richard Armitage, Alicia Silverstone