Crítica: Jojo Rabbit

O discurso de ódio que se reproduz

Indicado ao prêmio de Melhor Filme e vencedor de Melhor Roteiro Adaptado no último Oscar, “Jojo Rabbit” traz o retorno de Taika Waititi na direção depois de realizar “O Que Fazemos nas Sombras” e “Thor Ragnarok”. É seu projeto mais ambicioso até agora e que prova, de vez, sua força como diretor e roteirista. Uma obra que se propõe a ser uma sátira anti-ódio e neste sentido, acaba sendo um produto extremamente atual e que facilmente dialoga com os novos tempos, ainda mais, curiosamente, para nossa realidade brasileira. Taika acerta a mão e realiza um trabalho bastante original, mágico, surpreendentemente triste e doce.

O que torna o texto de “Jojo Rabbit” tão interessante é por revelar a Guerra pelos olhos de uma criança. Jojo, interpretado pelo expressivo Roman Griffin Davis, tem uma visão limitada sobre tudo, inocente e de certa forma, apenas reproduz conceitos e frases que ouviu previamente pelos adultos. Enquanto seu país é dominado pelos Nazistas, ele se junta a outras crianças para ser útil da maneira que lhe cabe. Seu amigo imaginário é Hitler e é ele quem lhe ajuda a enfrentar as difíceis decisões de sua vida. Sua rotina calculada é arruinada quando ele descobre que sua mãe esconde em sua casa uma jovem judia. Este encontro acaba lhe fazendo questionar sobre este ódio doutrinado e que não é, necessariamente, o que sente.

Tinha um certo receio sobre como Taika Waititi faria um filme de comédia sobre a Alemanha Nazista. É um tema delicado e muito fácil de se tornar ofensivo. Surpreende, então, a inteligente maneira que ele encontrou de fazer isso funcionar. “Jojo Rabbit” tem sim seus momentos de humor e acerta em como insere a comédia em seu peculiar universo. Talvez por ter uma criança como protagonista, sua liberdade narrativa é tão bem-vinda. E neste conto belo e mágico, o filme atinge facilmente a comoção. A trama consegue dar boas viradas e emociona, trilhando sabiamente ao drama. Por fim, é aquele tipo de filme que nos faz atravessar por diversos sentimentos, deixando nosso coração apertado por vários instantes. Seu humor, felizmente, não diminui o impacto de sua história, pelo contrário, só acentua o quão cruel e absurdo são seus relatos.

O elenco é todo muito bom, o que torna ainda mais prazeroso de assistir. Taika acerta em sua paródia e diverte com sua inusitada composição de Hitler. Sabiamente, ele aparece pouco, deixando o resto dos atores brilharem. Scarlett Johansson faz por merecer sua indicação ao Oscar. Sua passagem pelo filme é muito bela, emociona e prova o quão versátil ela é capaz de ser. Os jovens Roman Griffin Davis e Thomasin McKenzie são os grandes destaques. Simplesmente incrível o que os dois fazem em cena. É sempre interessante quando atores tão novos são capazes de transmitir tanta coisa. Sam Rockwell, Rebel Wilson e Alfie Allen em ótimas participações. Além das atuações, o filme vem com uma produção muito boa, desde os belíssimos figurinos às ótimas locações de filmagem, destacando seu rico design. Há uma forte inspiração ao cinema de Wes Anderson aqui, nos remetendo facilmente o que ele realizou com “Moonrise Kingdom”. Mais do que cores, texturas e aquela famosa simetria. A forma com as personagens interagem, o rápido e esperto humor e a excentricidade de seu universo também estão aqui.

“Jojo Rabbit” é uma obra que dialoga bem com os tempos de hoje. No tempo das fake news e de como tantos discursos de ódio infundados são reproduzidos facilmente em nome de uma doutrina ou de um fanatismo cego a um líder. É assustador quando conseguimos traçar esse paralelo com nossa realidade e justamente por isso, esta paródia é tão necessária e tão bem-vinda. Taika Waititi entrega um filme maduro, provocativo, sarcástico e surpreendentemente doce e emotivo. A cena final é incrível e, de alguma forma, mesmo pelo peso de seus argumentos, nos faz terminar a sessão com o coração aquecido e uma boa dose de esperança e otimismo.

NOTA: 9

  • País de origem: EUA
    Ano: 2019
    Duração: 108 minutos
    Distribuidor: Fox Film do Brasil
    Diretor: Taika Waititi
    Roteiro: Taika Waititi
    Elenco: Roman Griffin Davis, Thomasin McKenzie, Scarlett Johansson, Taika Waititi, Sam Rockwell, Alfie Allen, Rebel Wilson, Archie Yates, Stephen Merchant

Crítica: 1917

Contra o tempo

Guerra já foi tema de muitos filmes no cinema e é interessante quando surge uma obra que tem algo novo a mostrar, um olhar único sobre um mesmo evento. “1917” facilmente se destaca neste subgênero e merece reconhecimento por suas tantas qualidades técnicas. Um trabalho de produção admirável, que resgata um período histórico com precisão e nos faz viver, durante seus belos minutos, o desespero em estar na pele de seu protagonista, vivendo sob o caos e a tensão de tudo aquilo. O novo longa de Sam Mendes é uma experiência sem igual, imersiva, angustiante e extremamente bem realizada. A opção por gravar suas ações em um quase que ininterrupto plano sequência, torna tudo ainda mais fascinante de assistir. É um deleite visual e um exercício narrativo e cinematográfico altamente ousado.

“1917” acontece quase que em tempo real e justamente por isso nos coloca para dentro da ação, ao lado de seu bravo protagonista. É a história de um herói de Guerra e os sacrifícios que enfrenta para finalizar sua honrada missão. O roteiro é bem direto, evita firulas e dramatizações e mesmo com esse excesso de realismo, a trama emociona e nos envolve, logo que somos convidados, a todo instante, a estar presente ali, vivenciando cada passo, cada obstáculo. Seja nos corpos mortos pelo ambiente, seja nas cidades em ruínas, nas trincheiras devastadas. O filme comove nesses relatos, nesses detalhes e vestígios que deixa pelo caminho. Neste sentido, é muito rico todo esse esforço da produção em redesenhar todo esse período e traçar, de forma bastante calculada, todo o percurso do personagem e todos os elementos e histórias que ele esbarra. É muito natural toda sua jornada e espanta pela precisão de cada ato. Os figurinos, objetos de cena e toda essa reconstrução dos ambientes nos transportam ao tempo. É lindo essa preocupação da equipe em tantos detalhes e na escolha por não abusar de efeitos especiais e permitir que exista, de fato, muita coisa prática ali em cena. É simplesmente surreal pensar em como tudo foi feito. O resultado final é absurdo, gigante, deslumbrante.

O filme narra a jornada de dois soldados britânicos que precisam correr contra o tempo e atravessar o território inimigo em um momento crucial da Primeira Guerra Mundial. O desafio é enviar uma mensagem que impedirá uma terrível armadilha e a possível morte de milhões de combatentes. É interessante em como o protagonista, Schofield, é inserido nesse contexto, escolhido ao acaso, obrigado a lutar por uma missão que não é necessariamente sua. Ao decorrer do filme, ele que tem o perfil de um coadjuvante, se torna protagonista da batalha, abraça a história que lhe é dada mas que de alguma forma, aquilo se torna seu propósito, sua razão em estar ali. Apenas ao final ouvimos seu nome. Ele é como tantos outros soldados ali no meio do caos, o herói sem identidade, o homem que troca sua medalha de honra por um segundo de dignidade. É assim que George MacKay prova ser um grande ator, conseguindo transmitir essas transformações do personagem e emociona. É uma entrega bastante física também e ele se doa com garra. Merece mais reconhecimento em sua carreira. A obra conta ainda com boas participações de Dean Charles-Chapman, Andrew Scott, Richard Madden, Mark Strong, Colin Firth e Benedict Cumberbatch.

Sam Mendes consegue imprimir em “1917” este estado de calamidade, de urgência. Sentimos o drama de estar ali, o vazio deixado pela destruição, o barulho que anuncia a morte e o silêncio deixado por ela. É impactante, devastador e intenso. O diretor deixa de lado o espetáculo comum do gênero para focar na história de um homem comum e seu ato heróico. Com sua câmera constantemente em suas costas, atravessamos um longo caminho ao seu lado, conhecemos sua coragem mas também sua inocência, vulnerabilidade e seus raros instantes de fraqueza. Há humanidade em suas ações e justamente por isso é tão doloroso estar ali com ele. Com a direção de fotografia impecável assinada pelo mestre Roger Deakins e a trilha de Thomas Newman, o show está completo. Há diversas cenas incríveis aqui e que ecoam na mente mesmo depois que termina. Um trabalho absurdamente bem realizado, que justifica nossa paixão pelo cinema.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA, Reino Unido, Irlanda do Norte
    Ano: 2019
    Duração: 118 minutos
    Distribuidor: Universal Pictures
    Diretor: Sam Mendes
    Roteiro: Sam Mendes, Krysty Wilson-Cairns
    Elenco: George MacKay, Dean Charles-Chapman, Andrew Scott, Richard Madden, Mark Strong, Benedict Cumberbatch, Colin Firth