Crítica: Em Um Bairro de Nova York

O grito poético dos que sonham

Antes de alcançar o estrelato com “Hamilton”, o compositor e dramaturgo Lin-Manuel Miranda deu seu primeiro passo com o musical “Em Um Bairro de Nova York”. O rap, a agilidade dos diálogos e a força das canções retornam nesta adaptação que finalmente ganha as telas do cinema. Fazia tempo em que não via um filme do gênero desta grandiosidade, que mais parece um milagre de como o diretor Jon M.Chu conseguiu encaixar tudo em uma única produção. É aquela obra que explode, que grita e nos emociona, nos faz querer sair dançando por aí.

Somos levados a conhecer as ruas de Washington Heights, dominada pela música e pela cultura dos imigrantes latinos. É ali que vive a alma sonhadora de Usnavi (Anthony Ramos), que batalha todos os dias em seu mercadinho para realizar seu “sueñito” de retornar para a República Dominicana. Ele tem o dom de contar histórias e dentro dele cabem todas aquelas que vê ao seu redor. De pessoas, assim como ele, que lutam por um sonho, por uma vida melhor. É desta forma que o filme vai costurando inúmeras subtramas e vamos conhecendo cada uma dessas trajetórias. Nem sempre isso flui bem dentro do roteiro, ainda mais quando a maioria delas funciona isoladamente e nem sempre como um conjunto. A trama acaba se desgastando um pouco quando o discurso de todos eles é o mesmo e cansa. No entanto, é admirável a forma como cabe tanta história dentro da obra e como o texto prova ter um imenso carinho por todos os personagens ali em cena. Consequentemente, passamos a ter empatia por todos eles e nos emocionar com os relatos de cada um. Além disso, os ótimos números musicais não permitem ao filme perder o ritmo nunca.

“Pequenos detalhes que mostram ao mundo que não somos invisíveis”. É lindo como “In The Heights” dá visibilidade para essas histórias de luta, de orgulho dessa herança latina e dessas tantas misturas que preenchem Nova York. Todas as canções são poderosas e ilustram muito bem os sentimentos e desejos dos personagens. O hip-hop em uma interessante mescla com salsa e bolero atingem instantes de glória. Mais do que falar sobre sonhos, a música vem como um manifesto político (e poético) contra essa marginalização de comunidades imigrantes nos Estados Unidos. A escolha do elenco é bastante certeira ao trazer diversidade, apesar das críticas que recebeu, vejo como um grande passo. É tudo aquilo que “West Side Story”, nos anos 60, se negou a ser.

“Em Um Bairro de Nova York” revela o grande momento do cineasta Jon M.Chu. É milagroso e imenso o que ele realiza aqui. As batidas chegam na nossa alma e ficamos ali hipnotizados pela velocidade das cenas e pela organização milimétrica das coreografias, como no belíssimo e longo número musical de introdução, à divertida sequência na piscina ou ao impecável instante final. É um filme que tem uma energia inesgotável, que vibra, que pulsa em cada pequeno detalhe. Que bom ter um ator com a força de Anthony Ramos para nos guiar a esta viagem apaixonante. É comovente a postura dele diante das cenas, a paixão que ele deposita em cada canção.

Temos aqui a produção que revitaliza o gênero com êxito. Fazia tempo que o cinema nos devia um musical dessa altura e “In The Heights” voa muito alto.

NOTA: 9,0

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: In The Heights
Disponível: Cinemas
Duração: 142 minutos
Diretor: Jon M. Chu
Roteiro: Quiara Alegria Hudes
Elenco: Anthony Ramos, Melissa Barrera, Corey Hawkins, Gregory Diaz, Leslie Grace

Crítica: Nasce Uma Estrela

Este é o terceiro remake de “Nasce Uma Estrela”. A história da moça simples que cantava em um bar e acaba conhecendo o sucesso volta agora com Lady Gaga na pele da protagonista. Apesar da trama simples, os norte-americanos parecem ter um certo fascínio por ela. Digamos, porém, que não estamos falando de uma adaptação qualquer. Se trata de uma produção grande, bem realizada e que surpreende por ser apenas o primeiro trabalho de Bradley Cooper como diretor, que aqui também atua. Ainda que as canções apresentadas tenham força, é um musical de atuações, que aposta seu sucesso na forte presença de Cooper e Gaga, encantando como um bom entretenimento que é.

Lady Gaga é Ally, uma garçonete que conseguiu espaço para cantar as noites em um bar. Sua voz potente acaba chamando atenção do cantor Jackson Maine (Bradley Cooper), um astro do rock. Os dois se apaixonam e enquanto a relação entre eles vai crescendo, o sucesso dos dois acaba indo em direções opostas. Ele passa a ser uma espécie de mentor dela que logo encontra os holofotes e a fama repentina. Por outro lado, os problemas de Jackson com bebidas o faz perder cada vez mais o controle de sua carreira, que já não consegue mais seguir os mesmos passos daquela que tanto ama.

A música tem grande importância em “Nasce Uma Estrela”. É através dela que seus personagens expressam seus sentimentos. O amor, a dor e tudo aquilo que eles são feitos. É sincera cada canção apresentada e emociona este poder que possue nas vida de Ally e Jackson. Quando os dois cantam, algo mágico acontece. O filme para e adentramos em um novo universo. Aliás, um dos grandes méritos da obra é esta atmosfera que cria, nos colocando para dentro das cenas musicais e nos fazendo parte daquilo. Seja pelo alto nível da produção, a montagem e até mesmo do som, somos inseridos naqueles shows. O momento em que eles fazem o dueto de Shallow – uma das músicas originais da obra – é hipnotizante. Além disso, é maravilhoso vivenciar um pouco dos bastidores, das conversas e dos raros momentos de inspirações que levam aqueles astros a compor suas canções.

Acredito que o maior problema de “Nasce Uma Estrela” seja sua trama simplória. E pior do que ter uma trama simplória é ter um roteiro que não saiba conduzi-la. É muito fraco o desenvolvimento de tudo. Seja a relação dos protagonistas com suas famílias, seja a estranha facilidade com que Ally se joga nessa aventura e encontra a fama. As coisas fluem de forma picotada, sem muito sentido e sem muita profundidade. É difícil se conectar com essa evolução que os personagens enfrentam simplesmente porque é mal contada. Sinto que a trama foi explicada na primeira meia-hora de filme e tudo o que ele fez até o fim foi nos enrolar com situações repetitivas, que já não nos dizem mais nada. Tem pouco conteúdo e o pouco que tem é previsível demais, o que também não justifica sua longa duração. É frustrante ver o potencial que tinha, pela produção, pelos atores e canções e sentir que a base de tudo não foi bem planejada.

Admiro Bradley Cooper. É um projeto ambicioso demais para um primeiro filme. Não é sempre que ele acerta a mão, mas é nítido sua coragem e seus acertos se sobressaem. Como ator ele é ainda melhor, oferecendo um dos momentos mais relevantes de sua carreira, surpreendendo ainda com sua belíssima voz. A presença de Lady Gaga me deixa em dúvidas. Fiquei o tempo todo tentando caçar esta grande atuação que muitos falaram, mas pouco encontrei. É um papel desenhado para ela. Isso é bom porque é difícil imaginar outra artista em seu lugar, por outro lado o filme também enfraquece com essa escolha. Quando sua personagem vira, enfim, uma estrela, a obra estranhamente perde seu brilho, justamente porque já vimos Lady Gaga naquele momento. A dança e as altas notas alcançadas não perderiam o encanto da surpresa se fosse uma atriz que nunca tivesse enfrentado aquilo. Quando poderia ser um clímax, aqui se torna um estado de conforto. Ela, claro, faz tudo extremante bem feito… Mas quando foi que ela não fez? Gosto sim de vê-la em cena e digo que é uma profissional que respeito e admiro mas existe uma exaltação desta sua atuação que nunca se justifica. Ela é poderosa cantando, mas nas cenas dramáticas deixa a desejar. E muito.

“Nasce Uma Estrela” é um belíssimo espetáculo. Apesar dos erros, trata-se de um produto revigorante, marcante e comovente. No entanto, é exatamente o que sua canção Shallow já nos anuncia: vazio. Faz um bem enorme aos ouvidos, mas é vazio.

NOTA: 6,5

  • País de origem: EUA
    Título origina: A Star is Born
    Ano: 2018
    Duração: 135 minutos
    Diretor: Bradley Cooper
    Roteiro: Bradley Cooper, Eric Roth, Will Fetters
    Elenco: Bradley Cooper, Lady Gaga, Sam Elliott

Crítica: Cats

Desastre anunciado

Grande sucesso no teatro, é até estranho pensar o porquê “Cats” demorou tanto para ganhar uma adaptação ao cinema. Lançado na década de 80, o premiado musical conta a história de uma tribo de gatos, os Jellicle Cats, que todo ano precisa realizar uma performance para o líder que dará ao vencedor a entrada para o Paraíso e a chance de uma vida melhor.

Com direção de Tom Hooper (Os Miseráveis), o longa recebeu uma enxurrada de críticas negativas em seu lançamento, principalmente devido ao seu visual. De fato, o resultado de “Cats” é bem desastroso, chegando a ser triste ver um produto com tamanho potencial, receber tal tratamento na tela grande. Os efeitos especiais são bizarros, causando estranhamento pela proporção dos elementos de cena – que ora são grandes demais, ora são pequenos demais – e principalmente pela opção de misturar os traços dos gatos com os dos atores. É tudo involuntariamente assustador, tirando o brilho das apresentações e, infelizmente, de todo o elenco.

Os mais prejudicados, com certeza, foram Jennifer Hudson, que apesar de impressionar pela potente voz, é ofuscada pelo visual e Idris Elba que precisa se esforçar para dar vida para um projeto mal feito de vilão. Rebel Wilson, por sua vez, precisa encarar o pior momento do filme, em um número musical assombroso envolvendo ratos e baratas. O roteiro jamais ajuda, onde tudo é narrado com pressa e um péssimo desenvolvimento. Nenhum personagem parece ter alguma importância, onde todos surgem como um mero adereço de luxo, sem meio e fim, o que enfraquece nosso envolvimento com a trama e com esta mísera trajetória de todos eles.

Nem tudo, aliás, é um desastre. Vale citar a bela performance dos atores novatos e bailarinos aqui, como Francesca Hayward, Robert Fairchild e Steven McRae, que realiza o mais belo instante de “Cats” com o sapateado do gato da estação de trem. Há, ainda, alguns bons respiros como as empolgantes apresentações de “Jellicle Song For Jellicle Cats” e “Mr. Mistoffelees“. Existe boas intenções e isso é nítido em diversos momentos. Mesmo que tudo tenha dado errado, sei que existe uma equipe talentosa por trás de tudo isso que, talvez, vítima de uma produção apressada e gananciosa, foi impedida de realizar algo melhor finalizado.

NOTA: 5

  • Duração: 110 minutos
    Disponível: Telecine Play
    Roteiro: Tom Hooper, Lee Hall
    Direção: Tom Hooper
    Elenco: Francesca Hayward, Robert Fairchild, Jennifer Hudson, Laurie Davidson, Idris Elba, Judi Dench, Ian McKellen, James Corden, Rabel Wilson, Jason Derulo, Taylor Swift