Crítica: Dente Canino

A assustadora mente humana

Vencedor do prêmio de Melhor Filme na Mostra “Um Certo Olhar” no Festival de Cannes de 2009 e indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, “Dente Canino” marca o primeiro grande passo do cineasta grego Yorgos Lanthimos, que posteriormente realizou “O Lagosta” e “O Sacrifício do Cervo Sagrado”. Há uma linguagem muito similar entre suas obras, algo excêntrico que as une e, como consequência, o torna neste diretor singular, único, com forte assinatura. Seus temas são complexos e geram, dentro de suas estranhezas, muitas reflexão, além daquele já conhecido nó no cérebro.

O filme não nos oferece muitas respostas e ao seu decorrer, vamos tentando juntas suas partes para chegar a alguma conclusão, que nunca é muito clara. Vemos um pai que isola seus três filhos dentro de casa e não os permite sair, criando, desde que nasceram, a ilusão de que o universo existe apenas dentro daquele muro. É assustador ver esta realidade distorcida que é oferecido a esses jovens e como eles aceitam tudo como verdade. A omissão do mundo os torna em seres completamente despreparados e dependentes das histórias contadas pelos pais. As sequências são naturalmente perturbadoras, e mesmo que Yorgos saiba inserir humor de forma inteligente e inesperada, é impossível não sentir um constante soco na alma e uma vontade desesperadora de ver os personagens livres de tudo o que nos apresenta.

“Dente Canino” é um filme cru, seco, frio. Suas cenas são fortes e não recebem censura alguma. Yorgos não está disposto a nos privar de sua perversidade, ele nunca está. Da violência ao incesto, tudo causa um imenso desconforto, no entanto, nos traz um estranho prazer de vê-lo, porque nos instiga a permanecer, nos causa curiosidade de compreender seu universo e esta mitologia única que desenvolve ali. E mesmo com a teatralidade que o diretor posiciona e guia seus atores, tudo o que nos mostra é forte porque há uma interessante analogia a tudo o que vivemos, a história dos homens. A caverna de Platão de Yorgos Lanthimos nos faz pensar neste condicionamento humano, em como aceitamos uma cultura e o que julgamos o que é certo pelo aprendizado dado a nossos pais. Somos constantemente moldados pela sociedade, frutos de um conhecimento passado que se reproduz sem muitos questionamentos.

“Dente Canino” nos deixa atordoados ao fim, sufocados por tudo o que nos oferece e que mal conseguimos digerir. Yorgos Lanthimos é um cineasta raro e esta é a grande prova de que ele deve ser levado a sério.

NOTA: 9

  • País de origem: Grécia
    Ano: 2009
    Duração: 94 minutos
    Título original: Kynodontas / Dogtooth
    Distribuidor: –
    Diretor: Yorgos Lanthimos
    Roteiro: Yorgos Lanthimos, Efthymes Fillippou
    Elenco: Aggeliki Papoulia, Hristos Passalis, Mary Tsoni, Christos Stergioglou

Crítica: Corpus Christi

A farsa do bom cristão

Representante da Polônia no Oscar 2020 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, “Corpus Christi” vem para questionar o cristianismo e a hipocrisia dos cidadãos de bem que pregam a religião. Provavelmente seu aparente tema tenha afastado parte de público, mas é um produto necessário, que surpreende pelas reflexões que deixa pelo caminho e dialoga tão bem com tantas culturas, inclusive a nossa.

O filme é incrivelmente bem escrito e já em seus primeiros minutos nos revela sua potente premissa, que jamais perde o fôlego ou interesse. Somos apresentados à Daniel, um jovem que enfrenta uma transformação espiritual em um reformatório e sonha em ser padre, no entanto, sua ficha criminal o impede de realizar isso. Assim que ele é levado para trabalhar em uma serralharia em uma região distante, Daniel renega seu destino e, vestindo sua batina, acidentalmente ele passa a assumir uma paróquia do local. Sua farsa, porém, acaba transformando a relação dos moradores com a religião, com o luto e perdão.

É muito curioso e intrigante toda a jornada do protagonista. Enquanto que no começo, Daniel parece um jovem perdido em busca de encrenca, logo ele assume um papel de grande importância ali, confrontando tantos pensamentos e tradições daquele local. Ainda que ele seja um parasita, passamos a questionar se aquele, de fato, não deveria ser o seu lugar. Que a fé dele não é menos valida que a de ninguém. Ele que vem de uma realidade tão distante, traz uma nova e necessária perspectiva, uma renovação para atos tão calculados de uma religião estagnada. Sua adoração é espontânea e isso acaba gerando uma série de embates que ganham proporções grandiosas na tela. É fascinante toda a discussão que o protagonista traz sobre perdão, logo que aqueles cidadãos tão corretos destilam palavras de ódio quando se veem como donos da justiça e da razão. Eles vivem de uma bondade seletiva, que julga o resto, que exclui. A farsa, ironicamente, deixa de ser a de Daniel, mas de toda aquela comunidade que assume o papel de bom cristão.

Quando o passado do protagonista é revelado, “Corpus Christi” ganha uma camada ainda mais profunda. O longa nos coloca no papel de julgadores, de refletir se deve existir redenção ao jovem criminoso. Existe transformação? Ele merece encontrar seu lugar de paz? O filme termina e nos deixa desolados por sua resolução, longe de ser previsível e tão doloroso quanto realista. Daniel carrega a culpa, o peso de suas escolhas, e mesmo que haja bondade naquele coração, ele está inserido em uma realidade que não lhe dá chances, precisando encarar seu próprio inferno na Terra. Longe do maniqueísmo, longe das tantas definições pregadas pela igreja, a obra expõe a humanidade existente nesses grandes personagens, tão falhos, tão corruptíveis. Qual deles merece a salvação é uma questão cruel e que, dolorosamente, acaba tendo uma resposta ao fim. É a mesma resposta e o mesmo senso de justiça aplicado pela hipócrita fé cristã.

Esta poderosa jornada não teria o mesmo impacto sem a grande performance do ator Bartosz Bielena. Há muitos sentimentos expostos por seu olhar e que nos faz ter empatia por seus passos. Me encanta muito também a relação de seu personagem com a jovem Marta, em como eles se entendem no meio de pensamentos e crenças tão distantes das deles. “Corpus Christi” me pegou de surpresa, por todas essas reflexões e temas tão bem debatidos por este brilhante roteiro. Existe coragem em seus discursos, que vem não para questionar a fé ou diminuir o valor do cristianismo. Vem para indagar, nos fazer olhar para a hipocrisia. Nos fazer olhar para a farsa. Não a farsa do jovem que se faz de padre, mas da farsa que vemos todos os dias, da de pessoas que usam da fé como discurso de ódio. Desta “religião” sem nenhum senso de bondade, igualdade e perdão.

NOTA: 9,5

  • País de origem: Polônia, França
    Ano: 2019
    Duração: 115 minutos
    Título original: Boze Cialo
    Distribuidor: Elite Filmes
    Diretor: Jan Komasa
    Roteiro: Mateusz Pacewicz
    Elenco: Bartosz Bielenia