Crítica: A Escavação

O que sobraria de nós

Baseado no livro de John Preston, que reinventa a história real de um arqueólogo que, a chamado de uma viúva para cavar seu extenso terreno, acaba descobrindo valiosos itens que passam a ser de interesse nacional.

“A Escavação”, recente drama lançado pela Netflix, nos faz pensar nesses pequenos passos dados pela história da humanidade. É um evento pequeno, ignorado, mas que existiu e teve sua importância. Sem a necessidade de um clímax ou uma reviravolta, o texto valoriza essa simplicidade do acontecimento e emociona pela forma delicada com que narra tudo isso. É bonito quando, naquele encontro entre dois personagens, eles revisitam o passado, descobrem uma vida, um momento congelado no tempo, mantido pela terra. Basil Brown, o arqueólogo interpretado por Ralph Fiennes, enxerga seu trabalho como um exercício de resgate, uma ação necessária para o futuro. É preciso cavar para escrever a história e é preciso da história para entender o presente. O roteiro, nitidamente, tem muito carinho por esses personagens que descreve, na relação entre cada um e pela profissão que exercem. Não apenas a arqueologia, é interessante como a fotografia entra aqui também, registrando a beleza de cada pequeno ato, cada encontro.

A trama, que acontece em um período que antecede a Segunda Guerra Mundial, se desenha neste interessante paralelo entre vida e morte. A protagonista, que segue com a dor do luto de perder o marido, assiste, nas ruas, jovens caminhando pela incerteza do confronto. Durante este tempo sombrio, eles cavam o túmulo daquelas terras, tentando descobrir o que um dia morreu ali.

“Se mil anos se passassem em um instante, o que sobraria de nós?”.

No meio das tantas descobertas, os personagens se encontram na reflexão de entender qual o legado deixariam ali, quais seriam os vestígios que sobrariam para o futuro. É assim que a obra se mostra um valioso e belo ensaio sobre o fim, sobre o que deixamos em terra quando não mais estivermos aqui.

“A Escavação” traz uma direção correta de Simon Stone, que não foge muito do que esperamos de um bom drama de época, com belas paisagens e uma trilha sonora empolgante, composta pelo estreante Stefan Gregory. Carey Mulligan é sempre excelente, ainda assim é contestável sua escalação, visto que a personagem é bem mais velha do que ela. Ralph Fiennes também brilha aqui, assim como os bons coadjuvantes de Johnny Flynn, Lily James e Ben Chaplin. Uma obra doce, com boas intenções e que, felizmente, segue em uma admirável crescente, sem perder o encanto e empolgação de seus eventos.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2021
    Disponível: Netflix
    Duração: 112 minutos
    Diretor: Simon Stone
    Roteiro: Moira Buffini
    Elenco: Carey Mulligan, Ralph Fiennes, Lily James, Johnny Flynn, Ben Chaplin

Crítica: Beast

Contra todos

Lançado em 2017, “Beast” soa como uma fábula adulta e moderna, quase como aquelas versões originais e obscuras que descobrimos sobre os contos de fadas. A produção captura essa atmosfera do realismo fantástico para contar uma trama densa, guiada por protagonistas ambiguos. Em uma comunidade rural e afastada, conhecemos Moll (Jessie Buckley), uma mulher que demonstra impotência diante do controle e pressão de sua família conservadora. Claramente insatisfeita com sua vida, ela acaba conhecendo aquele que parece ser sua salvação de sua prisão, Pascal (Johnny Flynn), com quem logo se apaixona. Fascinada pelo misterioso forasteiro, ela precisa lidar com o fato de que ele é o principal suspeito de uma série de assassinatos brutais.

O filme conta com a direção e roteiro do estreante Michael Pearce, que surpreende por conseguir construir um produto que navega, de forma harmoniosa, por diversos gêneros. É brilhante como quando aquilo que começa como um drama familiar e um romance doce se transforma em um potente thriller psicológico, sem jamais parecer inconsistente ou sem provar tamanho domínio sobre essas tantas formas de narrativa. O roteiro, ao inicio, vai te conquistando, te introduzindo àquele universo único e te afeiçoado ao casal protagonista. É belo aquela relação porque os dois se completam, um entende a loucura do outro, a estranheza, o descontentamento. É poderosa essa conexão estabelecida entre eles, o que torna seus desdobramentos ainda mais perturbadores e interessantes.

A mente complexa de nossa protagonista é revelada por um estranho discurso sobre baleias sendo mantidas em cativeiro e como elas se machucam, propositadamente, para que percam seus próprios dentes pois cansaram de sorrir. Essa analogia vem como ilustração de tudo o que nos é mostrado posteriormente. Seja o forasteiro que caça animais silvestres, sejam as garotas brutalmente assassinadas. Curiosamente, essa fera da qual Moll demonstra simpatia, diz muito sobre ela, sobre se sentir enclausurada em sua realidade domesticada. Ela é vista como selvagem pelas pessoas da comunidade e se fascina por aquele homem grosseiro, mesmo quando ele é descrito como assassino. Essa identificação é bastante conturbada, nos fazendo questionar a todo instante o real caráter da protagonista. Seria ela a vítimas ou seria ela o verdadeiro monstro da história? Ela é a fera aprisionada ou é a fera que ataca? É curioso quando a própria Moll teme duvidar de sua bondade, precisando a todo momento reafirmar suas atitudes de boa cristã, cantando no coral e se limitando a viver para cuidar do pai. Essa tensão psicológica ganha cada vez densidade porque nunca vem com respostas fáceis e termina sem nos esclarecer completamente. A brecha que deixa, torna o filme ainda mais poderoso, justamente porque indica aquilo que evitamos acreditar durante toda a história.

Jessie Buckley é uma atriz intrigante. Ela revela essas tantas camadas de sua personagem com garra, com honestidade. Ao mesmo tempo em que ela é doce, nos amedronta, nos faz querer entendê-la. É fantástico o momento em que ela, no limite de sua repreensão, expulsa sua dor aos gritos ou quando ela se enterra, assim como as vítimas que foram mortas. São atitudes bizarras de uma alma solitária, que jamais é ouvida, compreendida, completamente avulsa à realidade. É assustador esse seu fascínio por Pascal, mesmo quando é visto como criminoso. Ela não teme ser igual à ele, pelo contrário, parece se afeiçoar à sua suposta rebeldia, quase como se o entendesse, como se buscasse na violência, na brutalidade, sua vingança contra o mundo, contra todos que a diminuíram. Buckley entrega alma e sentimentos a toda essa complexidade e brilha em cena. Sua parceria com Johnny Flynn funciona, sendo imensamente prazeroso vê-los contracenando. O filme ainda acerta na estética, entregando sequências visualmente poderosas, além da potente trilha sonora. “Beast” é um belíssimo achado. Um projeto audacioso, original e que nega a obviedade a todo instante.

NOTA: 8,5

  • País de origem: Reino Unido, Irlanda do Norte
    Ano: 2017
    Duração: 107 minutos
    Título original: Beast
    Distribuidor: –
    Diretor: Michael Pearce
    Roteiro: Michael Pearce
    Elenco: Jessie Buckley, Johnny Flynn