Crítica: Beast

Contra todos

Lançado em 2017, “Beast” soa como uma fábula adulta e moderna, quase como aquelas versões originais e obscuras que descobrimos sobre os contos de fadas. A produção captura essa atmosfera do realismo fantástico para contar uma trama densa, guiada por protagonistas ambiguos. Em uma comunidade rural e afastada, conhecemos Moll (Jessie Buckley), uma mulher que demonstra impotência diante do controle e pressão de sua família conservadora. Claramente insatisfeita com sua vida, ela acaba conhecendo aquele que parece ser sua salvação de sua prisão, Pascal (Johnny Flynn), com quem logo se apaixona. Fascinada pelo misterioso forasteiro, ela precisa lidar com o fato de que ele é o principal suspeito de uma série de assassinatos brutais.

O filme conta com a direção e roteiro do estreante Michael Pearce, que surpreende por conseguir construir um produto que navega, de forma harmoniosa, por diversos gêneros. É brilhante como quando aquilo que começa como um drama familiar e um romance doce se transforma em um potente thriller psicológico, sem jamais parecer inconsistente ou sem provar tamanho domínio sobre essas tantas formas de narrativa. O roteiro, ao inicio, vai te conquistando, te introduzindo àquele universo único e te afeiçoado ao casal protagonista. É belo aquela relação porque os dois se completam, um entende a loucura do outro, a estranheza, o descontentamento. É poderosa essa conexão estabelecida entre eles, o que torna seus desdobramentos ainda mais perturbadores e interessantes.

A mente complexa de nossa protagonista é revelada por um estranho discurso sobre baleias sendo mantidas em cativeiro e como elas se machucam, propositadamente, para que percam seus próprios dentes pois cansaram de sorrir. Essa analogia vem como ilustração de tudo o que nos é mostrado posteriormente. Seja o forasteiro que caça animais silvestres, sejam as garotas brutalmente assassinadas. Curiosamente, essa fera da qual Moll demonstra simpatia, diz muito sobre ela, sobre se sentir enclausurada em sua realidade domesticada. Ela é vista como selvagem pelas pessoas da comunidade e se fascina por aquele homem grosseiro, mesmo quando ele é descrito como assassino. Essa identificação é bastante conturbada, nos fazendo questionar a todo instante o real caráter da protagonista. Seria ela a vítimas ou seria ela o verdadeiro monstro da história? Ela é a fera aprisionada ou é a fera que ataca? É curioso quando a própria Moll teme duvidar de sua bondade, precisando a todo momento reafirmar suas atitudes de boa cristã, cantando no coral e se limitando a viver para cuidar do pai. Essa tensão psicológica ganha cada vez densidade porque nunca vem com respostas fáceis e termina sem nos esclarecer completamente. A brecha que deixa, torna o filme ainda mais poderoso, justamente porque indica aquilo que evitamos acreditar durante toda a história.

Jessie Buckley é uma atriz intrigante. Ela revela essas tantas camadas de sua personagem com garra, com honestidade. Ao mesmo tempo em que ela é doce, nos amedronta, nos faz querer entendê-la. É fantástico o momento em que ela, no limite de sua repreensão, expulsa sua dor aos gritos ou quando ela se enterra, assim como as vítimas que foram mortas. São atitudes bizarras de uma alma solitária, que jamais é ouvida, compreendida, completamente avulsa à realidade. É assustador esse seu fascínio por Pascal, mesmo quando é visto como criminoso. Ela não teme ser igual à ele, pelo contrário, parece se afeiçoar à sua suposta rebeldia, quase como se o entendesse, como se buscasse na violência, na brutalidade, sua vingança contra o mundo, contra todos que a diminuíram. Buckley entrega alma e sentimentos a toda essa complexidade e brilha em cena. Sua parceria com Johnny Flynn funciona, sendo imensamente prazeroso vê-los contracenando. O filme ainda acerta na estética, entregando sequências visualmente poderosas, além da potente trilha sonora. “Beast” é um belíssimo achado. Um projeto audacioso, original e que nega a obviedade a todo instante.

NOTA: 8,5

  • País de origem: Reino Unido, Irlanda do Norte
    Ano: 2017
    Duração: 107 minutos
    Título original: Beast
    Distribuidor: –
    Diretor: Michael Pearce
    Roteiro: Michael Pearce
    Elenco: Jessie Buckley, Johnny Flynn

Crítica: Estou Pensando em Acabar com Tudo

O tempo que passa por nós

O texto a seguir possui spoilers

Charlie Kaufman é um sujeito interessante. Distante do cinema desde 2015 quando lançou a animação “Anomalisa”, ele sempre despertou em mim um imenso interesse. Há algo único em suas narrativas e uma forma peculiar de contar suas histórias mirabolantes. Suas obras se conversam e soam como um inventivo e melancólico ensaio sobre a vida e um mergulho na psique humana. Desilusões, frustrações, relacionamentos e identidade estão sempre ali e mesmo que ele adapte os pensamentos do livro de Ian Reid, é curioso como suas ideias tão bem dialogam com os estudos de Kaufman. Não haveria outro diretor e roteirista a estar aqui e fico feliz por este bem-vindo retorno.

“Estou Pensando em Acabar com Tudo” é um filme confuso e um grande exercício de reflexão. É o tipo de produto que permite interpretações diversas, que termina e nos deixa ali tentando montar as peças que nos foi mostrada e desvendar suas enigmáticas intenções. Superficialmente, acompanhamos a viagem de uma jovem mulher (Jessie Buckley) para conhecer a excêntrica família de seu recente namorado Jake (Jesse Plemons). Grande parte da trama acontece dentro do carro, o longo caminho que permite que os dois se conheçam, mesmo que, ironicamente, a vontade da protagonista seja terminar com este vazio relacionamento. O tempo todo o filme nos indica que algo de estranho está acontecendo, mesmo que nunca fique claro o que é. Exatamente isso é o que o torna tão assombroso, porque sentimos em cada instante que algo está interrompendo a normalidade. É bizarro, desconfortável e sua atmosfera nos traz esta sensação de incômodo, de que algo errado não está certo.

É difícil comentar do filme sem SPOILERS, então se você não viu, recomendaria pular para o último parágrafo. “Estou Pensando em Acabar com Tudo” me lembra bastante outro trabalho do diretor, “Sinédoque, Nova York” e esta encenação da vida de um homem frustrado diante de tudo aquilo que ele não compreendeu ou do que dói o bastante e precisa ser exteriorizado. Se no começo, “eu preciso acabar com tudo” nos remete ao iminente término de um relacionamento, ao fim compreendemos que se tratava da própria existência de Jake, o real protagonista desta história. Ele é o zelador da escola, introspectivo, solitário, que envelheceu e olha para o passado com amargura por não ter vivido seus tantos sonhos e se dedicado a suas aspirações acadêmicas e artísticas. Ele jamais viveu um relacionamento e cria sua “musa” se inspirando nas histórias de amor que consumiu e justamente por isso ela é inconstante, mudando de nome, perfil e roupas, fruto de uma imaginação que falha, que recria constantemente. O filme, então, é quase como uma jornada às memórias desse homem. Triste ao final da vida, que provavelmente se sacrificou para cuidar dos pais, principalmente da mãe debilitada. Que por eles também, nunca se viu livre para ser quem é por medo dos julgamentos de suas mentes conservadoras. Ao final, Jake se vê apresentando seu ato musical final, cercado de tudo aquilo que ele não teve, aplaudido, reconhecido por seus talentos e um homem imensamente amado por uma mulher. Como a garota diz em certo momento, Jake está parado e o tempo passa por ele, se alimentando, o corroendo, assim como o porco ingerido vivo.

“Estou Pensando em Acabar com Tudo” diz muito sobre como pensamentos revelam nossa verdade. Como somos honestos ao que vem à mente, até mesmo em nossas invenções, aos nossos sonhos. Pensamentos são reais e nos atormentam pela sinceridade que jamais revelaremos ao mundo. Não há blefe quanto ao que sentimos, diferente de nossas ações. Forjamos, atuamos, construímos um personagem para sermos aceitos, para sermos amados. Nunca conheceremos alguém de fato porque jamais teremos acesso aos seus pensamentos, à sua versão mais honesta. Nesse sentido, o filme ainda questiona os relacionamentos e revela o quão assustador pode ser dividir a vida inteira ao lado de alguém sem nunca ter tido a chance de realmente conhecer a outra pessoa. Não estar ao lado de alguém foi um peso que Jake carregou consigo, porque ele está inserido em uma sociedade que jamais aceitou uma vida sem ter um parceiro. A arte, a mídia, os coach sempre tiveram frases prontas para nos motivar e dizer que “existe uma pessoa para cada um”, que “existe o lado bom para todas as coisas”, uma grande besteira escrita por alguém que achou que descobriu como é viver para frustrar aquelas que jamais alcançaram essas falsas afirmações. Existe uma expectativa sobre o que é vencer e é doloroso quando vivemos distante delas, não porque precisamos dessas coisas, mas porque nossas ambições foram pré-determinadas.

Trata-se de um filme que se sustenta dessas metáforas e possíveis interpretações, mas que não funciona ao todo. A condução de Kaufman é arrastada e jamais justifica sua longa duração, o tornando entediante grande parte do tempo. Tive a incômoda sensação que a obra jamais desperta, jamais acontece de fato. Tudo é um ensaio para o fim, um preparo, uma longa introdução para sua real intenção que só é revelada nos minutos finais. A teatralidade e os diálogos que buscam constantemente uma profundidade para as conversas cansam, não geram empatia. Sua alta pretensão é gritante e isso afasta. O elenco, por sua vez, compreende a loucura do texto, permitindo assim com que os protagonistas Jessie Buckley e Jesse Plemons brilhem em cena. David Thewlis e Toni Collette também surgem incríveis. Os últimos minutos de filme são bem caóticos e soam como fragmentos de diferentes produções que não ornam. A cena da morte e a do musical provam a inconstância do trabalho de Kaufman como diretor, um tanto quanto apressadas e estranhamente mal conduzidas. Diferente do livro, ele elimina o tom de thriller e mistério e finaliza seu produto de maneira abrupta e amarga, desvalorizado as ótimas revelações que tinha em mãos, mas que são ofuscadas pela intenção de criar uma confusão narrativa quando não havia necessidade. É um caminho tortuoso até chegar ao fim e a forma como entrega suas respostas é um tanto quanto frustrante.

A produção é bem interessante e acho curioso como ele usa do próprio design para dar pistas sobre a trama, como o figurino dos personagens e as estampas coloridas de seus cenários. O trabalho de maquiagem também é fantástico e me deixou intrigado sobre como tudo foi feito. Apesar das falhas, foi bom poder encontrar um produto autoral como este raramente encontrado na Netflix, com um texto ousado, ainda mais em um ano com tão poucos lançamentos capazes de chacoalhar o mundo cinéfilo, o retorno de Charlie Kaufman se mostra necessário. Me frustra por ser distante de tudo o que eu esperava – uma expectativa impossível de não ser criada por ter lido o livro antes -, mas isso é uma culpa que eu levo e não depositarei no filme. É uma obra difícil, que termina e nos deixa ali desolados, tentando entender, tentando digerir e melancólicos por suas tantas reflexões. Funciona quando pensamos em todo o brilhantismo de seu conceito, sendo um produto que facilmente ecoa em nós, mas a experiência de assisti-lo, infelizmente, é imensamente intragável.

NOTA: 6.5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Duração: 134 minutos
    Título original: I’m Thinking of Ending Things
    Distribuidor: Netflix
    Diretor: Charlie Kaufman
    Roteiro: Charlie Kaufman
    Elenco: Jessie Buckley, Jesse Plemons, Toni Collette, David Thewlis, Colby Minifie