Crítica: Uma Vida Oculta

O herói secreto

Terrence Malick é um cineasta interessante. Sempre foi. Há certas características que somente podemos encontrar em seu minucioso trabalho. Não há mais ninguém fazendo o que ele faz. Ainda que ele tenha nos dado razões para tamanha aclamação ao longo de sua carreira, seus últimos filmes demonstraram, estranhamente, uma grande decaída. Títulos como “Cavaleiro de Copas” e “De Canção em Canção” revelaram um desgaste na sua forma de compor e provaram que Malick se tornou vítima de seus próprios maneirismos. “Uma Vida Oculta” vem, então, quase como um resgate ao que ele era. Pode não ser uma obra-prima, mas finalmente podemos dizer que este é seu melhor filme desde “A Árvore da Vida”, lançado há nove anos atrás.

Mais do que nos remeter a um de seus maiores clássicos, “Cinzas do Paraíso” (1978), a obra traz alguns pontos que, felizmente, se diferem de seus projetos mais recentes. É a primeira vez que vejo Malick contando uma história que não é sua, dando sua visão sobre um acontecimento real. Isso faz muito diferença em sua narrativa, porque finalmente os personagens não perambulam pelas cenas sem nada a dizer e sem um propósito a seguir. Afinal, o cineasta tem fama de não seguir um roteiro. Aqui, seu protagonista tem uma jornada a traçar e um foco muito bem definido a seguir. Franz (August Diehl) é um austríaco que precisa enfrentar um grande dilema em sua vida. Ao início da Segunda Guerra Mundial, ele é obrigado a exercer sua função como soldado, no entanto, ele é completamente contra aos ideias e discursos de Hitler, se negando a lutar ao lado daquilo que não acredita. Porém, este ato é visto como traição da Nação e Franz, assim como sua esposa, passa a ser mal visto por todos ao seu redor, se tornando um fugitivo dentro de seu próprio país.

É novo ver o cineasta contando uma história real e me causa bastante fascínio a forma como ele acabou construindo sua trama. Mesmo que aqui exista um começo, meio e fim – algo raro em sua filmografia – ele ainda traz sua forte assinatura para a tela. É um cinema contemplativo, poético, reflexivo. Que nos faz mergulhar pelos pensamentos e pelas crises existenciais de seus personagens. Através de belas palavras de um texto extremamente delicado, conhecemos o íntimo de seu bravo protagonista. Sua garra, seus sonhos destruídos, sua dor, suas crenças. Malick ainda fala muito de natureza e encontra alma nos campos, nas paisagens. Encontra humanidade em seus poderosos discursos, que divagam sobre fé, integridade e justiça. A jornada de Franz é dolorosa, ainda que encante pela poesia, nos traz um certo pavor e uma angústia diante das consequências que precisa enfrentar devido seu ato corajoso. “Ninguém se beneficia com seu sacrifício”. Este é o peso carregado pelo homem que não quer lutar, que prefere a morte do que trair seus ideais. Desta forma, os últimos minutos do filme são incríveis, de uma profundidade e sensibilidade ímpar.

A produção de “Uma Vida Oculta” é deslumbrante e nos faz brilhar os olhos tamanha a beleza de cada frame. Fotografia, trilha sonora e a rápida e interessante montagem. Tudo ali alcança um nível extremo de perfeição. Terrence Malick continua longe de fazer algo ordinário. Seu pecado continua sendo o fato de não conseguir se desvincular de seus fortes maneirismos. Ele acaba caindo na repetição, de falar a mesma coisa inúmeras vezes e construir sequências com uma similaridade que cansa. É lindo, extremamente bem realizado, mas não foge de sua zona de conforto. Pelo contrário. Poderia ser a chance dele fazer algo realmente novo e ele puxa para mais perto do que já sabe fazer. No mais, ainda é um cinema raro, belo de se ver e sentir. É poesia em forma de filme e somente ele é capaz de fazer isso ainda funcionar. “Uma Vida Oculta” é sobre essas pessoas desconhecidas que quebram regras, que em um ato de loucura, mudam o rumo da história. É sobre esses heróis invisíveis que deixaram um legado. A liberdade que temos hoje foi o sacrifício de alguém lá atrás.

NOTA: 8

  • País de origem: Alemanha, EUA
    Ano: 2019
    Duração: 180 minutos
    Título original: A Hidden Life
    Distribuidor: 20th Century Studios Brasil
    Diretor: Terrence Malick
    Roteiro: Terrence Malick
    Elenco: August Diehl, Valerie Pachner, Bruno Ganz, Matthias Schoenaerts

Crítica: Jojo Rabbit

O discurso de ódio que se reproduz

Indicado ao prêmio de Melhor Filme e vencedor de Melhor Roteiro Adaptado no último Oscar, “Jojo Rabbit” traz o retorno de Taika Waititi na direção depois de realizar “O Que Fazemos nas Sombras” e “Thor Ragnarok”. É seu projeto mais ambicioso até agora e que prova, de vez, sua força como diretor e roteirista. Uma obra que se propõe a ser uma sátira anti-ódio e neste sentido, acaba sendo um produto extremamente atual e que facilmente dialoga com os novos tempos, ainda mais, curiosamente, para nossa realidade brasileira. Taika acerta a mão e realiza um trabalho bastante original, mágico, surpreendentemente triste e doce.

O que torna o texto de “Jojo Rabbit” tão interessante é por revelar a Guerra pelos olhos de uma criança. Jojo, interpretado pelo expressivo Roman Griffin Davis, tem uma visão limitada sobre tudo, inocente e de certa forma, apenas reproduz conceitos e frases que ouviu previamente pelos adultos. Enquanto seu país é dominado pelos Nazistas, ele se junta a outras crianças para ser útil da maneira que lhe cabe. Seu amigo imaginário é Hitler e é ele quem lhe ajuda a enfrentar as difíceis decisões de sua vida. Sua rotina calculada é arruinada quando ele descobre que sua mãe esconde em sua casa uma jovem judia. Este encontro acaba lhe fazendo questionar sobre este ódio doutrinado e que não é, necessariamente, o que sente.

Tinha um certo receio sobre como Taika Waititi faria um filme de comédia sobre a Alemanha Nazista. É um tema delicado e muito fácil de se tornar ofensivo. Surpreende, então, a inteligente maneira que ele encontrou de fazer isso funcionar. “Jojo Rabbit” tem sim seus momentos de humor e acerta em como insere a comédia em seu peculiar universo. Talvez por ter uma criança como protagonista, sua liberdade narrativa é tão bem-vinda. E neste conto belo e mágico, o filme atinge facilmente a comoção. A trama consegue dar boas viradas e emociona, trilhando sabiamente ao drama. Por fim, é aquele tipo de filme que nos faz atravessar por diversos sentimentos, deixando nosso coração apertado por vários instantes. Seu humor, felizmente, não diminui o impacto de sua história, pelo contrário, só acentua o quão cruel e absurdo são seus relatos.

O elenco é todo muito bom, o que torna ainda mais prazeroso de assistir. Taika acerta em sua paródia e diverte com sua inusitada composição de Hitler. Sabiamente, ele aparece pouco, deixando o resto dos atores brilharem. Scarlett Johansson faz por merecer sua indicação ao Oscar. Sua passagem pelo filme é muito bela, emociona e prova o quão versátil ela é capaz de ser. Os jovens Roman Griffin Davis e Thomasin McKenzie são os grandes destaques. Simplesmente incrível o que os dois fazem em cena. É sempre interessante quando atores tão novos são capazes de transmitir tanta coisa. Sam Rockwell, Rebel Wilson e Alfie Allen em ótimas participações. Além das atuações, o filme vem com uma produção muito boa, desde os belíssimos figurinos às ótimas locações de filmagem, destacando seu rico design. Há uma forte inspiração ao cinema de Wes Anderson aqui, nos remetendo facilmente o que ele realizou com “Moonrise Kingdom”. Mais do que cores, texturas e aquela famosa simetria. A forma com as personagens interagem, o rápido e esperto humor e a excentricidade de seu universo também estão aqui.

“Jojo Rabbit” é uma obra que dialoga bem com os tempos de hoje. No tempo das fake news e de como tantos discursos de ódio infundados são reproduzidos facilmente em nome de uma doutrina ou de um fanatismo cego a um líder. É assustador quando conseguimos traçar esse paralelo com nossa realidade e justamente por isso, esta paródia é tão necessária e tão bem-vinda. Taika Waititi entrega um filme maduro, provocativo, sarcástico e surpreendentemente doce e emotivo. A cena final é incrível e, de alguma forma, mesmo pelo peso de seus argumentos, nos faz terminar a sessão com o coração aquecido e uma boa dose de esperança e otimismo.

NOTA: 9

  • País de origem: EUA
    Ano: 2019
    Duração: 108 minutos
    Distribuidor: Fox Film do Brasil
    Diretor: Taika Waititi
    Roteiro: Taika Waititi
    Elenco: Roman Griffin Davis, Thomasin McKenzie, Scarlett Johansson, Taika Waititi, Sam Rockwell, Alfie Allen, Rebel Wilson, Archie Yates, Stephen Merchant